segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Las Notas de Jean Claude 2012 – Um Pomerol Argentino

Mês passado, em visita à Mendoza tive a oportunidade de visitar as vinícolas Zolo/Tapiz. Na ocasião, adquiri duas garrafas do vinho Las Notas de Jean Claude 2012, vinho que constava em minha lista de desejos e nunca conseguira encontrar. 

Las Notas de Jean Claude 2012 tem a Merlot como cepa principal (91%), escoltada pelas Petit Verdot (3,5%), Cabernet Franc (3%) e Cabernet Sauvignon (2,5%). 

Quando pensamos em vinhos argentinos, ou mesmo sul-americanos, raramente pensamos em Merlot, e o Las Notas de Jean Claude 2012 pode ser considerado o Merlot ultra premium da Argentina.

O vinho é elaborado com total liberdade pelo enólogo consultor da Zolo/Tapiz, o francês Jean-Claude Berrouet

Jean-Claude Berrouet trabalhou por mais de quarenta anos com Jean Pierre Moueix no lendário Château Pétrus, e por muitos anos em outras vinícolas da família Moueix, como Château Magdelaine (Saint-Émilion), Château Trotanoy (Pomerol) e Dominus Estate (Napa Valley).

Em 2007, Jean-Claude Berrouet  se aposentou oficialmente. 
Entretanto, em parceria com seu filho Jean-François BerrouetJean Claude passou a prestar consultoria para vinícolas em diversos países do mundo, como  China (Rongzi), Israel (Tzora Wines), França (Château Lafon-Rochet em Saint-Estèphe, Bordeaux), Espanha, Portugal (Quinta da Boavista, Douro), Estados Unidos (Twomey Cellars, Napa Valley) e, é claro, Argentina (Zolo/Tapiz).

Além disso, Jean Claude Berrouet e seu filho, Jean-François, possuem a vinícola Vieux Château Saint-André na AOC Montagne-Saint-Émilion. Para mim, um dos melhores custo-benefícios de Bordeaux, e que tive a oportunidade de provar a primeira vez em novembro de 2016.

Por outro lado,  a família Berrouet não abandonou o célebre Château PétrusUm dos filhos de Jean-ClaudeOlivier Berrouet, passou a ser o diretor de enologia do Château Pétrus, trabalhando com Jean-François Moueix, filho de Jean Pierre.

Especialista na Merlot, Jean Claude Berrouet não se deixou seduzir por modismos, sendo adepto de vinhos que expressem seu local, com intervenções mínimas. Seus vinhos são densos, equilibrados, elegantes, e com capacidade de longa guarda.

Las Notas de Jean Claude 2012, elaborado com uvas do vinhedo San Pablo, em Tupungato, Valle de Uco, a 1350 metros de altitude,se caracteriza pela elegância, pelo frescor típico do Valle de Uco, taninos sedosos e perfeito equilíbrio entre fruta e acidez, com aromas terrosos e final longo. Extremamente macio e elegante, o vinho "abriu" após 90 minutos no decanter, mostrando bem a tipicidade da Merlot e remetendo a um Pomerol

Com certeza, o Las Notas de Jean Claude 2012 inaugura um novo capítulo na história do vinho argentino, e, certamente, será seguido por outros.

Salut e Santé!

* As fotos 3 e 5 foram gentilmente cedidas pela vinícola Zolo/Tapiz.  

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Shea Vineyard, o Grand Cru do Oregon

No sistema norte-americano das AVAS (American Viticultural Areas – o equivalente às apelações ou denominações de origem no sistema norte-americano - leia mais aqui) não existe uma classificação oficial de vinhedos com uma hierarquia própria, tal qual ocorre em algumas regiões da França, como, v.g., na Borgonha e na Alsácia.

No entanto, como mencionamos em outras oportunidades (leia mais aquiaqui e aqui), há uma tendência cada vez maior em países produtores a elaborar vinhos de vinhedos únicos, de forma a refletir o local, fortalecendo a noção de terroir.
 
Em uma região como Willamette Valley (uma AVA), que contempla diversas sub-apelações com características próprias (Chehalem Mountains, Ribbon Ridge, Dundee Hills, Yamhill-Carlton, Eola-Amity Hills e McMinville, todas AVAs próprias, estabelecidas entre 2004 e 2006), com solos e micro-climas diversos, e cuja principal estrela é a Pinot Noir (seguida da Pinot Gris e da Chardonnay), não é de surpreender uma certa preferência por elaborar vinhos single vineyards, como fazem Josh Bergström Ken Wright.

Mesmo os produtores que têm como rótulos principais vinhos elaborados com frutas de mais de um vinhedo, acabam por elaborar em partidas menores vinhos single vineyards. Por exemplo, o Domaine Serene cujo flagship wine é o Evenstead Reserve, produz em partidas limitadas vinhos single vineyard como o Jerusalem Hill Vineyard Pinot Noir, o nosso preferido desse produtor. 

Um dos vinhedos mais célebres do Oregon é o Shea Vineyard, praticamente todo plantado com Pinot Noir (dos 140 acres, 135 são de Pinot Noir e 5 apenas com Chardonnay).

No final da década de 1980, o casal Dick Deirdre Shea compraram um terreno em Willamette Valley onde plantaram o Shea Vineyard. Mais tarde, em 2004, houve a criação da AVA Yamhill-Carlton onde o vinhedo todo se situa.

Na época, o casal assumiu um grande risco, pois todos evitavam a área, não acreditando que os solos com sedimentos marinhos seriam propícios para o plantio de uvas.

Nos primeiros anos, os rendimentos do Shea Vineyard eram mais altos, e muitos produtores desconfiavam da qualidade das uvas, muitas vezes declinando comprar uvas ou ainda pagando preços inferiores aos custos de produção. 

Em 1994, entretanto, houve uma guinada no destino do Shea Vineyard. Naquele ano, Dick Shea e seu gerente, Javier Marin, decidiram diminuir os rendimentos do vinhedo, privilegiando qualidade sobre quantidade.

Pouco tempo depois, no mesmo ano, as vinícolas Panther Creek Ken Wright Cellars lançaram seus primeiros vinhos elaborados apenas com frutas do vinhedo Shea Vineyard, colocando o nome do vinhedo no rótulo. Os vinhos receberam as notas mais altas até hoje dadas pelo crítico Robert Parker Jr. para vinhos Pinot Noir do Oregon.

No entanto, poucas semanas depois, descobriu-se phylloxera no vinhedo e praticamente tudo teve que ser replantado. Por sorte, a praga não se alastrou rapidamente como ocorreu na década de 1980 na Califórnia, ou no final do século XIX na França, podendo ser controlada e erradicada, sem causar maiores danos à região.

Como resultado do replantio das vinhas em 1995, foram utilizados porta-enxertos e majoritariamente clones Dijon (no entanto, ainda há vinhas mais antigas que não foram afetadas pela phylloxera e plantadas com clones Pommard, como o block 16 utilizado pela Bergström Wines), o que contribuiu para uma maior densidade nos vinhos.


No final da década de 1990, Dick Shea decidiu fundar sua própria vinícola, a Shea Wine Cellars produzindo vinhos apenas do vinhedo de mesmo nome. 

Shea Wine Cellars produz vinhos diversos, um Estate que é um assemblage de blocos diversos do vinhedos, e vinhos de blocks específicos, que seriam o lieu-dit do vasto vinhedo, guardando pequenas diferenças entre si.

Shea Wine Cellars utiliza 25% das uvas de seus vinhedos, vendendo o restante das uvas para um pouco mais de duas dezenas de vinícolas com quem mantém contratos. A Bergström Wines  é a vinícola com maior volume contratado. Outros produtores nessa seleta lista incluem Ken Wright, Winderlea, Penner-Ash Wine Cellars, Raptor Ridge, St. Innocent, dentre outros.

Shea Vineyard compreende duas colinas separadas por uma ravina íngreme, e os solos possuem antigos sedimentos marinhos e espessos solos de arenito, forçando as raízes das vinhas a lutarem para conseguir chegar ao fundo buscando umidade e minerais. Por conta disso, os vinhos do Shea Vineyard são marcados por uma rica mineralidade, e são potentes e estruturados, sem, no entanto, perder a elegância.
 
Por conta da baixa altitude do Shea Vineyard o clima é mais quente que no restante do Willamette Valley, apresentando seus vinhos mais densidade e estrutura, contribuindo para sua longevidade.

Portanto, ao se deparar com uma garrafa de Oregon Pinot Noir com o nome Shea Vineyard no rótulo, não hesite em experimentar, é um clássico.

Cheers!

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Um vinho branco perfeito: Trimbach Riesling Cuvée Frédéric Emile 2008

Recentemente visitei a Alsácia, região francesa que se destaca pela produção de vinhos brancos, em especial monovarietais - Riesling, Gewürtztraminer, Pinot Gris, e outras. De estilos diversos, dos secos até os extremamente doces, o sistema de vinhos da Alsácia será explorado em futuros posts.

Nessa viagem, mais de uma dezena de vinícolas foram visitadas e mais de uma centena de vinhos foram degustados, em estilos e níveis de qualidade diversos com grande foco nos Grand Crus. Foi realmente uma jornada surpreendente e didática.

Em uma de nossas visitas, tivemos a oportunidade de degustar um vinho único, um Riesling seco, com dez anos de idade. Simplesmente espetacular, um daqueles vinhos que se destacam no meio de diversos vinhos excelentes, e nos marcam.

Embora não me preocupe com notas de críticos de vinhos, até mesmo porque cada garrafa é sempre única, e há diversos fatores subjetivos que influenciam a degustação (onde bebemos, quando bebemos, com quem bebemos, nossas condições físicas, taças, aspectos do serviço etc...), o Riesling Cuvée Frédéric Emile 2008 da Maison Trimbach é realmente um daqueles vinhos únicos, que guardamos anos a fio em nossas memórias.

Lançado no mercado já com dez anos, o Trimbach Riesling Cuvée Frédéric Emile logo foi aclamado pela crítica especializada internacional, recebendo 96 pontos da Wine Advocate (Stephan Reindhardt) e 95 pontos da Wine Enthusiast (Anne Krebiehl MW).

Porém, sua consagração máxima veio com a perfeita pontuação 20/20 conferida por um dos mais respeitados guias de vinhos franceses, o Bettane + Desseauve, dos experientes críticos Michel BettaneThierry Desseauve.

Embora o Trimbach Riesling CuvéeFrédéric Emile não seja oficialmente um Grand Cru, as uvas com que é elaborado são provenientes de uma parcela específica de vinhedo (lieu-dit, como preferem os franceses) que se localiza na divisa entre os Grand Crus GeisbergOsterberg, pertinho das instalações da vinícola na bela cidade de Ribeauvillé.

Na verdade, tais parcelas já eram utilizadas na elaboração do Trimbach Riesling Cuvée Frédéric Emile muitos anos antes de Geisberg Osterberg terem suas extensões definidas e serem alçados ao status deGrand Cru(respectivamente, em 1983 e 1992).
 
Maison Trimbach, de seu turno, optou por manter o Trimbach Riesling Cuvée Frédéric Emile “apenas” na classificação Appelation Alsace Contrôlée ao invés de “dividir” o vinho em dois outros vinhos pertinentes aos Grand Crus GeisbergOsterberg, colocando-os na teoricamente mais prestigiosa classificação Appelation Alsace Grand Cru Contrôlée.


A decisão da Maison Trimbach de manter o Cuvée Frédéric Emile fora da classificação Alsace Grand Cru (o mesmo aconteceu com o cultuado Trimbach Clos Saint Hune), reflete uma crítica (hoje já um pouco abrandada) de parte dos produtores alsacianos (Hubert Trimbach, Felix Meyer, Léon Beyer, Marc Hugel, dentre outros) à forma como foram definidos os Grand Crusna Alsácia, e que, em apertada síntese, se centra no número excessivo de Grand Crus e na própria ausência de classificações intermediárias, como as apellations villages premiers crus, tal como ocorre na Borgonha, dentre outros aspectos.

E, assim, em uma ensolarada manhã de início de primavera, e ainda ignorantes quanto às notas recebidas pelo Riesling Cuvée Frédéric Emile 2008, chegamos na Masion Trimbach em Ribeauvillé para uma degustação. 

Na Alsácia não é raro que em visita a produtores haja mais de uma dezena de vinhos possíveis de serem degustados. Assim, é comum que em algumas visitas nos seja indagado que estilo de vinhos preferimos degustar. Porém, para realmente mergulhar em uma região de vinhos e entende-la precisamos afastar nossos gostos pessoais e provar novos estilos de vinhos. Sempre que indagavam isso pedia uma sugestão para que me fosse apresentado um panorama dos vinhos alsacianos e do trabalho e filosofia da vinícola.

Seguindo essa filosofia, iniciamos com um refrescante e seco Muscat, o Trimbach Muscat Réserve 2015.

Em seguida degustamos o excelente Trimbach Riesling Selection de Vieilles Vignes 2015 e após ao incrível Riesling Cuvée Frédéric Emile 2008.

Recentemente lançado no mercado, já com dez anos de idade, o Riesling Cuvée Frédéric Emile 2008 mostrava que ainda tinha uma longa vida pela frente. Com cor amarelo limão, no nariz se mostrava com intensidade pronunciada e aromas de limão siciliano, damasco, abacaxi, casca de laranja, sílex, notas de pimenta branca e com um leve petróleo, querosene, característicos de Rieslings mais envelhecidos. Na boca, era seco, com muito corpo, quase cremoso, com notas de frutos secos e cítricos, final extremamente longo. Realmente impressionante.

De se destacar que o Riesling precedente já era espetacular, daí minha empolgação com o Riesling Cuvée Frédéric Emile 2008 (obviamente o fato de ser um grande fã da Riesling influenciou meu julgamento em ambos os vinhos). 

Na sequencia, passamos aos Pinots Gris, com grau de açúcar residual maior. Iniciamos com o Trimbach Pinot Gris Réserve 2015, e em seguida passamos ao Trimbach Pinot Gris Réserve Personnelle 2014.

Aumentando o nível de açúcar residual, passamos aos aromáticos Gewürztraminers. Iniciamos com o Trimbach Gewürztraminer Cuvée des Seigneurs de Ribeaupierre 2011, arrebatador no nariz com seus aromas de rosas e lichias. 

Em seguida, degustamos os vinhos doces. Primeiro, o Trimbach Gewürztraminer Vendages Tardives 2011 e, em seguida, o monumental e complexo Trimbach Gewürztraminer Selection de Grains Nobles 2008 encerrou  com chave de ouro a degustação!

Um belo início para nossa visita à Alsácia! Santé!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Descobrindo Washington Parte 4 – Tri-Cities

Após sairmos da região de Walla Walla Valley (relembre aqui), retornamos em direção ao oeste. Nosso objetivo era visitar algumas vinícolas nas cercanias das chamadas Tri-Cities, e ter mais um dia para explorar a região de Red Mountain.

A região de Tri-Cities é apontada como “the heart of Washington wine country”, pois em seu entorno num raio de cerca de 50 milhas existem mais de 200 vinícolas inseridas em AVAs (American Viticultural Areas) diversas, como Red Mountain, Yakima Valley e Horse Heaven Hills, dentre outras (leia aqui sobre as AVAs de Washington) .

Tri-Cities é composta, na verdade, por quatro cidades distintas e fronteiriças: Kennewick, Pasco, Richland e West Richland.

Como mencionamos, optamos por fazer uma parada estratégica de dois dias em Tri-Cities com um dia para Red Mountain e outro para visitar mais algumas vinícolas bem próximas de Tri-Cities. Assim, diminuiríamos o tempo de viagem até nossa próxima etapa, o vizinho Estado do Oregon, que será objeto de posts futuros.


No primeiro dia, iniciamos pela Tagaris Winery, vinícola com inspiração grega e que possui um excelente restaurante onde almoçamos.

Além do almoço, degustamos alguns vinhos de excelente preço, despretensiosos, porém de excelente qualidade. Os três vinhos que se destacaram foram o T Riserva Italiana 2011 um corte nada usual de 43% Barbera, 42% Sangiovese, 10% Cabernet Sauvignon e 5% Syrah, todas as uvas provenientes da AVA  Wahluke Slope; o T Grenache Lee Palomo Vineyard 2012, também com uvas de Wahluke Slope; e o T Syrah Areté Vineyard 2011 (Columbia Valley).

Na sequencia, visitamos uma vinícola bem tradicional em Washington, a Barnard Griffin. Dos vinhos degustados, valem menção o Barnard Griffin Roussanne 2012 e o Barnard Griffin Grenache 2011, ambos de Columbia Valley.

Após, visitamos outra vinícola clássica em Washington e conhecida por seus potentes Cabernets Sauvignons e blends, bem como Syrahs a J. Bookwalter Winery. Provamos ali os seguintes vinhos: J. Bookwalter Foreshadow Cabernet Sauvignon 2012 (Columbia Valley); J. Bookwalter Antagonist Syrah 2013 (Columbia Valley); J. Bookwalter Conflict Conner-Lee Vineyard 2012 (ColumbiaValley; 63% Cabernet Sauvignon, 32% Merlot e 5% Syrah); J. Bookwalter Protagonist 2012 2012 (Columbia Valley; 91% Cabernet Sauvignon; 9% Syrah); J. Bookwalter Suspense Conner-Lee Vineyard 2012 (Columbia Valley; 35% Cabernet Franc, 65% Merlot).

Encerramos o dia na aconchegante Goose Ridge Winery, calmamente degustando nossos vinhos ao pé da lareira. Dentre os brancos, degustamos o Goose Ridge Riesling 2013  e o Goose Ridge  GRV 2013 (50% Viognier,27% Grenache Blanc e 23% Roussanne). Provamos quatro tintos: o Goose Ridge First Flight 2011 (67% Cabernet Sauvignon, 17% Merlot e 16% Syrah); o Goose Ridge Cabernet Sauvignon 2009; o Goose Ridge Merlot 2010 e, por fim, o Goose Ridge Syrah 2011. Todos os vinhos elaborados com uvas da AVA Columbia Valley.

No segundo dia, retornamos a Red Mountain (relembre a primeira visita aqui), uma das nossas sub-regiões vinícolas (AVAs) preferidas de Washington.

Iniciamos o dia visitando a Col Solare, uma parceria da família Antinori e o Chateau Ste. Michelle, visita esta sobre a qual escrevemos um post exclusivo. Relembre aqui.

Após, visitamos a Fidelitas. A arquitetura da vinícola é

simplesmente incrível, degustando-se os vinhos com o vinhedo emoldurado por uma ampla parede de vidro. E os vinhos são de altíssima qualidade, fazendo jus à arquitetura da vinícola (ou seria o contrário?). Provamos ali cinco vinhos: Fidelitas Boushey Red Wine 2011; Fidelitas Champoux Merlot 2011; Fidelitas Optu Red Mountain 2012 (72% Cabernet Sauvignon, 20% Merlot, 4% Petit Verdot, 4% Cabernet Franc), o Fidelitas Malbec Red Mountain 2011 e o Fidelitas Ciel du Cheval Cabernet Sauvignon 2010 (sobre o vinhedo Ciel du Cheval leia aqui). Todos simplesmente espetaculares e da AVA Red Mountain.

Na sequencia, visitamos a Hedges Family Estate, cujos vinhos não nos empolgaram muito. Na verdade, não havia opção de escolha dos vinhos a serem degustados, e ficamos bem desapontados com o que provamos. No entanto, ali vimos um vinhedo plantado com Sousão, casta tinta portuguesa típica do Douro utilizada sobretudo em vinhos do Porto (embora haja vinhos tranquilos monocastas, como o Quinta do Vallado Sousão). E a razão para o plantio da Sousão ali na remota Red Mountain era interessante. Um enólogo português da equipe da vinícola havia sugerido o seu plantio para elaboração de vinhos fortificados no estilo dos vinhos do Porto.

Após, paramos na Terra Blanca - onde já havíamos ido alguns dias antes - para almoçar no pequeno restaurante da vinícola que serve pizzas de forno a lenha e saladas.

Em seguida, visitamos a pequena e familiar Cooper Wine Company, onde fomos recebidos pelo próprio proprietário e enólogo, o simpático Neil Cooper. Ele nos contou sua filosofia: vinhos de pequena produção, sempre Bordeaux styles blends, focados na qualidade. Na época, Neil havia acabado de retornar de uma viagem ao Chile e já começava a usar um pouco de Carménère em alguns vinhos. Provamos os seguintes vinhos: Cooper Riesling Yakima Valley 2013; Cooper Estate Chardonnay Red Mountain 2013; Cooper Barrel Maker Red Red Mountain 2012 (50% Cabernet Sauvignon; 25% Merlot; 25% Cabernet Franc); Cooper L’Inizio Red Mountain 2012 (40% Cabernet Sauvignon; 15% Merlot; 12,5% Malbec; 12,5% Petit Verdot; 10% Cabernet Franc e 10% Carménére); Cooper Estate Cabernet Sauvignon Red Mountain 2012 e o Cooper Estate Merlot Red Mountain 2011.
Finalizamos o dia ainda na Chandler Reach, uma pequena vinícola com arquitetura toscana, e na qual os brancos foram o grande destaque (um Chenin Blanc, um Viognier e um Chardonnay, todos 2013 e da AVA Columbia Valley), além de um tinto, o Parris 2008, um Cabernet Franc de Yakima Valley.

Fechamos assim nossa viagem pelas regiões vinícolas de Washington (relembre as parte 1, 2 e 3 de nossa viagem) e nos preparamos para a etapa seguinte, o vizinho Oregon.


Cheers!

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Paso Robles e suas AVAs

Paso Robles é uma das minhas regiões vinícolas preferidas na Califórnia.

Desde a nossa primeira visita em 2011 (leia aqui), quando ainda não era um wine country tão célebre como Napa e Sonoma, Paso Robles - ou apenas Paso como preferem os locais - se tornou bem badalada, inclusive tendo sido eleita em 2013, pela publicação norte-americana Wine Enthusiast, a região produtora de vinhos daquele ano (Wine Region of the Year).


Atualmente, é uma das regiões vinícolas mais prestigiadas dos Estados Unidos. E apesar do sucesso e do estruturado enoturismo, Paso mantém seu charme com seu estilo wild west, com preços (ainda) razoáveis quando comparado com Napa Valley.

Paso se localiza no condado de San Luiz Obispo, na chamada Central Coast da Califórnia, no meio do caminho entre San Francisco e Los Angeles, abrangendo a cidade homônima e diversas localidades próximas.

A região se estende cerca de 42 milhas do oeste para o leste, e 32 milhas do norte ao sul, e até 2014 era a maior AVA californiana sem subdivisões, apresentando diversos tipos de solos e microclimas variados.

Paso Robles se notabilizou por diversos estilos de vinhos, desde a pioneira Zinfandel e seus blends, até a Syrah, a Grenache e demais uvas do Rhône sozinhas ou em assemblages (é um dos lares dos chamados Rhone Rangers), passando pela Cabernet Sauvignon e os cortes bordaleses, com espaço para experimentações com Tempranillo, Touriga Nacional, cepas italianas como a Barbera (sobre os Cal-Italians Wines leia aqui), e blends inovativos (enquanto escrevia este post degustava um vinho 55% Syrah, 40% Zinfandel e 5% Viognier, o Zenaida Zephyr 2014, uma releitura local do Côte-Rôtie acrescida da Zinfandel).

Em 2014 a AVA (American Viticultural Area) de Paso Robles foi subdividida em 11 AVAs, mantendo-se, como ocorre com Napa por exemplo, uma AVA maior, no caso Paso Robles, de forma a realçar para o apreciador de vinhos as características do terroir de cada localidade da região.

As novas AVAs agrupam-se em três subregiões:

1) A parte oeste montanhosa, a cerca de 5 milhas do Pacífico (Western Hilly Areas), com solos calcários e em com vinhedos até 2400 pés do nível do mar, e contando com brisas marítimas moderadas, e na qual se inserem as AVAs Adelaida, Paso Robles Willow Creek, Templeton Gap e, um pouco mais ao sul, após a cidade de Atascadero, Santa Margarita Ranch (com solos aluviais). Além dos potentes Zinfandels, a área se destacam também pelos vinhos elaborados com varietais do Rhône, com destaque para a Syrah e para a Grenache. Há ainda excelentes vinhos elaborados com a Petite Sirah (leia mais sobre esta enigmática uva aqui) de vinhedos antigos;
 
2) A parte dos vales internos (Inland Valleys), já à leste da Highway 101, com as AVAs San Miguel, Paso Robles Estrella, Paso Robles Geneseo, e El Pomar, com vinhedos plantados entre 700 e 1600 pés do nível do mar, e com solos argilosos e aluviais. Aqui, até mesmo por não haver tanta influência da brisa marítima, se destacam a Cabernet Sauvignon, e os vinhos com cortes bordaleses, além da Zinfandel.

3) Também ao leste da Highway 101, a Inland Hilly Area, com vinhedos em colinas, e com clima mais quente, também se destacando a Zinfandel e a Cabernet Sauvignon, e com futuro promissor para cepas espanholas e portuguesas. Aqui há menos chuva que nas demais áreas e a inversão térmica é maior. As AVAs aqui são San Juan, Creston e Highlands.

Vale lembrar que a vizinhaYork Mountain, na parte oeste da região, é uma AVA independente, não se inserindo dentre as sub-AVAs de Paso Robles.

Alguns poderiam pensar qual a razão de se criar 11 AVAs inseridas dentro de uma AVA, Paso Robles, já com nome reconhecido no mercado de vinhos. Como já tivemos oportunidade de escrever antes, as AVAs, não obstante algumas críticas recebidas quanto à sua proliferação no sentido de que “confundiriam o consumidor”, mostram-se imprescindíveis para a construção de uma noção de terroir na Califórnia e em outras regiões produtoras norte-americanas, e, mutatis mutandi, no mundo todo. São imprescindíveis para a construção de uma identidade cultural-vinícola. Leia mais sobre a noção de AVAs e terroir aqui.

Pelo sistema atual, os produtores não são obrigados a ostentar o nome da sub-AVA, podendo manter apenas a AVA Paso Robles (ou ainda colocar Paso Robles e o nome específico da sub-AVA, como “Paso Robles – Templeton Gap District) e apenas com o passar do tempo poderemos perceber como as novas AVAs de Paso irão contribuir para o fortalecimento da noção de terroir da região.

Cheers!