terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Maison M. Chapoutier - Visita e Degustação

Visitar uma vinícola é um dos grandes prazeres de um apreciador de vinhos. O motivo não é apenas ver onde os vinhos são elaborados, aprender o método de vinificação ou degustar rótulos de edição limitada ou de safras diversas das correntes no mercado. O grande motivo de visitar uma vinícola é, sim, poder ser transportado de volta ao local e relembrar momentos especiais ao degustar um vinho em casa ou em outro lugar, ou seja, é criar um sentimento específico de nostalgia.

 Degustando ontem um M. Chapoutier Châteauneuf-du-Pape La Bernardine 2015 surgiu esse sentimento de nostalgia, e, automaticamente, me vi transportado para uma incrível visita à Maison M. Chapoutier em setembro de 2019.

 A Maison M. Chapoutier tem sua sede em Tain-l’Hermitage, elaborando vinhos de vinhedos próprios e atuando como négociant.

 A história da Maison M. Chapoutier remonta ao ano de 1879 quando a família adquiriu seu primeiro vinhedo.

 No final da década de 1970 os irmãos Michel e Marc Chapoutier assumem o negócio e começa a grande revolução da vinícola. Na década de 1980, sob o comando de Michel Chapoutier, os vinhos da vinícola passam a atrair a atenção dos críticos internacionais, ganhando reputação.

 Em 1989 Michel Chapoutier cria uma linha de vinhos de seleções específicas dentro de vinhedos em diversas apelações, as Sélections Parcellaires, com o escopo de melhor expressar as nuances dos diversos terroirs do Rhône.

 No ano seguinte, Michel Chapoutier passa a colocar em prática o cultivo biodinâmico de seus vinhedos, convertendo-os um a um. Hoje todos os seus vinhos são biodinâmicos.

 Uma das características do estilo de Michel Chapoutier é a preferência por vinhos do Rhône setentrional monovarietais. Assim, seus brancos de Crozes-Hermitage, Hermitage, Saint -Joseph e Saint-Peráy são sempre com Marsanne sem corte com a Roussanne. Seus tintos das apelações Crozes-Hermitage, Hermitage, Saint -Joseph e Côte-Rôtie são sempre 100% Syrah, sem adição de uvas brancas permitidas.

 Nos seus vinhos tintos Châteauneuf-du-Pape, o foco é sempre a Grenache, embora acabe cortando com pequenas quantidades de outras uvas tintas permitidas na apelação.

 Atualmente, Chapoutier produz vinhos em praticamente todas as apelações do norte e do sul do Rhône, além de vinhos de algumas apelações no Roussillon.

 Os vinhos do Rhône da Maison Chapoutier dividem-se em diversas linhas, sempre marcados pela alta qualidade dentro de sua respectiva faixa de preço, com destaque para os vinhos das linhas Fac&Spera (de seleções de vinhedos específicos, os chamados Sélection Parcellaire), Excellence e Prestige.

 A Maison Chapoutier produz ainda vinhos, em colaboração ou em projetos solos, na Alsácia e na Alemanha, um de seus novos projetos, e em Portugal, Espanha e Austrália, mostrando o espírito irrequieto e explorador de Michel Chapoutier.

 Um dos destaques da Maison Chapoutier é o uso do braile em todos os seus rótulos, tendo sido a primeira vinícola a adotar tal prática. Michel Chapoutier teve a ideia de adotar o braile em seus rótulos ainda na década de 1990, após ouvir de um amigo cego, o cantor Gilbert Montagné, que este precisava sempre de um acompanhante para poder escolher uma garrafa de vinho em uma loja. As informações em braile nos rótulos incluem o produtor, a safra, o vinhedo, a região e a cor do vinho.

 Uma outra curiosidade sobre Michel Chapoutier reside no seu amor pelas artes, em especial dos aborígenes australianos. Nas paredes da sede da Maison Chapoutier tivemos a oportunidade de ver algumas dessas pinturas, com indicações do artista, etnia e demais detalhes, tornando ainda mais agradável a visita à vinícola.


 Em nossa visita, após passear pelo vinhedo de Hermitage com nosso anfitrião Thibaut Tracol, tivemos o prazer de degustar uma inesquecível e especial sequência de vinhos da Maison Chapoutier, representativos de diversos terroirs do Rhône setentrional e um Châteauneuf-du-Pape tinto e um branco das Côtes du Roussillon:

A)   M. Chapoutier Domaine de Bila-Haut Occultum Lapidem Côtes du Roussillon Blanc 2017 (Grenache Blanc, Vermentino): um corte de 70% Grenache Blanc e 30% Vermentino, também localmente conhecida como Rolle, o vinho apresentou, no nariz, frutas de caroço (damasco, pêssego) e um leve toque floral, com conjunto bem integrado;

B)   M. Chapoutier Lieu-dit Hongrie Saint-Péray 2017 (Marsanne): a AOP Saint-Péray é um dos Crus do norte do Rhône subestimada, eclipsada pelos brancos dos Crus vizinhos. Esse espetacular vinho de parcela única demonstra que isso pode ser um erro, apresentando complexidade no nariz, com notas ligeiramente torradas de brioche, aromas de pêssego branco, erva-doce e anis, com um longo final em boca.

C)  M. Chapoutier Invitare Condrieu 2017 (Viognier): para aqueles que adoram Condrieu, esse vinho tem toda a tipicidade que se espera da AOP, com aromas de abacaxi, flor de acácia, lichia, damasco e pêssego branco, com um final longo em boca com notas de baunilha;

D)  M. Chapoutier Chante-Alouette Hermitage Blanc 2017 (Marsanne): Um Hermitage blanc elaborado 100% com a Marsanne e extremamente elegante e complexo, com notas de mel, marmelo, gengibre, flor de acácia, com um longo final em boca com notas de amêndoas. Um dos nossos preferidos;

E)   M. Chapoutier Les Meysonniers Crozes-Hermitage 2017 (Syrah): elaborado a partir de vinhas com no mínimo 25 anos, apresenta boa tipicidade, com o típico aroma de violetas. Um dos grandes custos-benefícios;

F)   M. Chapoutier Les Arènes Cornas 2016 (Syrah): para fãs de vinhos da AOP Cornas (como eu), um vinho opulento e elegante, apresentando em boca amoras, especiarias, cereja, com taninos densos e firmes com grande persistência;

G)  M. Chapoutier Pie VI Châteauneuf-du-Pape 2016 (Grenache, Syrah): um assemblage de 65% Grenache e 35% Syrah, um dos Châteauneuf-du-Pape mais emblemáticos da Maison, com taninos macios, apresentando grande equilíbrio, concentração e complexidade, com destaque para um final longo com toques de especiarias e chocolate amargo;

H)  M. Chapoutier Monier de la Sizeranne Hermitage 2014 (Syrah): Um blend de vinhedos específicos de Hermitage (Les Bessards, com solos graníticos; Le Méal, com antigos terraços aluviais, com muitos cascalhos e calcário; e Les Greffieux com solo siltoso com telhas), apresentando aromas de amoras e groselhas pretas e um leve toque de alcaçuz. Na boca, se mostra concentrado com taninos macios e um leve toque apimentado.

Todos excelentes vinhos, diversos entre si, e que exprimem seus respectivos terroirs.

 Porém, o grande desafio foi escolher o que comprar na loja da Maison Chapoutier, com diversos outros rótulos, inclusive de outros países em que Michel Chapoutier elabora vinhos.

 Santé!












domingo, 5 de dezembro de 2021

Entendendo os Portos Late Bottled Vintage

Há cerca de quinze anos atrás quando me interessei com mais afinco pelos vinhos do Porto, meu amigo de tantos copos e cofundador desse blog me deu a dica: os “LBVs são um dos melhores custos-benefícios dentre os vinhos do Porto”. Realmente, os Late Bottled Vintages custam bem menos do que seus irmãos mais velhos e conhecidos, os Portos Vintages.

Mas afinal, o que são os Portos Late Bottled Vintage? Qual seu processo de vinificação? Qual a diferença para os Portos Vintages? O que esperar desses vinhos?

 Primeiro, precisamos revisitar alguns conceitos básicos sobre vinhos do Porto. Os Portos são vinhos únicos e fortificados, ou seja, são vinhos nos quais, quando a fermentação chega a 5-9% vol., adiciona-se aguardente vínica neutra, interrompendo-se a fermentação. Esse processo é chamado pelos franceses de mutage, e a adição de aguardente vínica durante a fermentação mata as leveduras, fazendo com que o vinho fique com uma doçura considerável e com um nível alcóolico entre 19% e 22% vol.

 Os vinhos do Porto tintos se dividem em duas grandes categorias: Ruby e Tawny. Basicamente a diferença entre essas categorias - que vão contar, por seu turno com diversas subcategorias - reside no tipo de recipiente utilizado e um maior ou menor contato do vinho com oxigênio durante seu envelhecimento.

 Nos vinhos do tipo Ruby os produtores buscam minimizar o efeito do oxigênio no vinho, envelhecendo os vinhos em grandes recipientes de carvalho ou em tanques de aço inox por curtos períodos.

Já os Tawnies envelhecem por longos períodos e de forma oxidativa em “pipas”, que são barris de carvalho menores que os usados para os vinhos do tipo Ruby.

 Os LBVs, por seu turno, são uma categoria de vinhos do Porto Ruby. Segundo o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, o vinho Late Bottled Vintage é um “Porto Ruby de um só ano, selecionado pela sua elevada qualidade engarrafado depois de um período de envelhecimento de entre quatro a seis anos” (https://www.ivdp.pt/pt/vinhos/vinhos-do-porto/categorias-especiais/).

 Os vinhos do Porto Late Bottled Vintage foram criados em 1970 por Alistair Robertson, atual presidente da Taylor’s, como uma espécie de segundo vinho, uma alternativa aos Portos Vintage. O objetivo era um vinho mais em conta que os Portos Vintage e que também estivesse pronto para ser bebido mais cedo.

Os LBVs são sempre de uma única safra, tal qual os Vintages, e envelhecem de 4 a 6 anos antes de serem engarrafados.

 Mesmo dentro da categoria dos LBVs há algumas distinções. A maior parte dos vinhos LBV é filtrada e estabilizada antes do engarrafamento. São mais similares aos Portos Ruby de entrada e reservas, já prontos para beber quando lançados no mercado e raramente se beneficiando do envelhecimento em garrafa, ao contrário dos Portos Vintage. São exemplos desse estilo os vinhos LBV das casas Càlem, Ramos Pinto, Cockburn’s e Sandeman.

 Um segundo tipo de vinhos do Porto Late Bottled Vintage consiste em vinhos que não são filtrados antes do engarrafamento. Esses vinhos são mais similares aos Portos Vintage e podem se beneficiar de tempo em garrafa. Por não serem filtrados, possuem um depósito de sedimentos no fundo da garrafa e por vezes precisam ser decantados. Exemplos desse tipo são os vinhos LBV das casas Taylor’s, Fonseca, Smith Woodhouse, Quinta do Crasto, Graham’s e Dow’s. 

Como aprendi anos atrás com meu amigo e pude comprovar ao longo dos anos, os vinhos do Porto Late Bottled Vintage podem ser excelentes opções aos Vintages, em especial em épocas de câmbio tão desfavorável para nós brasileiros.

 Saúde!

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Domaine des Arpents du Soleil, a Primeira Vinícola da Normandia

A Normandia é uma das poucas regiões francesas que não é reconhecida como produtora de vinhos. Os destaques gourmets normandos ficam por conta das refrescantes cidres e dos potentes Calvados – perfeitos em dias frios ou para o trou normand (como os normandos chamam o hábito de beber, entre as etapas de uma longa refeição, um copinho de Calvados para limpar o palato, ajudar na digestão e prosseguir na maratona gastronômica), e dos seus deliciosos queijos (Livarot, Pont-l'Évêque, Neufchâtel e Camembert, todos de leite de vaca e macios, variando de formato e de intensidade de sabores).

 

Por razões pessoais, antes da pandemia viajava de tempos em tempos para Rouen e aproveitava para explorar a Normandia. Certa vez, em uma parada na estrada nas cercanias de Caen, no departamento de Calvados, deparei-me, num totem. com folhetos turísticos diversos e dentre eles um que me chamou a atenção. Era um folheto sobre uma vinícola. E, para meu espanto, uma vinícola normanda!

 

Guardei o folheto por alguns anos e anotei o nome da vinícola e algumas outras informações para uma visita em uma nova viagem. 

 

Até que em setembro de 2019, finalmente consegui encaixar uma visita ao Domaine des Arpents du Soleil (ou apenas Les Arpents du Soleil), já que as visitas guiadas ocorrem apenas às quintas-feiras.

 

Embora a Normandia não seja conhecida como uma região de vinhos, como já dito, na idade média os monges cultivavam as vinhas produzindo vinhos na região, o que foi interrompido com a revolução francesa. Tradição essa agora resgatada por Gérard Samson, o visionário proprietário do Arpents du Soleil, que trocou sua carreira de notaire pela de enólogo.

 

Domaine des Arpents du Soleil fica no coração da Normandie nas proximidades dos vilarejos de Grisy Saint Pierre sur Dives, no departamento de Calvados. 

 

A vinícola conta com um pouco mais de 6 hectares e seu vinhedo está plantado nas encostas e no topo de uma colina, com exposição sul,  contando com um microclima seco e quente, com poucas chuvas.

 

Os solos são calcários, cobertos por uma fina camada de terra, permitindo uma boa drenagem, de forma similar a alguns pontos da Borgonha, como Gérard Samson destaca logo no início do tour ao parar em frente a uma espécie de corte no morro que deixa à mostra o solo.

 

A visita guiada com Monsieur Samson é extremamente didática centrando-se no passeio pelos vinhedos e terminando com a degustação de alguns de seus vinhos de produção limitada. 

 

A primeira safra comercial da vinícola foi em 1998 e logo foi selecionada pelo prestigioso guia Hachette, trazendo credibilidade para a vinícola. 

 

Os vinhos são em sua maioria secos e elaborados com a Pinot Noir (lembra muitos os alsacianos com essa uva) Auxerrois Blanc (supreendente e meu favorito na degustação), Pinot Gris  um corte de Chardonnay, Sauvignon Blanc, Melon de Bourgogne e Muller-Thurgau. Há ainda o Arpentissime, um vinho branco licoroso de corte não revelado elaborado com a técnica dos vins de paille.

 

Uma curiosidade é a opção do produtor em utilizar, em regra, garrafas de 500ml no lugar das tradicionais garrafas de 750ml. Há, porém, algumas opções disponíveis em Magnuns, em 375ml (especificamente no caso do Arpentissime), e duas opções de 750ml (os novos Pinot Noir Revelation L'esprit des Arpents e o Chardonnay Connivence L'esprit des Arpents).

 

Ano a ano os pioneiros vinhos normandos do Domaine des Arpents du Soleil vêm sendo descobertos por mais e mais enófilos, além dos leitores do Guide Hachette. E o ex-notário, Monsieur Samson, não apenas elaborou vinhos, mas criou (ou resgatou) uma nova região vinícola na França. 

 

Santé!







 

domingo, 15 de agosto de 2021

Os Merlots da Northstar Winery

Quem segue esse blog há algum tempo sabe que sou um grande fã dos vinhos de Washington, Estado no noroeste norte-americano (não confundir com a capital Washington D.C.). Visitei diversas vinícolas nas muitas sub-regiões de lá anos atrás (no final desse texto coloquei links para os diversos posts sobre Washington e seus vinhos que escrevemos ao longo dos anos), uma jornada que guardo na memória com carinho junto com algumas poucas garrafas restantes compradas naquela viagem.


Recentemente, para celebrar uma ocasião especial, abri uma das preciosas garrafas que trouxe da viagem de WashingtonNorthstar Premier Merlot Columbia Valley 2010.


Premier Merlot Columbia Valley é um vinho de produção limitada e é, segundo seu enólogo David “Merf” Merfeld, o auge da qualidade dos vinhos com a Merlot na Northstar Winery, o vinho top da vinícola.

A Northstar Winery se localiza em Walla Walla na chamada Wine Trail South, mas ainda no território de Washington (a AVA Walla Walla se estende por Washington e pelo Oregon), vizinha a outra incrível vinícola a Pepper Bridge Winery. 

 

Fazendo parte do grupo de vinícolas do Chateau Ste. Michelle, Northstar Winerytem por foco vinhos elaborados com a Merlot, pura ou prevalecendo em cortes com outras uvas bordalesas, como Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc Petit Verdot. A inspiração são vinhos da chamada “margem direita” de Bordeaux.  

 

Northstar Premier Merlot Columbia Valley 2010 é um vinho 100% Merlot, com frutas selecionadas nos melhores vinhedos localizados na macro AVA Columbia ValleyBeverly Gap, Cold Creek e Stone Tree os dois últimos pertinho de Wahluke Slope (uma AVA menor). 

O vinho, de excelente qualidade, apresentou uma cor rubi profundo; no nariz tinha uma intensidade pronunciada, com aromas de frutas negras (cereja, mirtilo, ameixa, amora), pimenta negra, menta, baunilha, noz-moscada, fumo, cacau, tabaco, mostrando-se extremamente complexo nos seus 11 anos de idade. Na boca, um vinho seco, com acidez média, taninos altos e bem polidos, álcool de 14,7% (alto), corpo médio mais, intensidade de sabores pronunciada, com destaque para as frutas negras, com um final longo.

 

Porém, o mais especial do vinho foi me fazer viajar de volta ao tempo e relembrar uma fria manhã de abril quando visitei a vinícola. Um tasting room acolhedor e charmoso, com uma lareira quentinha era o cenário para a degustação de vinhos elegantes como o Premier Merlot 2010 que provei na época. 

Cheers!

 

Para relembrar posts anteriores sobre Washington e seus vinhos clique aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui

sábado, 17 de julho de 2021

Saint-Émilion e a Classificação de seus Vinhos

No mundo dos vinhos Bordeaux 
Château Cheval Blanc 
é sinônimo de prestígio e qualidade originando-se nessa região alguns dos vinhos mais míticos do planeta. É a maior apelação de origem francesa em volume e em valor.

 Dentro da grande AOP (Appellation d'Origine ProtégéeBordeaux existem diversas AOPs menores e dentro delas outras ainda menores, como se fossem caixas menores dentro de caixas maiores, todas com regramento próprio e ressaltando os respectivos terroirs

 

A vasta região de Bordeaux divide-se em três grandes sub-regiões (com suas diversas apelações de origem protegida):


I) “margem esquerda” (terras ao oeste do rio Garonne e do estuário do rio Gironde – da península do Médoc até Graves, em regra com solos “quentes” de cascalho e areia);


II) “margem direita” (terras ao leste dos rios Gironde e Dordogne, se estendendo de Blaye até Castillon, em regra com solos “frios” de argila e calcário);
Saint-Émilion

III) Entre-Deux-Mers (“ilhas” de vinhedos entre os rios Gironde e Dordogne, possuindo todos os tipos de solos de Bordeaux).

 

A par das diversas AOPs (Appellation d'Origine Protégée) existentes em Bordeaux há algumas classificações criadas ao longo dos anos por razões diversas para destacar vinhos segundo alguns critérios específicos de cada classificação. 

 

A primeira e a mais célebre é a de 1855 para os vinhos do Médoc e de Sauternes (duas classificações em uma), que refletia os preços dos vinhos na época e criada para a Exposição Universal de Paris realizada naquele ano. Trata-se de uma classificação praticamente imutável (a exceção ocorreu em 1973 com a promoção do Château Mouton Rothschild) e que em alguns casos não mais retrata uma hierarquia de preços entre seus vinhos.

 

Depois surgiram as classificações Cru Bourgeois (início no ano de 1932, com revisões posteriores), Cru Artisans (início no ano de 2006 com revisões posteriores), a dos vinhos de Graves (1953 com revisão em 1959) e a mais controvertida de todas a de Saint-Émilion (a única da sub-região da “margem direita”).

 

Saint-Émilion
Em Saint-Émilion há duas AOPs que cobrem a mesma área de produção: Saint-Émilion e Saint-Émilion Grand Cru. A Grand Cru possui padrões mais exigentes (e.g. menor rendimento das vinhas, álcool mínimo do vinho
mais elevado etc...) e todos os vinhos devem ser engarrafados no Château e submetidos a duas provas (antes e após o período obrigatório de um ano de amadurecimento). Essas AOPs não devem ser confundidas com a classificação dos vinhos de Saint-Émilion criada em 1955. 

 O sistema de classificação dos vinhos de Saint-Émilion inicialmente foi pensado para ser revisto a cada 10 anos (ou até mais) e foi estabelecido em 1955. Para obter um status de Grand Cru Classé dentro da referida classificação o vinho deve necessariamente ser da AOP Saint-Emilion Grand Cru

Château Angelus

 Os vinhos nessa classificação dividem-se em Premiers Grand Cru Classé Nível A; Premiers Grand Cru Classé Nível B; e Grand Cru Classé.

 

A classificação dos vinhos de Saint-Émilion foi atualizada nos anos de 1969, 1986, 1996, 2006 e 2012, e está prevista para ser atualizada em 2022.

 

Saint-Émilion
A atualização da classificação dos vinhos de Saint-Émilion de 2006 acabou por desencadear uma verdadeira batalha legal, que se estendeu em instâncias administrativas, judiciais e até mesmo legislativas. A discussão se centrou na alegação de parcialidade de diversos membros do painel formados para analisar os vinhos e decidir quais seriam promovidos, quais não seriam e quais seriam rebaixados. Alguns, por exemplo, eram négociants que mantinham relações comerciais com algumas das vinícolas. Após diversas reviravoltas administrativas, judiciais e legislativas, em 2009 a Cour de Cassation, o mais alto órgão do Judiciário francês, decidiu anular a classificação de 2006 e restabelecer a de 1996. Logo em seguida, em maio de 2009, o Legislativo francês aprovou uma lei que estabelecia que os seis Chtâteaux que haviam sido promovidos a Grand Cru Classé em 2006 assim permaneceriam somando-se aos demais da revitalizada versão de 1996 da classificação com validade até 2011.

 

Saint-Émilion
Em 2012 a classificação foi novamente revista, buscando apagar os efeitos deletérios e a confusão decorrentes da última versão de 2006. Dessa vez, o INAO formou uma comissão de sete pessoas para conduzir as
degustações e as inspeções nas vinícolas, e sem envolvimento com o sindicato de vinhos de Saint-Émilion e/ou com o comércio de vinhos de Bordeaux, Os membros eram profissionais do vinho ligados a outras regiões, como Borgonha, RhôneChampagneLoire e a Provence. Nessa versão, não havia mais um número máximo de Châteaux na classificação. Os Château Pavie e Château Angélus foram promovidos para a Premiers Grand Cru Classé Nível A (passando a fazer companhia ao Château Cheval Blanc e ao Château Ausone) e vários outros, inclusive alguns garagistes como Château Valandraud, entraram nas categorias Premiers Grand Cru Classé Nível B (e.g. Château Canon-la-Gaffelière, La Mondotte, Château Larcis Ducasse) e Grand Cru Classé

 Em janeiro de 2013, Château La Tour du Pin Figeac (Giraud-Bélivier), Chateau Croque-Michotte e Château Corbin-Michotte iniciaram processos no Tribunal Administrativo de Bordeaux alegando erros nos procedimentos para a revisão da classificação, não havendo maiores desdobramentos até o momento dessas iniciativas.

 

Nesse mês de julho, quando se iniciavam os procedimentos para revisão da classificação dos vinhos de Saint-Émilion, a imprensa especializada (Terres de Vins, Decanter, The Drink Business) noticiaram que o Château Cheval Blanc (leia aqui) e o Château Ausone, ambos do seleto grupo dos Premiers Grand Cru Classé Nível A, decidiram não mais participar do sistema de classificação local, discordando de alguns novos critérios de julgamento, em especial os atinentes a aspectos de marketing (colocação do produto no mercado, com que frequência a vinícola aparece na mídia, incluindo redes sociais) e infraestrutura de enoturismo, entendendo que a importância do terroir foi relegada a um segundo plano. 

Segundo a revista inglesa DecanterPierre Lurton, diretor do Château Cheval Blanc, questionou ainda o sistema de avaliação dos vinhos, que teria perdido a “noção de identidade e tipicidade, como se a cultura do vinho, a sua capacidade de envelhecimento ao longo de várias décadas e o conhecimento da denominação fossem desnecessários para a avaliação das propriedades”.

 

Além do Château Cheval Blanc e do Château Ausone, o Château La Clotte e oChâteau Quinault L’Enclos (da mesma equipe do Ch. Cheval Blanc) também decidiram não apresentar suas candidaturas.

 

Château Cheval Blanc




Importante notar que a decisão de tais produtores de não mais participar na classificação de vinhos de Saint-Émilion a partir de 2022 não significa que tenham abandonado a AOP Saint-Émilion Grand Cru, que não deve ser confundida, como dito antes, com a classificação. 

 Ao que parece, depois de todos esses anos de confusões e batalhas legais, a classificação dos vinhos de Saint-Émilion parece realmente estar em perigo, ou será que sobreviverá ao baque da saída de dois de seus mais festejados produtores? 


Isso tudo me fez lembrar a conversa de anos atrás, por ocasião de uma visita ao Château Le Tertre Roteboeuf - um pequeno produtor de altíssimo nível de Saint-Émilion, com vinhos cultuados entre enófilos do mundo afora - com Nina Mitjavile, filha do proprietário François Mitjavile e uma das enólogas do Château, quando lhe indaguei sobre a classificação dos vinhos de Saint-Émilion e a razão de não participarem. A resposta foi simples: não reconheciam o sistema de hierarquia da classificação e entendiam que cada vinho representava seu próprio terroir, tendo uma identidade única e particular, não sendo passível de comparação. 

 

O tempo dirá o futuro da classificação dos vinhos de Saint-Émilion... 


Santé!