segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Domaine des Arpents du Soleil, a Primeira Vinícola da Normandia

A Normandia é uma das poucas regiões francesas que não é reconhecida como produtora de vinhos. Os destaques gourmets normandos ficam por conta das refrescantes cidres e dos potentes Calvados – perfeitos em dias frios ou para o trou normand (como os normandos chamam o hábito de beber, entre as etapas de uma longa refeição, um copinho de Calvados para limpar o palato, ajudar na digestão e prosseguir na maratona gastronômica), e dos seus deliciosos queijos (Livarot, Pont-l'Évêque, Neufchâtel e Camembert, todos de leite de vaca e macios, variando de formato e de intensidade de sabores).

 

Por razões pessoais, antes da pandemia viajava de tempos em tempos para Rouen e aproveitava para explorar a Normandia. Certa vez, em uma parada na estrada nas cercanias de Caen, no departamento de Calvados, deparei-me, num totem. com folhetos turísticos diversos e dentre eles um que me chamou a atenção. Era um folheto sobre uma vinícola. E, para meu espanto, uma vinícola normanda!

 

Guardei o folheto por alguns anos e anotei o nome da vinícola e algumas outras informações para uma visita em uma nova viagem. 

 

Até que em setembro de 2019, finalmente consegui encaixar uma visita ao Domaine des Arpents du Soleil (ou apenas Les Arpents du Soleil), já que as visitas guiadas ocorrem apenas às quintas-feiras.

 

Embora a Normandia não seja conhecida como uma região de vinhos, como já dito, na idade média os monges cultivavam as vinhas produzindo vinhos na região, o que foi interrompido com a revolução francesa. Tradição essa agora resgatada por Gérard Samson, o visionário proprietário do Arpents du Soleil, que trocou sua carreira de notaire pela de enólogo.

 

Domaine des Arpents du Soleil fica no coração da Normandie nas proximidades dos vilarejos de Grisy Saint Pierre sur Dives, no departamento de Calvados. 

 

A vinícola conta com um pouco mais de 6 hectares e seu vinhedo está plantado nas encostas e no topo de uma colina, com exposição sul,  contando com um microclima seco e quente, com poucas chuvas.

 

Os solos são calcários, cobertos por uma fina camada de terra, permitindo uma boa drenagem, de forma similar a alguns pontos da Borgonha, como Gérard Samson destaca logo no início do tour ao parar em frente a uma espécie de corte no morro que deixa à mostra o solo.

 

A visita guiada com Monsieur Samson é extremamente didática centrando-se no passeio pelos vinhedos e terminando com a degustação de alguns de seus vinhos de produção limitada. 

 

A primeira safra comercial da vinícola foi em 1998 e logo foi selecionada pelo prestigioso guia Hachette, trazendo credibilidade para a vinícola. 

 

Os vinhos são em sua maioria secos e elaborados com a Pinot Noir (lembra muitos os alsacianos com essa uva) Auxerrois Blanc (supreendente e meu favorito na degustação), Pinot Gris  um corte de Chardonnay, Sauvignon Blanc, Melon de Bourgogne e Muller-Thurgau. Há ainda o Arpentissime, um vinho branco licoroso de corte não revelado elaborado com a técnica dos vins de paille.

 

Uma curiosidade é a opção do produtor em utilizar, em regra, garrafas de 500ml no lugar das tradicionais garrafas de 750ml. Há, porém, algumas opções disponíveis em Magnuns, em 375ml (especificamente no caso do Arpentissime), e duas opções de 750ml (os novos Pinot Noir Revelation L'esprit des Arpents e o Chardonnay Connivence L'esprit des Arpents).

 

Ano a ano os pioneiros vinhos normandos do Domaine des Arpents du Soleil vêm sendo descobertos por mais e mais enófilos, além dos leitores do Guide Hachette. E o ex-notário, Monsieur Samson, não apenas elaborou vinhos, mas criou (ou resgatou) uma nova região vinícola na França. 

 

Santé!







 

domingo, 15 de agosto de 2021

Os Merlots da Northstar Winery

Quem segue esse blog há algum tempo sabe que sou um grande fã dos vinhos de Washington, Estado no noroeste norte-americano (não confundir com a capital Washington D.C.). Visitei diversas vinícolas nas muitas sub-regiões de lá anos atrás (no final desse texto coloquei links para os diversos posts sobre Washington e seus vinhos que escrevemos ao longo dos anos), uma jornada que guardo na memória com carinho junto com algumas poucas garrafas restantes compradas naquela viagem.


Recentemente, para celebrar uma ocasião especial, abri uma das preciosas garrafas que trouxe da viagem de WashingtonNorthstar Premier Merlot Columbia Valley 2010.


Premier Merlot Columbia Valley é um vinho de produção limitada e é, segundo seu enólogo David “Merf” Merfeld, o auge da qualidade dos vinhos com a Merlot na Northstar Winery, o vinho top da vinícola.

A Northstar Winery se localiza em Walla Walla na chamada Wine Trail South, mas ainda no território de Washington (a AVA Walla Walla se estende por Washington e pelo Oregon), vizinha a outra incrível vinícola a Pepper Bridge Winery. 

 

Fazendo parte do grupo de vinícolas do Chateau Ste. Michelle, Northstar Winerytem por foco vinhos elaborados com a Merlot, pura ou prevalecendo em cortes com outras uvas bordalesas, como Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc Petit Verdot. A inspiração são vinhos da chamada “margem direita” de Bordeaux.  

 

Northstar Premier Merlot Columbia Valley 2010 é um vinho 100% Merlot, com frutas selecionadas nos melhores vinhedos localizados na macro AVA Columbia ValleyBeverly Gap, Cold Creek e Stone Tree os dois últimos pertinho de Wahluke Slope (uma AVA menor). 

O vinho, de excelente qualidade, apresentou uma cor rubi profundo; no nariz tinha uma intensidade pronunciada, com aromas de frutas negras (cereja, mirtilo, ameixa, amora), pimenta negra, menta, baunilha, noz-moscada, fumo, cacau, tabaco, mostrando-se extremamente complexo nos seus 11 anos de idade. Na boca, um vinho seco, com acidez média, taninos altos e bem polidos, álcool de 14,7% (alto), corpo médio mais, intensidade de sabores pronunciada, com destaque para as frutas negras, com um final longo.

 

Porém, o mais especial do vinho foi me fazer viajar de volta ao tempo e relembrar uma fria manhã de abril quando visitei a vinícola. Um tasting room acolhedor e charmoso, com uma lareira quentinha era o cenário para a degustação de vinhos elegantes como o Premier Merlot 2010 que provei na época. 

Cheers!

 

Para relembrar posts anteriores sobre Washington e seus vinhos clique aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui

sábado, 17 de julho de 2021

Saint-Émilion e a Classificação de seus Vinhos

No mundo dos vinhos Bordeaux 
Château Cheval Blanc 
é sinônimo de prestígio e qualidade originando-se nessa região alguns dos vinhos mais míticos do planeta. É a maior apelação de origem francesa em volume e em valor.

 Dentro da grande AOP (Appellation d'Origine ProtégéeBordeaux existem diversas AOPs menores e dentro delas outras ainda menores, como se fossem caixas menores dentro de caixas maiores, todas com regramento próprio e ressaltando os respectivos terroirs

 

A vasta região de Bordeaux divide-se em três grandes sub-regiões (com suas diversas apelações de origem protegida):


I) “margem esquerda” (terras ao oeste do rio Garonne e do estuário do rio Gironde – da península do Médoc até Graves, em regra com solos “quentes” de cascalho e areia);


II) “margem direita” (terras ao leste dos rios Gironde e Dordogne, se estendendo de Blaye até Castillon, em regra com solos “frios” de argila e calcário);
Saint-Émilion

III) Entre-Deux-Mers (“ilhas” de vinhedos entre os rios Gironde e Dordogne, possuindo todos os tipos de solos de Bordeaux).

 

A par das diversas AOPs (Appellation d'Origine Protégée) existentes em Bordeaux há algumas classificações criadas ao longo dos anos por razões diversas para destacar vinhos segundo alguns critérios específicos de cada classificação. 

 

A primeira e a mais célebre é a de 1855 para os vinhos do Médoc e de Sauternes (duas classificações em uma), que refletia os preços dos vinhos na época e criada para a Exposição Universal de Paris realizada naquele ano. Trata-se de uma classificação praticamente imutável (a exceção ocorreu em 1973 com a promoção do Château Mouton Rothschild) e que em alguns casos não mais retrata uma hierarquia de preços entre seus vinhos.

 

Depois surgiram as classificações Cru Bourgeois (início no ano de 1932, com revisões posteriores), Cru Artisans (início no ano de 2006 com revisões posteriores), a dos vinhos de Graves (1953 com revisão em 1959) e a mais controvertida de todas a de Saint-Émilion (a única da sub-região da “margem direita”).

 

Saint-Émilion
Em Saint-Émilion há duas AOPs que cobrem a mesma área de produção: Saint-Émilion e Saint-Émilion Grand Cru. A Grand Cru possui padrões mais exigentes (e.g. menor rendimento das vinhas, álcool mínimo do vinho
mais elevado etc...) e todos os vinhos devem ser engarrafados no Château e submetidos a duas provas (antes e após o período obrigatório de um ano de amadurecimento). Essas AOPs não devem ser confundidas com a classificação dos vinhos de Saint-Émilion criada em 1955. 

 O sistema de classificação dos vinhos de Saint-Émilion inicialmente foi pensado para ser revisto a cada 10 anos (ou até mais) e foi estabelecido em 1955. Para obter um status de Grand Cru Classé dentro da referida classificação o vinho deve necessariamente ser da AOP Saint-Emilion Grand Cru

Château Angelus

 Os vinhos nessa classificação dividem-se em Premiers Grand Cru Classé Nível A; Premiers Grand Cru Classé Nível B; e Grand Cru Classé.

 

A classificação dos vinhos de Saint-Émilion foi atualizada nos anos de 1969, 1986, 1996, 2006 e 2012, e está prevista para ser atualizada em 2022.

 

Saint-Émilion
A atualização da classificação dos vinhos de Saint-Émilion de 2006 acabou por desencadear uma verdadeira batalha legal, que se estendeu em instâncias administrativas, judiciais e até mesmo legislativas. A discussão se centrou na alegação de parcialidade de diversos membros do painel formados para analisar os vinhos e decidir quais seriam promovidos, quais não seriam e quais seriam rebaixados. Alguns, por exemplo, eram négociants que mantinham relações comerciais com algumas das vinícolas. Após diversas reviravoltas administrativas, judiciais e legislativas, em 2009 a Cour de Cassation, o mais alto órgão do Judiciário francês, decidiu anular a classificação de 2006 e restabelecer a de 1996. Logo em seguida, em maio de 2009, o Legislativo francês aprovou uma lei que estabelecia que os seis Chtâteaux que haviam sido promovidos a Grand Cru Classé em 2006 assim permaneceriam somando-se aos demais da revitalizada versão de 1996 da classificação com validade até 2011.

 

Saint-Émilion
Em 2012 a classificação foi novamente revista, buscando apagar os efeitos deletérios e a confusão decorrentes da última versão de 2006. Dessa vez, o INAO formou uma comissão de sete pessoas para conduzir as
degustações e as inspeções nas vinícolas, e sem envolvimento com o sindicato de vinhos de Saint-Émilion e/ou com o comércio de vinhos de Bordeaux, Os membros eram profissionais do vinho ligados a outras regiões, como Borgonha, RhôneChampagneLoire e a Provence. Nessa versão, não havia mais um número máximo de Châteaux na classificação. Os Château Pavie e Château Angélus foram promovidos para a Premiers Grand Cru Classé Nível A (passando a fazer companhia ao Château Cheval Blanc e ao Château Ausone) e vários outros, inclusive alguns garagistes como Château Valandraud, entraram nas categorias Premiers Grand Cru Classé Nível B (e.g. Château Canon-la-Gaffelière, La Mondotte, Château Larcis Ducasse) e Grand Cru Classé

 Em janeiro de 2013, Château La Tour du Pin Figeac (Giraud-Bélivier), Chateau Croque-Michotte e Château Corbin-Michotte iniciaram processos no Tribunal Administrativo de Bordeaux alegando erros nos procedimentos para a revisão da classificação, não havendo maiores desdobramentos até o momento dessas iniciativas.

 

Nesse mês de julho, quando se iniciavam os procedimentos para revisão da classificação dos vinhos de Saint-Émilion, a imprensa especializada (Terres de Vins, Decanter, The Drink Business) noticiaram que o Château Cheval Blanc (leia aqui) e o Château Ausone, ambos do seleto grupo dos Premiers Grand Cru Classé Nível A, decidiram não mais participar do sistema de classificação local, discordando de alguns novos critérios de julgamento, em especial os atinentes a aspectos de marketing (colocação do produto no mercado, com que frequência a vinícola aparece na mídia, incluindo redes sociais) e infraestrutura de enoturismo, entendendo que a importância do terroir foi relegada a um segundo plano. 

Segundo a revista inglesa DecanterPierre Lurton, diretor do Château Cheval Blanc, questionou ainda o sistema de avaliação dos vinhos, que teria perdido a “noção de identidade e tipicidade, como se a cultura do vinho, a sua capacidade de envelhecimento ao longo de várias décadas e o conhecimento da denominação fossem desnecessários para a avaliação das propriedades”.

 

Além do Château Cheval Blanc e do Château Ausone, o Château La Clotte e oChâteau Quinault L’Enclos (da mesma equipe do Ch. Cheval Blanc) também decidiram não apresentar suas candidaturas.

 

Château Cheval Blanc




Importante notar que a decisão de tais produtores de não mais participar na classificação de vinhos de Saint-Émilion a partir de 2022 não significa que tenham abandonado a AOP Saint-Émilion Grand Cru, que não deve ser confundida, como dito antes, com a classificação. 

 Ao que parece, depois de todos esses anos de confusões e batalhas legais, a classificação dos vinhos de Saint-Émilion parece realmente estar em perigo, ou será que sobreviverá ao baque da saída de dois de seus mais festejados produtores? 


Isso tudo me fez lembrar a conversa de anos atrás, por ocasião de uma visita ao Château Le Tertre Roteboeuf - um pequeno produtor de altíssimo nível de Saint-Émilion, com vinhos cultuados entre enófilos do mundo afora - com Nina Mitjavile, filha do proprietário François Mitjavile e uma das enólogas do Château, quando lhe indaguei sobre a classificação dos vinhos de Saint-Émilion e a razão de não participarem. A resposta foi simples: não reconheciam o sistema de hierarquia da classificação e entendiam que cada vinho representava seu próprio terroir, tendo uma identidade única e particular, não sendo passível de comparação. 

 

O tempo dirá o futuro da classificação dos vinhos de Saint-Émilion... 


Santé!

terça-feira, 15 de junho de 2021

Pinot Gris X Pinot Grigio

A Pinot Gris (Pinot Grigio em italiano; Grauburgunder em alemão, contando ainda com diversos outros nomes nesses e em outros idiomas) é uma mutação de cor da célebre e festejada Pinot Noir.

A casca fina da Pinot Gris não consegue concentrar os pigmentos que dão cor ao vinho. Sua casca é acizentada podendo escurecer para o roxo, dependendo do local em que está plantada.

Embora a casca da Pinot Gris seja cinzenta/rosada e diferente dos tons esverdeados das cascas das uvas brancas, os vinhos produzidos são brancos. Há, entretanto, uma exceção, o Ramato; tradicional vinho de tonalidade cobre da região do Friuli-Venezia Giulia, cujo método de produção consiste em manter as cascas das uvas maceradas no mosto por cerca de 3 dias.

A Pinot Gris é uma uva de brotação e amadurecimento precoces, relativamente vigorosa, porém não muito produtiva. É uma cepa suscetível ao Botrytis (podendo destruir a vinha ou em condições ideais gerar vinhos de sobremesa botritizados) e ao míldio. A uva amadurece com altos níveis de açúcar e acidez baixa a moderada.

Porém, o perfil dos vinhos Pinot Gris e Pinot Grigio muda radicalmente junto com o nome. Na verdade, de acordo com o terroir, em especial quando comparamos os vinhos da França (em especial os da Alsácia) e os da Itália (Veneto e Friuli-Venezia Giulia), as diferenças são abissais.

Os vinhos italianos elaborados com a Pinot Grigio experimentaram um inexplicável sucesso nas últimas décadas, com vinhos neutros, oriundos de vinhedos com altos rendimentos. Em geral, são vinhos mais leves, frescos, com uma acidez média (decorrente dos altos rendimentos), com frutas de caroço e aromas florais, às vezes com um toque de especiarias.

 Infelizmente, a grande maioria dos vinhos italianos Pinot Grigio que alçou fama no mundo são mais neutros, sem grandes pretensões, baratos e banais.

 Existem, obviamente, exceções, com produtores como Franz Haas (Alto Adige), Alois Lageder (Veneto), Vie di Romans (Friuli) que produzem vinhos mais sérios e com grande caráter a partir de vinhedos com rendimentos menores.

Já na França, mais especificamente na Alsácia, local com baixos rendimentos nos vinhedos, os vinhos com a Pinot Gris apresentam uma maior opulência e suculência, com uma acidez baixa e com alto grau de viscosidade. Não raro o açúcar residual é bem perceptível, levando os vinhos para a categoria meio secos (off dry). Os sabores característicos são de maçãs, peras, mel e frutas secas, podendo apresentar ainda um toque de fumaça, de cogumelos ou de cera de abelha.

 Na Alsácia (leia mais sobre essa fantástica região francesa aqui e aqui) há ainda espetaculares vinhos de sobremesa produzidos com a Pinot Gris. Os Vendanges Tardives podem ou não ser afetados pela podridão nobre (Botrytis cinerea) e as uvas sempre são colhidas a mão. Já os Sélections de Grains Nobles são obrigatoriamente sempre afetados pelo Botrytis, também com as bagas sendo colhidas manualmente em diversas passagens pelos vinhedos

Domaine Weinbach, Louis Sipp, Domaines Schlumberger, Domaine Zind-Humbrecht, Hugel, Dopff au Moulin são alguns dos excelentes nomes da Alsácia que produzem incríveis vinhos com a Pinot Gris.

 Santé! Salute!

sexta-feira, 30 de abril de 2021

Vinhos de Talha, Uma Tradição Alentejana

Já faz alguns anos que os vinhos fermentados e/ou envelhecidos em ânforas de argila vêm ganhando

popularidade em diversas regiões vinícolas, em especial do Novo Mundo, como Estados Unidos e Argentina. Uma “novidade” que os gregos e os romanos na Idade Antiga já conheciam e
usavam.

A argila é porosa, assim como o carvalho, dando uma textura mais rica ao vinho, pois permite algum oxigênio. No entanto, a argila – assim como o aço dos tanques e ao contrário da madeira - não confere nenhum sabor adicional ao vinho, pois é um material neutro e, talvez por isso, caiu nas graças de alguns enólogos buscando uma maior pureza sem influência do carvalho no vinho.

O uso de ânforas de argila chegou aos dias atuais por meio de tradições de algumas antigas regiões produtoras de vinhos.

Na Geórgia, por exemplo, o método é ancestral, com os vinhos fermentados e envelhecidos nos chamados Kvevri (ou Churi), que são grandes ânforas sem alças, em formatos que lembram ovos, fechadas e quase sempre enterradas no solo (podem ser colocadas em grandes adegas também).

Em Portugal, mais precisamente no quente Alentejo, a tradição do uso das ânforas – chamadas de Talhas - ganha maior destaque, remontando seu uso ao tempo do Império Romano. Foram os antigos romanos que introduziram na Península Ibérica as vinhas, as técnicas de viticultura e a arte de elaboração de vinhos. A grande quantidade de ruínas romanas na região (aquedutos, templos, teatros, pontes etc) demonstram a anterior e forte presença romana na Hispânia, inclusive no Alentejo.

O chamado vinho de talha, herança dos romanos, é, em síntese, um vinho elaborado em enormes ânforas de argila, as talhas.

As talhas portuguesas são enormes, podendo chegar a 2 metros de altura e contar até 2 mil litros. Uma particularidade é o fato de possuírem uma pequena abertura ou passagem no fundo onde se encaixa uma espécie de pequena torneira, por onde se retira o vinho.

O processo para a produção dos vinhos de talha ocorre primeiro com o esmagamento das uvas por pisa ou prensa. Pode-se ou não realizar o desengaço, de forma manual ou mecânica. Na sequência, coloca-se o produto dentro da talha, iniciando-se a fermentação. Normalmente, usam-se apenas leveduras indígenas, buscando a menor intervenção possível.

Iniciada a fermentação, uma espécie de véu ou chapéu formado com as cascas e outros restos sólidos das uvas sobe por conta do CO2. Essa massa vínica é empurrada diversas vezes ao dia (e até de noite) para o fundo da talha com o uso de rodos de madeira, durante a fermentação e mais algum tempo depois. Essa etapa demora cerca de duas semanas, até que esse véu se deposite de vez no fundo.

Terminada a fermentação (cerca de 8 a 15 dias após o início do processo) e, após mais algumas semanas, com a estabilização da massa vínica no fundo, a talha é lacrada em sua parte de cima, até o momento de o vinho ser engarrafado ou retirado diretamente do fundo da talha por meio de uma torneira colocada na abertura inferior.

Há uma tradição no Alentejo de que abertura das talhas em 11 de novembro, dia de São Martinho, para os vinhos mais simples, retirados direto das talhas e servidos em tabernas.

No entanto, muitos produtores, para vinhos mais complexos, esvaziam as talhas, passando o vinho para outras talhas até o momento de ser engarrafados no ano seguinte.

Algumas vinícolas optam por, após a fermentação dos vinhos nas talhas, bombear o produto para cubas de aço inox ou para barricas de madeira.

Os vinhos de talha podem ser brancos, tintos ou rosados, estes localmente chamados de petroleiros, sendo uma mistura de castas brancas e tintas. Usa-se para todos o método anteriormente descrito, com suas variantes.

Nos últimos anos, pouco mudou na elaboração dos vinhos de talha, que mantém sua essência, com vinhos caracterizados pela frescura da fruta.

Essa tradição se mantém viva no Alentejo, com cada vez mais produtores produzindo um ou mais rótulos de vinhos de talha, como os da Herdade do Esporão (um branco, e dois tintos, o Moreto e o Vinhas Velhas), da Cartuxa – Fundação Eugênio Almeida (branco Vinho de Curtimenta e tinto Vinho de Talha, Biológico), Herdade do Rocim (brancos e tintos da linha Amphora), dentre outros. Tudo com o nobre objetivo de perpetuar essa milenar tradição enológica!

Saúde!

Obs: Exceto a última foto, todas as fotos foram gentilmente cedidas pela Herdade do Esporão e pela Qualimpor. Nossos agradecimentos!


domingo, 28 de março de 2021

Cornas & Syrah


Ao contrário das AOP/AOCs (Appellation d'Origine Protégée/Côntrolée) do Rhône meridional, as do Rhône norte que produzem vinhos tintos se centram em uma única uva: a Syrah.


Em quase todas as AOP/AOCs (Appellation d'Origine Protégée/Côntrolée) do Rhône setentrional classificadas como Crus (AOPs possuidoras de grande prestígio e renome), o vinho tinto elaborado com a Syrah pode contar com acréscimos das uvas brancas Marsanne e/ou de Roussanne (até 10% em Saint-Joseph, e até 15% em Hermitage e em Crozes-Hermitage) ou da Viognier (até 20% em Côte-Rôtie, sendo que, em geral, é bem menos, e a Viognier é normalmente co-plantada, colhida e fermentada junto com a Syrah). A exceção é Cornas, que produz apenas vinhos tintos elaborados 100% com a Syrah.


Eclipsada por seus irmãos mais famosos, Hermitage e Côte-Rôtie, Cornas produz vinhos de alta qualidade e de guarda.


 Cornas se localiza na margem direita do rio Rhône, e seus vinhedos – um pouco mais de 100 hectares – situam-se em uma encosta íngreme em terraços de granito com orientação sudeste. Em geral, as uvas amadurecem aqui uma semana antes que em Hermitage.

 

Os vinhedos de Cornas se localizam em terraços, que começam nas imediações do vilarejo homônimo a 110 metros de elevação seguindo pela colina até 420 metros de elevação.

 

Na parte alta da apelação há mais ventos sendo, portanto, mais fria; e na parte mais baixa, há mais água e umidade, com uma variação de temperatura de cerca de 2º C entre os dois extremos. Pode haver uma diferença de até três semanas na colheita entre o alto e a parte mais baixa. Assim, de forma muito parecida com o que ocorre na Borgonha, os melhores vinhedos estão, em geral, no meio da colina.

 

No entanto, com o recente aquecimento global, os vinhedos no topo se mostraram mais promissores que antes, com as uvas amadurecendo de forma adequada. Jean-Luc Colombo foi um dos produtores que apostou em vinhedos na parte mais alta, em posições bem íngremes, conforme tive a oportunidade de verificar quando da visita em setembro de 2019 em que percorri os vinhedos de Cornas.

 

Há uma variação dos solos na AOC/AOP Cornas, dependendo do setor. Na parte norte, perto do lieu-dit Les Chaillot, o solo é arenoso e rochoso contendo algum giz e de cor marrom-avermelhada. Já o lieu-dit Quartier de Reynard, no meio da colina 300 metros) apresenta um solo granítico. E ao sul (La Côte e La Combe), o solo é predominantemente argiloso

 

Em Cornas podemos ver dois movimentos antagônicos, por assim dizer. De um lado, os tradicionalistas como Auguste Clape, Noël Verset, dentre outros, e responsáveis pelo “renascimento” dos vinhos de Cornas, adotando técnica com pouco ou nenhum desengace das uvas, fermentação em recipientes de concreto e amadurecimento em barricas mais antigas e sem uso de carvalho novo. Advogam que são vinhos que precisam de cerca de dez anos para chegar ao seu momento ideal.

 

Já na outra vertente, os modernistas (Jean-Luc Colombo, Alain Voge, dentre outros) adotam técnicas diferentes como separação das bagas (grãos da uva) dos engaços (esqueletos de sustentação do cacho) antes do esmagamento, fermentação em altas temperaturas, e uso de barricas de carvalho novo (não em sua totalidade).

 

A boa notícia para o enófilo é que os vinhos de Cornas são vinhos de excelente qualidade e que nada deixam a dever aos seus vizinhos mais famosos, porém com preço bem mais em conta se comparados com seus irmãos mais famosos, Hermitage e Côte-Rôtie.

 Santé!


segunda-feira, 1 de março de 2021

Desbravando as Denominações de Origem Italianas - Vernaccia di Oristano D.O.C.

 Produzindo vinhos em praticamente todas as suas regiões, do norte ao sul, passando por suas ilhas, a Sardegna e a Sicilia, a Itália apresenta uma imensa riqueza enológica, tão vasta quanto sua culinária. 

 

Existem na Itália, segundo Jancis Robinson, Julia Harding e José Vouillamoz (Wine Grapes – A Complete Guide to 1,368 Vine Varieties, Including Their Origins and Flavours) cerca de 377 variedades autóctones, o que demonstra a riqueza da viticultura italiana.

 

Há uma enorme gama de vinhos produzidos em toda a Itália: brancos, espumantes, frisantes, rosados, laranjas/âmbar, tintos, de sobremesa, nos mais variados estilos, alguns bem fora do usual como, por exemplo, vinhos elaborados com a técnica do appassimento (e.g. Amarone de Valpolicella; Sforzato di Valtellina). 

 

A Itália conta ainda com, aproximadamente 334 D.O.C. (Denominazione di Origine Controllata), 74 D.O.C.G. (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) e 118 I.G.T. (Indicazione Geografica Tipica).

 

Nesse ponto, vale reprisar uma breve observação sobre o novo sistema europeu de hierarquização de vinhos.

 

Desde 1de agosto de 2009, em decorrência de regras comunitárias europeias, a hierarquização dos sistemas de vinhos dos países europeus mudou, passando a adotar a seguinte forma (em suas variações nos diversos idiomas nacionais dos países europeus): 

A) vinhos de denominação de origem protegida;

B) vinhos com indicação geográfica protegida; 

C) vinhos genéricos com safra e uva indicados;

D) vinhos genéricos (sem qualquer informação de safra e uva).

 

No entanto, o regulamento comunitário europeu ressalvou a possibilidade de que os países membros continuassem a utilizar as próprias menções tradicionais.

 

Dessa sorte, os vinhos com Denominazione di Origine Protetta passaram a abarcar os vinhos D.O.C. (Denominazione di Origine Controllata) e D.O.C.G. (Denominazione di Origine Controllata e Garantita); e os vinhos com Indicazione Geografica Protetta passaram a englobar os vinhos I.G.T. (Indicazione Geografica Tipica), restando autorizadas, como dissemos antes, as menções tradicionais nos rótulos alternativamente ao uso das novas nomenclaturas.

 

Por conta de produções pequenas, o consumidor enófilo nem sempre consegue ter acesso a vinhos de regiões ou denominações menos famosas (leia sobre uma aqui).

 

Uma das regiões italianas que guarda diversas surpresas ao enófilo explorador é a Sardenha (em italiano, Sardegna; em dialeto local, o sardo, Sardigna).

 

Sardegna, localizada a 240 km do litoral italiano, é a segunda maior ilha do mar Mediterrâneo, contando como vizinhos mais próximos a Córsega e a Sicília, e produzindo vinhos que a cada dia ganham a atenção dos especialistas. 

Dentre os tintos, destaque para os vinhoselaborados com as uvas Bovale Sardo (Graciano), Carignano (Carignan), Monica Cannonau (Grenache). Já entre os brancos destacam-se os vinhos elaborados com a Vermentino (Rolle, na França), Nasco, Girò, Moscato Giallo e a Vernaccia di Oristano (que apesar do nome não deve ser confundida com a Vernaccia di San Gimignano).

 

Recentemente tive a grata surpresa de provar um vinho sardo, o Contini Componidori Vernaccia di Oristano 2013, elaborado com um estilo similar ao Vin Jaune do Jura, na França.


Vernaccia di Oristano é a primeira DOC (Denominazione di Origine Controllata) da Sardenha, ganhando tal status em agosto de 1971. 

 

Os vinhos são elaborados exclusivamente com a uva Vernaccia di Oristano, tida como trazida para a ilha pelos Fenícios cerca de 800 a.C. quando fundaram o porto de Tharros. Devem ser exclusivamente oriundas das comunas (cerca de 20) da província de Oristano.

 

Há alguns estilos de vinhos produzidos na denominação Vernaccia di Oristano, dos secos aos doces.

 

O ponto comum a todos os estilos dos vinhos Vernaccia di Oristano DOC, em termos de vinificação, reside na formação da “flor” nas barricas em que são armazenados os vinhos, tal como na elaboração do Vin Jaune.

 

Após o término da fermentação, o vinho é armazenado em barris de castanheira e de carvalho, que não são preenchidos totalmente. Os barris são então guardados em um ambiente aerado, com variações naturais de temperatura.

 

Cria-se então um véu, uma cobertura de leveduras sobre o vinho chamada de “flor”. A flor passa ao longo dos meses por um processo químico, transformando os ácidos e o acetato etílico em aldeídos, protegendo o vinho do contato direto com o oxigênio. Essa oxidação controlada acaba por criar um vinho com longo potencial de amadurecimento, com notas de nozes, amêndoas, avelãs, típicas de vinhos com oxidação deliberada.

 

Alguns dos vinhos Vernaccia di Oristano DOC podem ainda passar pelo processo chamado de Solera, aqui se aproximando mais do processo dos vinhos de Jerez.

 

Em muita apertada síntese (até porque explicar esse sistema demandaria um texto completo), o sistema de Solera é formado por vários níveis de barricas com vinhos com diferentes idades médias e o processo consiste em mover vinho entre vários níveis, obtendo-se um vinho que é uma mistura de vinhos de diversas idades. 

 

A diferença dos vinhos Vernaccia di Oristano DOC em relação aos vinhos de Jerez reside no fato de, em regra, não serem “fortificados” (adição de aguardente vínica  após a fermentação), além de poderem passar ou não pelo sistema de Solera.  

 

O vinho degustado, o Contini Componidori Vernaccia di Oristano 2013, era seco, não tendo passado pelo sistema de Solera nem sendo fortificado. Apresentava uma bela cor laranja. No nariz, aromas de avelãs, nozes e amêndoas se sobressaiam, até mesmo pela oxidação e pela evolução, acompanhados de mel e damasco seco. Na boca, apresentou uma acidez alta, refrescante, com toques salinos, além de um longo final. 

 

Para os apreciadores desse estilo de vinho, uma bela descoberta!

 

 

Salute!