quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Herdade dos Templários – Visita e Degustação

Embora seja um país territorialmente pequeno, Portugal possui uma grande riqueza de castas autóctones que originam diversos estilos de vinhos, dos espumantes e frisantes, aos vinhos fortificados passando por vinhos tranquilos (“vinhos de mesa”, termo que não deve ser confundido com os vinhos “de mesa” brasileiros elaborados com uvas não viníferas) brancos, rosados e tintos. Produz-se vinho do norte ao sul de Portugal, e sempre há uma surpresa a nos esperar em uma viagem pelo país.

Em janeiro desse ano, visitei a histórica cidade de Tomar, no centro de Portugal, conhecida como a cidade dos cavaleiros Templários. Um local cuja história remonta aos romanos quando era conhecida como Sellium, passando pela ocupação moura (quando passou a se chamar Thamara), até chegar à época dos Templários (a partir de 1147 quando a Ordem dos Templários recebe Tomar do Rei Afonso Henriques) e, posteriormente, a sua sucessora Ordem de Cristo (a partir de 1365). Um dos principais monumentos da cidade é o Convento de Cristo, um conjunto de edificações construído pelos Templários ao longo dos séculos e classificado desde 1983 como patrimônio mundial da UNESCO. Um destino imperdível em Portugal!

Pesquisando sobre as demais atrações de Tomar, claro que não resisti e resolvi verificar os vinhos da região, no caso a região do Tejo, e as vinícolas ali perto.

Acabei por descobrir uma pequena vinícola nos arredores de Tomar, com o sugestivo nome de Herdade dos Templários. Com a curiosidade aguçada, estabeleci contato e agendei uma visita.

No final de uma ensolarada e agradável manhã de sábado, cheguei com meu grupo na Quinta do Cavalinho, onde se situa a Herdade dos Templários, na localidade de Valdonas, nas cercanias de Tomar. Fomos recebidos pela Sra. Andreia Neto, responsável pelo enoturismo da vinícola.


Iniciamos nossa visita com uma caminhada pelos vinhedos seguida de uma visita às instalações da adega, brindados com explicações sobre a história da propriedade, as vinhas e uvas ali plantadas e os vinhos elaborados.

A Herdade dos Templários, fundada em 1989, é uma vinícola familiar, com uma produção pequena, e cujos vinhos podem facilmente ser encontrados em Tomar.

As uvas plantadas na quinta da Herdade dos Templários são Touriga Nacional, Castelão, Aragonez, Syrah, Cabernet Sauvignon, Merlot, Alicante Bouschet, Moscatel Galego Roxo (tintas), Fernão Pires, Chardonnay, Arinto, Riesling e Sauvignon Blanc (brancas). 

Os solos em que as vinhas estão plantadas são argilosos e calcários com presença de xisto.

Após a visita ao vinhedo e às instalações da adega, passamos para a aconchegante sala de provas.

Degustamos alguns dos vinhos da Herdade dos Templários:

1) Herdade dos Templários Vinho Branco DOC do Tejo Tomar 2019: Um assemblage de Arinto, Fernão Pires e Riesling. Um vinho fresco, com frutas tropicais como maracujá e tangerina, bem agradável.

2) Herdade dos Templários Vinho Rosé DOC do Tejo Tomar 2019:elaborado exclusivamente com a Merlot, extremamente elegante, com aromas de frutas vermelhas como cereja, agradou bastante a todos do grupo;

3) Herdade dos Templários Colheita Selecionada DOC do Tejo Tomar 2019: um corte de Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Cabernet Sauvignon, com estágio de 6 meses em barricas de carvalho. Extremamente elegante, com notas de cerejas e ameixas negras, alcaçuz e taninos macios. Foi nosso vinho preferido na degustação, com excelente custo-benefício! Um daqueles vinhos que fica na memória.

4) Convento de Tomar Reserva DOC do Tejo Tomar 2016: um original assemblage de Touriga Nacional, Syrah e Cabernet Sauvignon, com estágio de 9 meses em barricas de carvalho. Notas de frutas pretas, como ameixas e mirtilos, café, cacau e pimenta;

5) Sellium Vinho Licoroso: um vinho fortificado, não- safrado elaborado exclusivamente com a Moscatel Roxo. Um belíssimo vinho de sobremesa, com notas de caramelo e de pêssego em compota. Sellium é o antigo nome romano de Tomar.

Além dos vinhos destacados acima, comprei e provei dias depois, ainda em Portugal, o Herdade dos Templários Grande Escolha DOC Tejo Tomar 2018. Um delicioso monovarietal elaborado com a Touriga Nacional, com estágio de 15 meses em barricas de carvalho. Vinho elegante, bem representativo da tipicidade da casta, com notas de violeta, alcaçuz e framboesas.

A Herdade dos Templários produz outros vinhos, como um monovarietal de Merlot. Porém, por sua produção pequena, não estavam disponíveis quando fomos em janeiro.

Tomar por si só já é um destino imperdível em Portugal, porém conjugada com uma visita à Herdade dos Templários tornou ainda mais especial a viagem!

Saúde!



terça-feira, 25 de outubro de 2022

Torre do Esporão – Degustação Vertical

A Herdade do Esporão dispensa apresentações. Reconhecida pela alta qualidade de seus vinhos, é um dos embaixadores do vinho português, em especial os alentejanos.

Como tive a oportunidade de escrever antes, a história da Herdade do Esporão remonta ao século XIII. Porém, é em 1973 que se inicia sua história como vinícola, ano em que José Roquette e Joaquim Bandeira adquiriram a Herdade do Esporão.

Após superar as dificuldades dos primeiros anos, é em 1985 que realiza sua primeira colheita ano em que lançou a marca Esporão.

Nesses quase 50 anos, o grupo Esporão se consolidou e se expandiu. Além de estabelecer no mercado os vinhos da Herdade do Esporão, desenvolveu outros projetos, como a Quintados Murças, no Douro; a Quinta do Ameal, na região demarcada dos Vinhos Verdes; e recentemente uma pequena cervejaria artesanal no Porto.

 Recentemente, por ocasião do lançamento do exclusivo Torre do Esporão 2017, tive a oportunidade de participar de uma degustação vertical desse ícone comandada por João Roquette, CEO da Esporão.

 O Torre do Esporão é um vinho de altíssima gama da Herdade do Esporão, contando até hoje com apenas quatro edições: 2004, 2007, 2011 e o recém-lançado 2017.

No evento foram degustados os vinhos Torre do Esporão das safras 2007, 2011 e 2017 (o 2004 está esgotado), todos vinhos únicos e especiais.

 Iniciamos pelo 2007, ano considerado um dos melhores no Alentejo, ano mais fresco do que o usual. Um assemblage de Aragonez, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah, com estágio de 18 meses em barricas novas seguido de três anos em garrafa. O vinho surpreendeu, mostrando-se muito vivo, com fruta ainda presente, notas de flor de laranjeira, figo, ameixa seca, menta e notas balsâmicas, já com aromas terciários surgindo. Final longo e persistente. Madeira se sobressaindo, até mesmo por conta do estilo em voga na época, com alta extração.

Já o 2011 apresenta um assemblage de Touriga Franca (40%), Alicante Bouschet (30%) e Syrah (30%), com estágio de 18 meses em barricas novas e três anos em garrafa. Apresentou taninos em harmonia com a acidez, com muita concentração e notas de frutas negras, cacau, menta e algumas notas de especiarias com final longo e persistente. Um belíssimo vinho com muitos anos de vida pela frente.

 A estrela da noite, o Torre do Esporão 2017, não decepcionou! Embora com 5 anos de vida, revelou-se muito especial, fruto de um ano tido como um dos melhores no Alentejo.

 O Torre 2017 é uma corte de Aragonez (40%), Touriga Franca (30%), Alicante Bouschet (25%) e Touriga Nacional (5%), com origem em vinhedos diversos, criando um mosaico especial.

A Aragonez é oriunda da Vinha Canto do Zé Cruz plantada em 1980 a 200 metros de altitude, com solos franco-arenosos com presença de granito e argila após 20 metros de profundidade; a Touriga Franca vem da Vinha do Rochedo (plantada em 2005 também a 200 metros de altitude, com solos  de transição entre xisto e granito com textura franco-arenosa) e a Touriga Nacional vem da Vinha do Badeco plantada em 1988 a 200 metros de altitude (solos xistosos), todas parcelas dentro da Herdade do Esporão, em Reguengos de Monsaraz.

Já a Alicante Bouschet é oriunda de dois terroirs distintos. 15% dos 25% de Alicante Bosuchet são oriundos da Vinha das Palmeiras, da vizinha Herdade dos Perdigões, em Reguengos de Monsaraz. Plantada em 1996 a 225 metros de altitude, essa parcela apresenta solos argilosos e profundos com excelente drenagem.

 O restante da Alicante Bouschet (10% de 25% do corte) vem da Vinha do Machuguinho da chamada Propriedade dos Lavradores, em Portalegre, agregando mais frescor ao vinho. Plantada em 2003 a 400 metros de altitude, essa parcela apresenta solos arenosos de origem granítica.

Cada uva é fermentada separadamente, inclusive as parcelas de Alicante Bouschet, com exceção das duas Tourigas que são co-fermentadas. A Alicante Bouschet não passa por pisa.

 O vinho então passa por um estágio de 18 meses em barricas de carvalho francês novas e de segundo uso, de 500 litros, e parte em balseiros de 5000 litros. Após há um estágio de três anos em garrafa.

 Ainda em sua juventude, o Torre do Esporão 2017 foi o melhor da vertical, apresentando frutas pretas com notas de cacau, alcaçuz e menta. Um final longo e bem persistente. Com certeza, ganhará em complexidade e elegância nos próximos dez, quinze anos. Um vinho a ser revisitado!

 Uma novidade, no novo posicionamento dos vinhos da Herdade do Esporão: nos anos em que for lançado o Torre do Esporão não haverá o Private Selection tinto. Este somente será lançado em bons anos, mas que não originem o Torre do Esporão. Nos demais anos, não haverá lançamento de nenhum dos dois vinhos, preservando-se um alto standard de qualidade mínima.

 Para escoltar a vertical do Torre do Esporão, foram servidos ainda os não menos deliciosos Private Selection Branco 2020 e o Tinto 2016.

Uma noite mágica com uma inesquecível e histórica degustação de vinhos especiais! Saúde!


terça-feira, 13 de setembro de 2022

Quinta do Crasto – Visita e Degustação

A Quinta do Crasto, no Douro, dispensa apresentações aos enófilos brasileiros, reconhecida por seus vinhos de altíssima qualidade. Qualidade que se expressa não apenas em seus vinhos de alta gama, mas em todas as linhas de vinho da vinícola.

 A história da Quinta do Crasto remonta ao século XVII, com os primeiros registros de produção de vinho no local e considerada nos anos seguintes como uma das propriedades mais importantes do Douro. Na quinta, junto à casa centenária há um dos marcos pombalinos (marcos usados para delimitar a região do Douro) datado de 1758.

 


No ano de 1918 a propriedade é adquirida por Constantino de Almeida, respeitado produtor de vinho do Porto e brandy. A partir de 1923 o filho de Constantino, Fernando Moreira d’Almeida, assume o negócio continuando com a produção de vinho do Porto.

 

No início da década de 1980 Leonor Roquette, filha de Fernando Moreira d’Almeida, assume juntamente com seu marido Jorge Roquette a gestão Quinta do Crasto e iniciam a expansão da vinícola, juntamente com seus filhos Rita, Miguel e Tomás.

 

Em 1994 começam a elaborar vinhos tranquilos com a DOC Douro. A partir daí remodelam as instalações e plantam novas vinhas, modernizando a Quinta do Crasto.

 

Na década de 2000 adquirem mais duas propriedades, a Quinta da Cabreira (2000) e a Quinta do Querindelo (2006).

 

Ainda na década de 2002, nasce o projeto Roquette & Cazes, um projeto de Jorge Roquette (Quinta do Crasto) com Jean-Michel Cazes (Château Lynch-Bages, em Bordeaux), com o objetivo de criar um grande vinho “com as castas do Douro, um vinho que mostre estrutura e complexidade, que possua  poder e o sol de Portugal conjugados com a elegância de Bordeaux” (Jean-Michel Cazes in https://www.roquettecazes.com/historia/). O projeto hoje conta com dois vinhos: Xisto – Roquette & Cazes e Roquette & Cazes, um primeiro e segundo vinhos da vinícola na melhor tradição bordalesa. As uvas dos vinhos são prevenientes da Quinta da Cabreira (da família Roquette), no Douro Superior, e da Quinta do Meco (da família Cazes), no conselho de Foz Côa.

 

A Quinta do Crasto teve ainda um relevantíssimo papel na promoção dos vinhos “de mesa” (não fortificados) do Douro, mostrando ao mundo que o Douro tinha ainda mais a oferecer além do vinho do Porto. O projeto Douro Boys nasce em 2003 para promover internacionalmente os vinhos tranquilos do Douro. O projeto tinha como integrantes João Ferreira Álvares Ribeiro e Francisco Ferreira (Quinta do Vallado), Cristiano van Zeller (Van Zeller & Co), Dirk van der Niepoort (Niepoort), Francisco “Xito” Olazábal (Quinta do Vale Meão), Miguel e Tomás Roquette (Quinta do Crasto). O projeto dos Douro Boys trouxe, assim, visibilidade aos vinhos tranquilos do Douro.

 


Os vinhos da Quinta do Crasto me foram apresentados muitos anos atrás, em 2006. Naquele ano, participei, no Rio de Janeiro, de uma inesquecível degustação. Na ocasião, provei os vinhos de alta gama da Quinta do Crasto: Vinha Maria Teresa 2003, Vinha da Ponte 2003, Touriga Nacional 2003 e Xisto 2003, todos em sua primeira safra.

 

Essa degustação, além de mudar como até então conhecia os vinhos tranquilos do Douro, tornou-me um ardoroso fã dos vinhos da Quinta do Crasto.

 

Nos anos seguintes, tive a sorte e o privilégio de conhecer os demais vinhos da Quinta do Crasto e revisitar o Xisto 2003 - já com 10 anos - e o Maria Teresa 2003 (leia aqui). Degustei diversas safras de todos os vinhos, sempre com dois pontos destacados: a altíssima qualidade e o respeito aos diversos terroirs explorados pela Quinta do Crasto.

 

Porém, ainda faltava uma coisa: visitar a Quinta do Crasto e provar alguns de seus vinhos in loco. Por razões diversas, nas vezes que havia estado no Douro não tinha conseguido visitar a vinícola. Porém, isso mudou no início desse ano.

 

Em uma ensolarada e fria tarde de janeiro, após percorrer uma estradinha cenográfica e com muitas curvas, avistamos a Quinta do Crasto.

 

Era a primeira viagem internacional “pós-pandemia” e estava ansioso para voltar a visitar regiões vinícolas.

 


Chegamos na Quinta do Crasto por volta de 13h.

 

Primeiro visitamos os vinhedos, com uma detalhada e didática explicação sobre os solos do Douro (e o papel do Xisto), as castas autóctones ali plantadas, vinhedos antigos com uvas misturadas e a história da Quinta do Crasto. Nessa oportunidade, avistamos os célebres vinhedos Maria Teresa e Vinha da Ponte.

 

Na sequência, fomos até os lagares (usados na vinícola apenas para os vinhos “monocastas”, os “monovinhas” e para p Reserva Vinhas Velhas), as instalações com as imponentes cubas personalizadas e encerramos na belíssima sala de barricas da Quinta do Crasto.


Uma curiosidade: a Quinta do Crasto é a pioneira no uso do sistema Oxoline, Barrel Stacking System, pelo qual pode-se armazenar até seis níveis de altura de barricas em toda a extensão lateral interior da cave, de forma a otimizar o espaço de armazenamento.
 

Passamos, então, para a Casa Centenária e na sala de jantar fizemos provas dos vinhos (Crasto Douro Branco 2019, Crasto Douro Tinto 2019, Crasto Superior Douro 2017, Quinta do Crasto Douro Reserva Vinhas Velhas 2018, Quinta do Crasto Porto LBV 2015).
 

 Em seguida almoçamos uma típica e inesquecível refeição portuguesa: uma deliciosa sopa de ervilha; o melhor bacalhau com natas que já provei acompanhado de grelos; e, de sobremesa, uma torta de laranja e queijos variados portugueses. Tudo acompanhado com os vinhos e azeites da Quinta do Crasto.


Finalizamos com uma ida até a piscina de borda infinita com o Douro ao fundo, para terminar a visita com mais uma taça do Quinta do Crasto Douro Reserva Vinhas Velhas 2018.

 

Um sonho realizado e uma visita inesquecível! Saúde!







quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Alsácia – Nova Regulamentação da Escala de Doçura dos Vinhos

A Alsácia é uma região única, uma fusão das culturas francesa e alemã decorrente de fatores históricos, como as diversas mudanças em seu domínio. Uma região francesa em que a noção de terroir se destaca, porém convive com os nomes germânicos de diversos de seus vilarejos e vinhedos (e.g. Altenberg de Bergheim). Na Alsácia, onde 90% da produção é de vinhos brancos, os nomes das uvas em geral estão nos rótulos, as garrafas (flutes) são longas e estreitas, e até alguns anos atrás era a única região francesa autorizada a cultivar a Riesling

 Embora a Alsácia seja uma das regiões vinícolas mais ao norte da França, não sofre com o frio e com geadas como ocorre na região de Champagne (região um pouco mais setentrional que a Alsace), contando com um clima continental. 

 

Tal razão se deve ao fato de a Alsácia possuir a proteção natural da cadeia de montanhas Vosges. Essa barreira natural a oeste da Alsácia protege a região dos ventos úmidos e das nuvens carregadas de chuva que vêm do Atlântico. Por conta do efeito protetivo dos Vosges a Alsácia é quente e ensolarada no verão. Isso acarreta o amadurecimento mais lento das uvas, com mais complexidade aromática.

 

Como anotamos em um dos posts que escrevemos em 2019 sobre a Alsácia (relembre aqui e aqui), um dos temas atuais na Alsácia é a questão do grau de açúcar residual nos vinhos brancos. 

 

Tradicionalmente, os vinhos brancos alsacianos, marcados pelo seu caráter aromático, sempre foram vinificados como vinhos secos.

 

Há, por outro lado, vinhos brancos alsacianos doces, de sobremesa (de colheita tardia), mais especificamente as categorias Vendanges Tardives (podem ou não ser afetados pelo fungo Botrytis Cinerea, a chamada “podridão nobre”) e Sélections de Grains Nobles (obrigatoriamente precisam ser afetados pela Botrytis Cinerea), que podem se situar nas AOPs comum ou nas Grand Cru.

 

No entanto, em virtude das mudanças climáticas nos últimos anos, mais e mais vinhos da Alsácia passaram a apresentar maiores graus de açúcar residual, deixando de ser propriamente secos. Isso ocorre por conta do aumento das temperaturas médias, que somada à proteção natural dos Vosges, acarreta uvas colhidas com maior teor alcóolico, e muitas vezes a fermentação termina antes mesmo de todo o açúcar se converter em álcool.

 

Assim, vinhos anteriormente elaborados para serem secos, passaram a ter um maior dulçor, passando a ser meio secos. Ou seja, houve uma considerável mudança no estilo dos vinhos alsacianos.

 

Na safra de 2008 chegou a ocorrer uma pequena mudança regulamentar buscando preservar o estilo seco dos vinhos elaborados com a Riesling, criando-se, em apertada síntese, um nível máximo de 0,9% de açúcar residual (9 g/l), havendo ainda alguns desdobramentos técnicos na regra. Essa regulamentação era válida apenas para vinhos elaborados com a Riesling da AOP Alsace, não se aplicando a vinhos desta AOP com indicação de lieu-dit ou com villages, nem às AOPs Grand Cru. Mesmo assim não havia indicação na rotulagem, que era opcional.  


 A grande dificuldade para o apreciador de vinhos reside no fato de inexistir uma regulamentação para a rotulagem dos vinhos brancos “secos” alsacianos – ou melhor, vinhos que não integrem as categorias Vendanges Tardives e Sélections de Grains Nobles.

 

Assim, muitas vezes estamos diante de um vinho branco alsaciano sem saber se é realmente seco ou meio seco (demi-sec).

 

Como anotamos antes, alguns produtores, como o Domaines Schlumberger ou o Dopf au Mouloin, colocam indicações nos contrarrótulos das escalas de doçura de seus vinhos (inclusive os Grand Crus), não abrangendo os Vendanges Tardives e Sélections de Grains Nobles. Tais escalas, justamente por não estarem regulamentadas, variam de produtor para produtor.

 

No entanto, recentemente foi dado um primeiro passo para regulamentar os graus de doçura dos vinhos brancos vinificados como secos. Essa nova regulamentação se aplicará a partir da safra de 2021 e apenas aos vinhos da AOP Alsace, não se estendendo, por ora, aos vinhos das AOPs Grand Cru (lembrando que na Alsácia, cada Grand Cru é uma AOP autônoma).

 

A nova escala visualmente é bem similar as que alguns produtores já utilizavam, porém, definindo os parâmetros de doçura:

 

- Seco (sec): açúcar residual até 4 g/l;

- Meio Seco (demi-sec): açúcar residual entre 4 g/l e 12 g/l;

- Meio doce (moelleux): açúcar residual entre 12 g/l de 45 g/l;

- Doce (doux): açúcar residual acima de 45 g/l.

 

Além de constar na rotulagem, as novas informações obrigatórias sobre o grau de doçura (i.e. açúcar residual) dos vinhos deverá constar em material de propaganda, embalagens etc. A intenção é facilitar a informação para o consumidor de vinhos, que saberá exatamente o tipo de vinho que está adquirindo.

 
Ao mesmo tempo, servirá, em especial, para resgatar a imagem geral dos vinhos alsacianos elaborados com a Riesling (meus preferidos na Alsácia), por muitos tidos como doces, embora a maioria seja de vinhos secos.

 

Esperamos que futuramente essa regulamentação se estenda aos vinhos das AOPs Grand Cru alsacianas.

 

Santé!

 

 

terça-feira, 12 de julho de 2022

Château Clinet 1990 e 2010 – Explorando o Pomerol

 

Pomerol é uma pequena AOC (Appellation d'Origine Contrôlée) no Libournais, região de Bordeaux, e uma das mais prestigiosas apelações da chamada “margem direita”. 

 A história da viticultura e da produção de vinhos no Pomerol remonta à ocupação romana. No entanto, o desenvolvimento dessa sub-região bordalesa foi bem distinto das apelações da “margem esquerda” (Saint Julien, Margaux, Paulliac etc.) ou ainda da sua vizinha Saint-Émilion. Sua produção aumentou e diminuiu drasticamente ao longo dos séculos. 

 No Pomerol não houve, como no Médoc, influxos de nobres ricos e banqueiros abastados construindo seus grandes châteaux. Ao revés, a região permaneceu com uma paisagem rural, com algumas fazendas, sem grandes mansões.

Os solos de Pomerol são mais “frios” que os solos das apelações da “margem esquerda”, ou seja, têm presença dominante de argila e calcário. São solos mais densos e, por isso, retêm a umidade, não acelerando o processo de amadurecimento das uvas. Em algumas partes, como em um pequeno platô na localidade, há presença de cascalho, e é onde se localizam alguns dos melhores vinhedos. Para o oeste da apelação os solos argilosos (uma argila azul chamada de molasse) são ricos em ferro e conhecidos como crasse de fer, produzindo vinhos complexos.

 Por conta desse tipo de solo, Pomerol é o pináculo da Merlot, a principal uva da apelação (80% dos vinhedos). Em geral, a Merlot acaba complementada pela Cabernet Franc e por um pouco da Cabernet Sauvignon. Não raro os vinhos são quase 100% elaborados com a Merlot 

Por outro lado, Pomerol não conta - ao contrário do Médoc, de Graves, de Sauternes/Barsac e Saint-Émilion – com um sistema de classificação específico. No entanto, alguns dos vinhos mais caros e cobiçados do mundo vêm do Pomerol, como o Château Le Pin e o Château Pétrus.

 Apesar disso, o Pomerol costuma guardar bons achados, mesmo de pequenos produtores pouco conhecidos, com preços acessíveis aos reles mortais.

 Um dos grandes achados do Pomerol é, sem dúvida, o Château Clinet. Por conta de sua filosofia em manter longas relações com seus apreciadores, o Château Clinet ainda se mostra acessível, entregando uma alta qualidade em seus vinhos, sem preços astronômicos. 


O Château Clinet é um dos mais antigos vinhedos do Pomerol datando de 1785. Após pertencer às famílias Constant e Arnaud (a última proprietária do Château Petrus), de 1900 a 1991 pertenceu à família Audy (négociants e proprietária de diversas vinícolas bordalesas).

 No final da década de 1970 Jean Michel Arcaute se tornou o diretor do Château Clinet, que começou a produzir os melhores vinhos em sua história até então. Duas das principais mudanças introduzidas por Jean Michel Arcaute foram a colheita das uvas o mais maduras possível e a diminuição dos percentuais de Cabernet Sauvignon nos vinhos e nas áreas de vinhedos plantados. 

Nessa mesma época, Michel Rolland foi contratado como consultor do Château Clinet ficou até 2014), buscando elaborar vinhos para rivalizar com os melhores do Pomerol. Houve então aumento no uso de barricas novas de carvalho francês e do tempo do vinho em barrica.

 Em 1991 o Château Clinet foi vendido para um grupo de seguros, e posteriormente em 1998 foi vendido para a família Laborde, iniciando-se então uma nova era. 

 A partir da safra de 2004, o jovem Ronan Laborde, abandonando uma promissora carreira de maratonista profissional, passou a gerenciar a propriedade.

Ronan Laborde realizou diversas mudanças, como replantio de 20% dos vinhedos, redução de uso de barricas novas de carvalho francês (de 100% para 60%), expandiu os vinhedos e até mesmo criou uma linha de vinhos mais acessíveis, a Ronan by Clinet.

 Atualmente, o Château Clinet conta com 11.5 hectares de vinhedos plantados, com 75% Merlot e 25% Cabernet Sauvignon, com uma mínima quantidade de Cabernet Franc, divididos em 21 parcelas distintas, com vinhas com a média de 45 anos de idade (há algumas bem mais velhas). Dentre essas parcelas, destaca-se a chamada La Grande Vigne, com solos de argila e cascalho no topo, plantada apenas com a Merlot e considerada a melhor de todas, aportando complexidade e profundidade aos vinhos. Nessa parcela estão as mais antigas vinhas da propriedade, com algumas plantadas em 1934. La Grande Vigne representa 20% do vinho Château Clinet, sendo sua espinha dorsal. 

 Os solos do Château Clinet são um mosaico de cascalho, argila e solos arenosos ricos em ferro. 

 O Château Clinet produz, como normalmente ocorre em Bordeaux, um segundo vinho, o Fleur de Clinet (que antes de 1997 se chamava Domaine du Casse), elaborado já há alguns anos com uvas apenas da propriedade e desclassificadas para o primeiro vinho da vinícola.

 Recentemente tive a oportunidade de degustar e comparar duas excepcionais safras do Château Clinet, 1990 e 2010.

O Château Clinet 1990, ainda com o rótulo anterior, da fase de Jean Michel Arcaute e Michel Rolland, mostrou-se incrivelmente complexo, aveludado e elegante, bem concentrado. Apesar dos aromas terciários de terra, trufas, tabaco e ameixa seca e notas de cacau, apresentava o frutado (cerejas, ameixa negras). Nitidamente o vinho conta com mais uma década à frente. 

 Já o Château Clinet 2010, com o rótulo novo e considerado um dos melhores produzidos na nova fase inaugurada por Ronan Laborde, mostrou-se, aos doze anos, ainda jovem, com muita fruta negra presente, como ameixas, alcaçuz e nozes. Taninos polidos e aveludados.  

Dois vinhos espetaculares que mostraram a evolução dos vinhos do Château Clinet e o seu estilo.

 Uma experiência memorável!

 Santé!