sexta-feira, 29 de abril de 2022

Wild Horse - Diversidade de Terroirs da Central Coast


Nos primórdios desse blog, a partir de uma viagem em maio de 2011 por três das principais regiões vinícolas californianas - Napa, Sonoma e a então pouco conhecida Paso Robles -, escrevi uma série de posts intitulados “Descobrindo a Califórnia” (três inicialmente e com o passar dos anos vieram mais alguns, que o leitor pode ler aqui e aqui).

 Em um determinado ponto da nossa jornada, ao viajarmos de Healdsburg, no norte, para Paso Robles, no sul, a nossa road trip foi interrompida, lá pela metade do Big Sur (uma cadeia de montanhas rente ao mar que divide o sul do norte da Califórnia) na lendária Highway 1, por conta de uma avalanche. Tivemos, então, que pegar uma estrada secundária e sinuosa entre as montanhas, o que nos fez perder bastante tempo.

 Enfim, chegamos em Paso e, como escrevi em post anterior sobre aquela parte da viagem, jantamos no restaurante Enoteca (do Hotel La Bellasera), um “suculento rib eye com uma taça de Wild Horse 2007 Cabernet Sauvignon, nosso primeiro vinho de Paso Robles”.

 Aquele vinho, um rótulo de entrada da vinícola, ficou gravado na memória deste enófilo. Infelizmente naquela viagem não conseguimos visitar a Wild Horse. Nos anos seguintes, sempre que encontrava em viagens um rótulo da Wild Horse, tomava.

 Muitos anos depois, em uma nova viagem à Califórnia, retornamos a Paso Robles, e já com o firme propósito de visitar a Wild Horse Winery & Vineyards.

 E a nossa visita superou as expectativas. Minha esposa e eu com duas crianças fomos muito bem recebidos e lá passamos uma tarde inesquecível.

 Antes de passar aos vinhos, um destaque. A vinícola é kids friendly, e foram oferecidos suquinhos de maçã, frutas para alimentar as duas lhamas que lá residem (uma delas, a Dolly, batiza um dos vinhos de alta gama da vinícola), e ainda havia no gramado o tradicional e popular jogo norte-americano Cornhole (no Brasil, chama-se “jogo do saco de feijão”, leia aqui), para as crianças se entreterem enquanto os pais degustavam os vinhos.

 

No tasting room aprendemos sobre a vinícola e sua filosofia, e descobrimos que a Wild Horse tinha muito mais a oferecer do que os excelentes vinhos de entrada que até então conhecíamos (Cabernet Sauvignon, Merlot) e mais facilmente encontrados nas grandes lojas de vinhos norte-americanas (Total Wine & More, Wine.com etc...).

 A Wild Horse Winery & Vineyards se localiza em Templeton, na região de Paso Robles e recebe seu nome dos cavalos selvagens que habitam as colinas ao leste da vinícola. Há um vinhedo contíguo à sede. Essa estratégica localização permite que a Wild Horse busque uvas de vinhedos de diversas outras AVAs (American Viticultural Area) da chamada Central Coast (Arroyo Grande, Edna Valley, Santa Maria Valley, Santa Barbara, Monterey, Santa Rita Hills etc...).

 A Wild Horse Winery & Vineyards oferece uma grande gama de vinhos brancos (Grenache Blanc, Viognier, Chardonnay, Malvasia Bianca) e tintos (Cabernet Sauvignon, Merlot, Grenache, um inesperado Blaufrankisch, etc...), todos de altíssima qualidade.

 Os vinhos com a Pinot Noir são um capítulo à parte, e fazem parte da filosofia da Wild Horse de elaborar vinhos de vinhedos únicos, de AVAs diversas e próximas, de forma a destacar as nuances dos diferentes terroirs da Central Coast.

 Fizemos então um verdadeiro passeio pelos diversos terroirs da Central Coast, guiados pelos vinhos da Wild Horse, e degustamos os seguintes rótulos:

 - Chardonnay Reserve Santa Barbara County 2015: Um vinho opulento, típico Chardonnay californiano “amanteigado”, porém na medida certa.

- Chardonnay Cheval Sauvage Santa Maria Valley 2015: Outro belíssimo Chardonnay, mais austero que o anterior, porém igualmente delicioso. No entanto, pela diferença de preço o anterior ganha fácil no quesito custo x benefício;

- Pinot Noir Reserve Sta. Rita Hills 2014: Uma das AVAs principais e mais reconhecidas para Pinot Noir  em Santa Barbara County, com vinhos opulentos, com muita fruta negra, boa acidez e notas de chá;

- Pinot Noir Reserve Arroyo Grande Valley 2014: quando o provamos da primeira vez percebemos que mais alguns anos tornariam esse vinho ainda melhor e mais complexo, o que percebemos recentemente ao revistá-lo;

- Pinot Noir Reserve Righetti Vineyard Edna Valley 2015: O mais potente dos Pinots da degustação, porém sem perder a tipicidade da cepa, e um dos nossos preferidos;

- Pinot Noir Reserve Bien Nacido Vineyard Santa Maria Valley 2015: O meu Pinot preferido na degustação e oriundo de um dos crus californianos. Um imenso potencial de guarda.

- Pinot Noir Cheval Sauvage Santa Maria Valley 2014: Um Pinot mais “fresco” que os anteriores, porém igualmente elegante.

- Malbec Reserve Paso Robles 2014: Um vinho menos potente que os argentinos, porém apresentando a tipicidade da uva;

- Blaufrankisch Reserve Paso Robles 2015: Esse foi degustado por ser inusitada essa casta na Califórnia, porém não nos encantou;

- Dolly Llama Reserve Paso Robles 2014 (44% Cabernet Sauvignon, 22% Petit Verdot, 21% Grenache, 13% Syrah): em geral, somos “arredios” a esses assemblages não clássicos. No entanto, esse vinho nos encantou no primeiro gole e trouxemos três garrafas dele...

 Todas essas lembranças vieram à tona recentemente, ao degustarmos um espetacular Wild Horse Pinot Noir Reserve Arroyo Grande Valley 2014, um dos vinhos que provamos e compramos na ocasião e, imediatamente, fomos transportados para aquela inesquecível tarde em Templeton.


 Rememorar boas experiências é um dos grandes prazeres de um wine hunter... Cheers!

 

 

 

 

 

quinta-feira, 31 de março de 2022

Quinta dos Murças, o Projeto da Esporão no Douro

A Herdade do Esporão é uma das mais importantes vinícolas do Alentejo, em Portugal. Reconhecida como uma das principais marcas de vinhos portugueses dispensa apresentações aos enófilos.

Desde o final da década de 2000, o grupo Esporão voltou suas atenções para a festejada região do Douro, em busca de novos desafios.

Em outubro de 2008, o Grupo Esporão, convencido das diversidades e qualidades dos terroirs da propriedade, adquiriu a Quinta dos Murças. A propriedade pertencia até então à família Pinto de Azevedo, que desde a década de 1940 vinha recuperando e plantando novas vinhas, com experimentações e inovações (como a primeira vinha vertical da região plantada em 1947). Inclusive o primeiro vinho tranquilo Quinta dos Murças é lançado em 1994 (safra 1992), período que contou com João Nicolau de Almeida como responsável técnico (e que implantou diversas vinhas verticais na propriedade). 

Ainda em 2008 a Esporão realizou sua primeira colheita na Quinta dos Murças, inclusive lançando alguns anos depois, em 2011, o Quinta dos Murças Reserva 2008 (do qual tenho a sorte de ter uma garrafa Magnum).

 Em 2009 e 2010 iniciou-se um processo de recuperação da infra-estrutura e da adega, de replantio das vinhas e plantação de novas vinhas.

 Os primeiros vinhos da moderna Quinta dos Murças (já sob a administração do grupo Esporão) foram lançados em fevereiro de 2011: o Quinta dos Murças Reserva 2008 e o Assobio Tinto 2009. O enólogo era então o australiano Daven Baverstock. 

Em 2014, a Quinta dos Murças, no rastro do sucesso do Assobio Tinto (a safra 2011 recebeu no ano de 2013 incríveis 94 pontos da Wine Spectator) ampliou seu portifólio, lançando os vinhos Assobio branco e rosé.

 No ano seguinte, em julho, José Luís Moreira da Silva passa a ser o gestor vitivinícola da Quinta dos Murças. Adota como filosofia a interferência mínima em todo o processo de elaboração dos vinhos, da vinha até a adega, com o escopo de que os vinhos reflitam o caráter único de cada parcela, explorando cada micro-terroir da Quinta dos Murças.

 Já em 2016, com os micro-terroirs da quinta mapeados e melhor identificados, trabalho que contou com o precioso auxílio da Unité Vigne et le Vin (do Centre INRA d’Angers-Nantes), a Quinta dos Murças amplia seu portifólio de vinhos tranquilos lançando três vinhos: Quinta dos Murças Minas; Quinta dos Murças Margem; e Quinta dos Murças VV 47. Todos buscando refletir os distintos terroirs da propriedade.

 Como apreciador dos vinhos da Quinta dos Murças, inclusive de seus vinhos do Porto, aproveitei uma viagem ao Douro e visitei a vinícola.

 Assim, em uma ensolarada manhã de janeiro, com uma agradável temperatura em torno de 10-12°C, visitamos a Quinta dos Murças, em Covelinhas, perto de Peso da Régua.

 Fomos recebidos pelo simpático Sr. Manuel Machado, um dos responsáveis pelo enoturismo da Quinta dos Murças.

 Na primeira parte da visita, estivemos na adega e conhecemos mais sobre os vinhos da Quinta dos Murças, suas diferentes propostas e a filosofia de expressão de cada micro-terroir da propriedade. Provamos diretamente das cubas os vinhos Assobio - branco e rosé.

 Na sequência, visita à belíssima casa principal da quinta, totalmente recuperada e restaurada em 2017. Lá degustamos os vinhos da Quinta dos Murças, juntamente com um delicioso almoço.

Da linha Assobio, provamos o branco 2020 (Viosinho, Verdelho, Rabigato, Gouveio e Códega do Larinho); o rosé 2020 (Touriga Nacional, Tinto Cão, Tinta Roriz e Rufete) e o tinto 2019 (Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca). Essa é a linha de entrada da Quinta dos Murças, e impressiona pela imbatível relação preço x qualidade que oferece. São elaborados em vinhas em encostas íngremes, de orientação norte, mais protegidas do sol, em um dos limites da Quinta dos Murças, de onde, poeticamente diz-se que “quando o vento passa pode-se ouvi-lo a assobiar”.

Na sequência, provamos os chamados vinhos de terroir da Quinta dos Murças:

 1) Quinta dos Murças Minas 2018 (Tinta Roriz, Tinta Amarela, Tinta Barroca, Sousão, Touriga Nacional e Touriga Franca): vinhedos mais novos (entre 1987 e 2011) e que se encontram plantados em patamares e em vinhas verticais. A exposição é sul, e o terroir é marcado pela existência de 5 minas d’água que ajudam a refrescar o ambiente. Os solos são xistosos. Um vinho com fruta madura e fresco.

 2) Quinta dos Murças Margem 2019 (Touriga Nacional e Touriga Franca): oriundo de uma parcela junto ao rio Douro, com vinhas velhas e verticais (1980-1987) com exposição sul e oeste, e solos com blocos e seixos de xisto e xisto rolado. A localização junto ao rio acarreta um clima mais quente e, por conseguinte, a vinha produz uvas de maior concentração e maturação. Fruta, álcool e acidez muito bem integrados nesse belíssimo vinho.

 3) Quinta dos Murças Reserva 2015 (Tinta Roriz, Tinta Amarela, Tinta Barroca, Sousão, Touriga Nacional e Touriga Franca): plantado em vinhas verticais e velhas (1980-1987), com exposição sul e oeste, solos de micaxisto. Extremamente elegante e com potencial de guarda.

 4) Quinta dos Murças VV 47 2015 (Tinta Roriz, Tinta Amarela, Tinta Barroca, Sousão, Touriga Nacional e Touriga Franca): o nome desse vinho faz alusão à sua proveniência, a vinha vertical mais antiga do Douro, plantada em 1947. A vinha tem exposição sudeste e os solos são xistosos e se localizam no meio de uma das encostas da propriedade (262-292 metros). Um vinho histórico e espetacular, extremamente elegante. 

 Os vinhos escoltaram maravilhosamente o delicioso almoço servido (sopa de espinafre, pães frescos com o azeite da Quinta dos Murças, e vitela). O grand finale foi um delicado pão de ló (meu filho mais novo diz que foi a melhor sobremesa da viagem) harmonizado com o Porto Quinta dos Murças Tawny 10 Years, um antigo favorito.

 Após o almoço, ficamos no jardim da sede contemplando o rio Douro, bebericando uma taça do Quinta dos Murças Tawny 10 Years.

 Depois, para finalizar, o Sr. Manuel Machado nos levou para visitar os vinhedos a bordo de um Jeep 4x4. Tivemos então a oportunidade de ver in loco as vinhas do VV47, as vinhas dos Quinta dos Murças Minas, Margem e Reserva, em uma paisagem belíssima com vista para o rio Douro.

Alguns dias depois, ainda em Portugal, não resisti e abri o Quinta dos Murças Ânfora 2017, elaborado com as uvas Tinto Cão e Tinta Francisca, a partir de parcela específica do Minas plantada em 2011 em patamares, em altitudes entre 110-300 metros. Esse vinho, de produção limitada, é uma das experimentações da equipe de enologia da Quinta do Murças (uma outra experiência que soubemos na visita é um rosé vinificado em ânfora, com uvas colhidas 15 dias antes da maturação, e da safra 2018), com vinificação em ânforas de terracota, com leveduras indígenas e estágio na própria ânfora. Um vinho muito fresco e elegante, que muito nos surpreendeu. 

 Uma visita inesquecível com vinhos especiais! Saúde! 

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Maison M. Chapoutier - Visita e Degustação

Visitar uma vinícola é um dos grandes prazeres de um apreciador de vinhos. O motivo não é apenas ver onde os vinhos são elaborados, aprender o método de vinificação ou degustar rótulos de edição limitada ou de safras diversas das correntes no mercado. O grande motivo de visitar uma vinícola é, sim, poder ser transportado de volta ao local e relembrar momentos especiais ao degustar um vinho em casa ou em outro lugar, ou seja, é criar um sentimento específico de nostalgia.

 Degustando ontem um M. Chapoutier Châteauneuf-du-Pape La Bernardine 2015 surgiu esse sentimento de nostalgia, e, automaticamente, me vi transportado para uma incrível visita à Maison M. Chapoutier em setembro de 2019.

 A Maison M. Chapoutier tem sua sede em Tain-l’Hermitage, elaborando vinhos de vinhedos próprios e atuando como négociant.

 A história da Maison M. Chapoutier remonta ao ano de 1879 quando a família adquiriu seu primeiro vinhedo.

 No final da década de 1970 os irmãos Michel e Marc Chapoutier assumem o negócio e começa a grande revolução da vinícola. Na década de 1980, sob o comando de Michel Chapoutier, os vinhos da vinícola passam a atrair a atenção dos críticos internacionais, ganhando reputação.

 Em 1989 Michel Chapoutier cria uma linha de vinhos de seleções específicas dentro de vinhedos em diversas apelações, as Sélections Parcellaires, com o escopo de melhor expressar as nuances dos diversos terroirs do Rhône.

 No ano seguinte, Michel Chapoutier passa a colocar em prática o cultivo biodinâmico de seus vinhedos, convertendo-os um a um. Hoje todos os seus vinhos são biodinâmicos.

 Uma das características do estilo de Michel Chapoutier é a preferência por vinhos do Rhône setentrional monovarietais. Assim, seus brancos de Crozes-Hermitage, Hermitage, Saint -Joseph e Saint-Peráy são sempre com Marsanne sem corte com a Roussanne. Seus tintos das apelações Crozes-Hermitage, Hermitage, Saint -Joseph e Côte-Rôtie são sempre 100% Syrah, sem adição de uvas brancas permitidas.

 Nos seus vinhos tintos Châteauneuf-du-Pape, o foco é sempre a Grenache, embora acabe cortando com pequenas quantidades de outras uvas tintas permitidas na apelação.

 Atualmente, Chapoutier produz vinhos em praticamente todas as apelações do norte e do sul do Rhône, além de vinhos de algumas apelações no Roussillon.

 Os vinhos do Rhône da Maison Chapoutier dividem-se em diversas linhas, sempre marcados pela alta qualidade dentro de sua respectiva faixa de preço, com destaque para os vinhos das linhas Fac&Spera (de seleções de vinhedos específicos, os chamados Sélection Parcellaire), Excellence e Prestige.

 A Maison Chapoutier produz ainda vinhos, em colaboração ou em projetos solos, na Alsácia e na Alemanha, um de seus novos projetos, e em Portugal, Espanha e Austrália, mostrando o espírito irrequieto e explorador de Michel Chapoutier.

 Um dos destaques da Maison Chapoutier é o uso do braile em todos os seus rótulos, tendo sido a primeira vinícola a adotar tal prática. Michel Chapoutier teve a ideia de adotar o braile em seus rótulos ainda na década de 1990, após ouvir de um amigo cego, o cantor Gilbert Montagné, que este precisava sempre de um acompanhante para poder escolher uma garrafa de vinho em uma loja. As informações em braile nos rótulos incluem o produtor, a safra, o vinhedo, a região e a cor do vinho.

 Uma outra curiosidade sobre Michel Chapoutier reside no seu amor pelas artes, em especial dos aborígenes australianos. Nas paredes da sede da Maison Chapoutier tivemos a oportunidade de ver algumas dessas pinturas, com indicações do artista, etnia e demais detalhes, tornando ainda mais agradável a visita à vinícola.


 Em nossa visita, após passear pelo vinhedo de Hermitage com nosso anfitrião Thibaut Tracol, tivemos o prazer de degustar uma inesquecível e especial sequência de vinhos da Maison Chapoutier, representativos de diversos terroirs do Rhône setentrional e um Châteauneuf-du-Pape tinto e um branco das Côtes du Roussillon:

A)   M. Chapoutier Domaine de Bila-Haut Occultum Lapidem Côtes du Roussillon Blanc 2017 (Grenache Blanc, Vermentino): um corte de 70% Grenache Blanc e 30% Vermentino, também localmente conhecida como Rolle, o vinho apresentou, no nariz, frutas de caroço (damasco, pêssego) e um leve toque floral, com conjunto bem integrado;

B)   M. Chapoutier Lieu-dit Hongrie Saint-Péray 2017 (Marsanne): a AOP Saint-Péray é um dos Crus do norte do Rhône subestimada, eclipsada pelos brancos dos Crus vizinhos. Esse espetacular vinho de parcela única demonstra que isso pode ser um erro, apresentando complexidade no nariz, com notas ligeiramente torradas de brioche, aromas de pêssego branco, erva-doce e anis, com um longo final em boca.

C)  M. Chapoutier Invitare Condrieu 2017 (Viognier): para aqueles que adoram Condrieu, esse vinho tem toda a tipicidade que se espera da AOP, com aromas de abacaxi, flor de acácia, lichia, damasco e pêssego branco, com um final longo em boca com notas de baunilha;

D)  M. Chapoutier Chante-Alouette Hermitage Blanc 2017 (Marsanne): Um Hermitage blanc elaborado 100% com a Marsanne e extremamente elegante e complexo, com notas de mel, marmelo, gengibre, flor de acácia, com um longo final em boca com notas de amêndoas. Um dos nossos preferidos;

E)   M. Chapoutier Les Meysonniers Crozes-Hermitage 2017 (Syrah): elaborado a partir de vinhas com no mínimo 25 anos, apresenta boa tipicidade, com o típico aroma de violetas. Um dos grandes custos-benefícios;

F)   M. Chapoutier Les Arènes Cornas 2016 (Syrah): para fãs de vinhos da AOP Cornas (como eu), um vinho opulento e elegante, apresentando em boca amoras, especiarias, cereja, com taninos densos e firmes com grande persistência;

G)  M. Chapoutier Pie VI Châteauneuf-du-Pape 2016 (Grenache, Syrah): um assemblage de 65% Grenache e 35% Syrah, um dos Châteauneuf-du-Pape mais emblemáticos da Maison, com taninos macios, apresentando grande equilíbrio, concentração e complexidade, com destaque para um final longo com toques de especiarias e chocolate amargo;

H)  M. Chapoutier Monier de la Sizeranne Hermitage 2014 (Syrah): Um blend de vinhedos específicos de Hermitage (Les Bessards, com solos graníticos; Le Méal, com antigos terraços aluviais, com muitos cascalhos e calcário; e Les Greffieux com solo siltoso com telhas), apresentando aromas de amoras e groselhas pretas e um leve toque de alcaçuz. Na boca, se mostra concentrado com taninos macios e um leve toque apimentado.

Todos excelentes vinhos, diversos entre si, e que exprimem seus respectivos terroirs.

 Porém, o grande desafio foi escolher o que comprar na loja da Maison Chapoutier, com diversos outros rótulos, inclusive de outros países em que Michel Chapoutier elabora vinhos.

 Santé!












domingo, 5 de dezembro de 2021

Entendendo os Portos Late Bottled Vintage

Há cerca de quinze anos atrás quando me interessei com mais afinco pelos vinhos do Porto, meu amigo de tantos copos e cofundador desse blog me deu a dica: os “LBVs são um dos melhores custos-benefícios dentre os vinhos do Porto”. Realmente, os Late Bottled Vintages custam bem menos do que seus irmãos mais velhos e conhecidos, os Portos Vintages.

Mas afinal, o que são os Portos Late Bottled Vintage? Qual seu processo de vinificação? Qual a diferença para os Portos Vintages? O que esperar desses vinhos?

 Primeiro, precisamos revisitar alguns conceitos básicos sobre vinhos do Porto. Os Portos são vinhos únicos e fortificados, ou seja, são vinhos nos quais, quando a fermentação chega a 5-9% vol., adiciona-se aguardente vínica neutra, interrompendo-se a fermentação. Esse processo é chamado pelos franceses de mutage, e a adição de aguardente vínica durante a fermentação mata as leveduras, fazendo com que o vinho fique com uma doçura considerável e com um nível alcóolico entre 19% e 22% vol.

 Os vinhos do Porto tintos se dividem em duas grandes categorias: Ruby e Tawny. Basicamente a diferença entre essas categorias - que vão contar, por seu turno com diversas subcategorias - reside no tipo de recipiente utilizado e um maior ou menor contato do vinho com oxigênio durante seu envelhecimento.

 Nos vinhos do tipo Ruby os produtores buscam minimizar o efeito do oxigênio no vinho, envelhecendo os vinhos em grandes recipientes de carvalho ou em tanques de aço inox por curtos períodos.

Já os Tawnies envelhecem por longos períodos e de forma oxidativa em “pipas”, que são barris de carvalho menores que os usados para os vinhos do tipo Ruby.

 Os LBVs, por seu turno, são uma categoria de vinhos do Porto Ruby. Segundo o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, o vinho Late Bottled Vintage é um “Porto Ruby de um só ano, selecionado pela sua elevada qualidade engarrafado depois de um período de envelhecimento de entre quatro a seis anos” (https://www.ivdp.pt/pt/vinhos/vinhos-do-porto/categorias-especiais/).

 Os vinhos do Porto Late Bottled Vintage foram criados em 1970 por Alistair Robertson, atual presidente da Taylor’s, como uma espécie de segundo vinho, uma alternativa aos Portos Vintage. O objetivo era um vinho mais em conta que os Portos Vintage e que também estivesse pronto para ser bebido mais cedo.

Os LBVs são sempre de uma única safra, tal qual os Vintages, e envelhecem de 4 a 6 anos antes de serem engarrafados.

 Mesmo dentro da categoria dos LBVs há algumas distinções. A maior parte dos vinhos LBV é filtrada e estabilizada antes do engarrafamento. São mais similares aos Portos Ruby de entrada e reservas, já prontos para beber quando lançados no mercado e raramente se beneficiando do envelhecimento em garrafa, ao contrário dos Portos Vintage. São exemplos desse estilo os vinhos LBV das casas Càlem, Ramos Pinto, Cockburn’s e Sandeman.

 Um segundo tipo de vinhos do Porto Late Bottled Vintage consiste em vinhos que não são filtrados antes do engarrafamento. Esses vinhos são mais similares aos Portos Vintage e podem se beneficiar de tempo em garrafa. Por não serem filtrados, possuem um depósito de sedimentos no fundo da garrafa e por vezes precisam ser decantados. Exemplos desse tipo são os vinhos LBV das casas Taylor’s, Fonseca, Smith Woodhouse, Quinta do Crasto, Graham’s e Dow’s. 

Como aprendi anos atrás com meu amigo e pude comprovar ao longo dos anos, os vinhos do Porto Late Bottled Vintage podem ser excelentes opções aos Vintages, em especial em épocas de câmbio tão desfavorável para nós brasileiros.

 Saúde!