sexta-feira, 31 de maio de 2019

A Alsace e seus Vinhos: Uma Breve Introdução – Parte I

Imagine uma região produtora de vinhos em que duas das principais uvas sejam a Riesling e a Gewurtztraminer; em que as garrafas do vinhos sejam as longas e estreitas flutes; em que nos rótulos conste o nome da uva; em que o grau de açúcar residual nos vinhos seja um tema relevante; em que os vinhedos tenham nomes como Altenberg de Bergheim, Geisberg, Schoenenbourg, Schlossberg, dentre outros. Para completar, Flammekuche Choucroute sejam dois pratos típicos locais.

Embora essa região fique na beira do Reno, ela é francesa, a Alsácia, ou Alsace (o “s” com pronúncia de “z”). E apesar da influência germânica possui fortes traços franceses, como a presença da noção de terroir, assim como um sistema de classificação de vinhedos tipicamente francês. 

A Alsácia produzia vinhos na época dos romanos. Depois, durante a Idade Média, com o cristianismo, chegou a ter quase duas centenas de aldeias produzindo vinhos.

Na Renascença a Alsácia atingiu seu auge, sendo parte de um principado alemão. Após a Guerra dos Trintas Anos, no século XVII, a região entrou em declínio e acabou passando para o domínio francês.
 
Posteriormente, após a Guerra Franco-Prussiana, na segunda metade do século XIX, a Alsácia voltou ao domínio alemão.

Após a I Grande Guerra Mundial a Alsácia retornou à França, época em que o Governo ordenou a retirada de vinhas híbridas e sua substituição por Vitis Vinifera, o que só acabou ocorrendo como um todo apenas anos depois do final do segundo conflito mundial, depois de 1949.

Durante a II Guerra Mundial a Alsácia foi anexada novamente à Alemanha, retornando para a França ao fim do conflito.

Todas essas mudanças de domínio sobre a Alsácia geraram uma fusão entre as culturas alemã e francesa, originando a cultura alsacianam, da qual os vinhos são um de seus reflexos.

Situada no nordeste da França, a Alsácia fica ao longo da fronteira com a Alemanha, 120 km de norte a sul, com apenas 5,8km de lagura.

O clima alsaciano é continental, com verões quentes e invernos gélidos. A cadeia de montanhas Vosges ao oeste da Alsácia protegem a região dos ventos úmidos e das nuvens carregadas de chuva que vêm do oeste. O efeito dos Vosges faz com que a Alsácia seja quente e ensolarada, trazendo como consequência o amadurecimento mais lentos das uvas, acarretando complexidade aromática.

Há uma grande variedade de solos na Alsácia (xisto, calcário, vulcânico, marga, granito, gnaisse, arenito, areia, argila, loess etc...), que podem ser encontrados sós ou mesclados nas mais variadas combinações, criando um rico mosaico.

E cada tipo de solo ou combinação, aliado com o respectivo microclima são ideais para uma ou outra variedade de uva, o que os produtores vêm aprendendo e aprimorando por gerações.

Na Alsácia os rótulos indicam em destaque, em regra, os nomes das cepas, algo praticamente único na França. 

Embora inicialmente a valorização da variedade se sobrepusesse ao local, isso vem mudando já faz alguns anos, primeiro com a criação da denominação autônoma Grand Cru e depois com subcategorias dentro da AOC Alsace (Communal Lieu-Dit), aumentando cada vez mais a necessidade do vinho expressar um local único.

As principais uvas da Alsace são: 
- Riesling;
- Gewurztraminer (escrito sem o trema mesmo);
- Pinot Gris;
- Pinot Blanc (chamada também de Klevner ou Pinot Vrai) e muitas vezes plantada misturada com a Auxerrois Blanc;
- Muscat (Ottonel ou à Petits Grains Blanc, duas variedades distintas);
- Pinot Noir.

Há ainda outras uvas, como Auxerrois Blanc, porém de menor importância.

A esmagadora maioria dos vinhos na Alsácia é de brancos, embora haja rosés e tintos.

Em geral, os vinhos na Alsácia são monovarietais. No entanto, é possível haver cortes, como os vinhos rotulados como Gentil (deve conter ao menos 50% de Riesling, Gerwuztraminer, Muscat ou Pinot Gris, com cada variedade vinificada separadamente) ou Edelzwicker (corte de vinhos com qualquer das uvas autorizadas na Alsace). Tais vinhos se inserem na denominação AOC Alsace.

Os espumantes – Crémant d’Alsace - também podem ser cortes.

Há ainda os incríveis vinhos do “rebelde” Jean-Michel Deiss (Domaine Marcel Deiss) que colhe uvas diversas plantadas misturadas no vinhedo (field blend ou complantation) e as vinifica conjuntamente, mantendo menção apenas ao nome do vinhedo. Tais vinhos são defendidos como integrantes de uma futura categoria a ser criada nos moldes dos premiers crus da Borgonha (lieux-dits - crus d'alsace en cours de hiérarchisation).

Não podemos esquecer ainda de vinhos identificados no rótulo como Pinot d’Alsace, ou ainda como Klevner (esta um sinônimo para a Pinot Blanc). São vinhos produzidos com a Auxerrois Blanc, Pinot Blanc, Pinot Noir (elaborado como branco) e Pinot Gris. Podem ser monovarietais ou um corte de algumas dessas castas, não havendo regramento quanto a percentuais mínimos ou máximos.

Há ainda exceções entre os Grand Crus alsacianos, como Altenberg de Bergheim Kaefferkopf, ambos possuindo detalhamentos específicos, podendo ser monovarietais ou assemblages.

Os estilos dos vinhos alsacianos podem ser:

- “secos” tranquilos (brancos, rosés e tintos), com grande prevalência dos brancos; 
- espumantes rosés e brancos (Crémant d’Alsace), 
- doces ou de sobremesa:Vendanges Tardives Sélections de Grains Nobles. 

Os primeiros são vinhos de colheita tardia elaborados com Riesling, Muscat, Pinot Gris ou Gewrztraminer, podendo ou não ser afetados ou não pelo fungo Botrytis Cinerea (a chamada “podridão nobre”), que não é obrigatória. 

Por sua vez, os vinhos Sélections de Grains Nobles são também vinhos de colheita tardia elaborados com a Riesling, Muscat, Pinot Gris ou a Gewrztraminer, porém a “podridão nobre” é um requisito obrigatório, havendo um cuidado ainda maior, com seleção manual das uvas no vinhedo ainda. 

Uma questão atual reside no fato de nos últimos anos, até mesmo em virtude do aquecimento global, mais e mais vinhos da Alsácia estarem apresentando maiores graus de açúcar residual. Por conta do aumento das temperaturas médias, as uvas têm sido colhidas com maior teor alcóolico, e muitas vezes a fermentação termina antes mesmo de todo o açúcar ter sido convertido em álcool. 

Embora originalmente secos, hoje há vinhos nessa categoria com um maior grau elevado de açúcar residual, não havendo regramento formal para indicação na rotulagem, indicando-se os que fogem dos secos para os meio secos e meio doces. Alguns produtores, como o Domaines Schlumberger ou o Dopf au Mouloin, colocam indicações nos contra-rótulos de escalas de doçura em seus vinhos, não abrangendo os de sobremesa. Tais escalas, justamente por não estarem regulamentadas, variam de produtor para produtor. 

Na nossa próxima publicação abordaremos o sistema de classificação e hierarquização dos vinhos alsacianos e alguns temas correlatos.

Santé!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Desbravando as Denominações de Origem Italianas – Montecompatri Colonna D.O.C.

A Itália é um dos países com a maior riqueza enológica existente, produzindo vinhos em praticamente todas as suas regiões, do norte ao sul, passando por suas ilhas, Sardegna e a Sicilia. 

A variedade de uvas autóctones na Itália é imensa. O Ministério da Agricultura e Silvicultura italiano documenta centenas e centenas de cepas, entre nativas e estrangeiras. Jancis Robinson, Julia Harding e José Vouillamoz listam e analisam, em sua indispensável obra Wine Grapes – A Complete Guide to 1,368 Vine Varieties, Including Their Origins and Flavours, nada menos do que 377 variedades autóctones italianas! Tal fato já demonstra por si só a riqueza da viticultura italiana.

Na Itália há vinhos brancos, espumantes, frisantes, rosados, laranjas/âmbar, tintos, de sobremesa, nos mais variados estilos, alguns bem fora do usual como, por exemplo, vinhos elaborados com a técnica do appassimento (e.g. Amarone de Valpolicella; Sforzato di Valtellina). 

Existem, em toda Itália, aproximadamente 334 D.O.C. (Denominazione di Origine Controllata), 74 D.O.C.G. (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) e 118 I.G.T. (Indicazione Geografica Tipica).

Nesse ponto, vale uma breve observação sobre o novo sistema europeu de hierarquização de vinhos.

Desde 1de agosto de 2009, em decorrência de regras comunitárias europeias, a hierarquização dos sistemas de vinhos dos países europeus mudou, passando a adotar a seguinte forma (em suas variações nos diversos idiomas nacionais dos países europeus): 
A) vinhos de denominação de origem protegida;
B) vinhos com indicação geográfica protegida; 
C) vinhos genéricos com safra e uva indicados;
D) vinhos genéricos (sem qualquer informação de safra e uva).

No entanto, o regulamento comunitário europeu ressalvou a possibilidade dos países membros continuarem a utilizar as próprias menções tradicionais.

Dessa sorte, os vinhos com Denominazione di Origine Protetta passaram a abarcar os vinhos D.O.C. (Denominazione di Origine Controllata) e D.O.C.G. (Denominazione di Origine Controllata e Garantita); e os vinhos com Indicazione Geografica Protetta passaram a englobar os vinhos I.G.T. (Indicazione Geografica Tipica), restando autorizadas, como dissemos antes, as menções tradicionais nos rótulos alternativamente ao uso das novas nomenclaturas.

Por tudo isso, como se percebe, o patrimônio vitivinícola italiano é vasto e de uma riqueza imensa.

No entanto, até mesmo por algumas dessas denominações de vinhos apresentarem uma produção pequena ou não terem a fama de outras, encontrar seus vinhos fora da Itália pode ser difícil ou até mesmo impossível. Muitas vezes sequer já ouvimos falar dessas denominações.

Acabamos, dessa forma, nos limitando aos vinhos de denominações mais famosas e célebres, privando-nos de desbravar novas regiões italianas e provar novos vinhos. 

Por outro lado, até mesmo pelo gigantismo italiano, com centenas de denominações, com vinhos com uvas não tão conhecidas internacionalmente - ok, todo mundo já ouviu falar em Sangiovese Nebbiolo, mas poucos ouviram falar em GrilloGreco, Oseleta, Ribolla Gialla, dentre tantas outras -, muitas vezes o apreciador tem medo de escolher algo que fuja aos vinhos que conhece ou tem prévia referência. 

Em recente viagem à Itália reservei um “espaço” para desbravar novas regiões, degustando vinhos até então, para mim, inéditos; alguns de denominações que só conhecia dos livros, e outras, confesso, totalmente inéditas.

Em Roma, procurei provar alguns vinhos da região do Lazio e descobri a D.O.C. de Montecompatri Colonna.

Criada em 1973, Montecompatri Colonna D.O.C. ou apenas Montecompatri ou Colonna D.O.C. se situa na parte central da região do Lazio, na província de Roma.

Produz apenas vinhos brancos, que podem ser secos (secco), frisantes (frizzante), meio-secos (amabile) e até mesmo doces (dolce), com suas variantes (e.g. frizzante amabile), sempre com as devidas indicações nos rótulos. Há ainda um subcategoria Superiore exclusiva para os brancos secos, com aumento do nível mínimo de álcool de 11% para 12%. 

As uvas autorizadas são Malvasia Bianca di Candia; Malvasia del Lazio (esta também chamada de Malvasia Puntinataem no máximo 70% do corte; Trebbiano Toscano, Trebianno Verde Trebbiano Giallo (mínimo de 30%), e ainda, em menores quantidades as uvas Bellone Bombino Bianco (também chamada de Buonvino ou Bonvino), limitadas a 10% do assemblage.

Os dois principais produtores de Montecompatri Colonna são Tenuta Le Quinte Casale Mattia. 

Foi justamente do primeiro produtor, Tenuta Le Quinte, que degustamos o Virtù Romane, um assemblage de Malvasia Puntinata, Trebianno Verde, Trebbiano Giallo, Bonvino e Bellone. Um vinho de cor amarelo palha, com 14% de álcool, extremamente elegante no nariz com flores, pêssegos, um pouco de menta e noz moscada. Na boca, frutas maduras como pêssego e damasco, com final longo. Uma grata surpresa!

Salute!

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Grosses Gewächs – Ou Simplesmente GG

Não raro, sou indagado sobre dicas de vinhos, sobretudo o que comprar em determinados países, tarefa, confesso, das mais agradáveis. Nesse contexto, a Alemanha é um dos países mais desafiadores. 

A parte uma lista com vinhos e produtores específicos, sempre aconselho a procurar vinhos com a indicação no rótulo GG, os Grosses Gewächs. Uma dica básica, fácil de memorizar, e infalível. Mas afinal, was ist GG (o que é GG)?

A Alemanha se notabilizou por produzir vinhos extremamente elegantes com a uva branca Riesling, estando entre os melhores do mundo.
Embora a Riesling seja a grande estrela germânica, dos secos aos extremamente doces, a Alemanha produz, em suas diversas regiões, excelentes vinhos com outras cepas, como a branca Sylvaner (sobretudo em Franken ou Francônia em português) ou ainda a Pinot Noir, localmente chamada de Spätburgunder (na Áustria, Blauburgunder), com destaque para as regiões de Pfalz (Palatinado), Franken, Baden, dentre outras. 

No entanto, escolher um vinho alemão com segurança e conhecimento, pode ser uma tarefa complexa. E não me refiro apenas ao idioma em si. Mesmo quem é fluente no idioma de Goethe pode ter dificuldades em decorrência do complexo sistema alemão. 

Em muito apertada síntese, os vinhos alemães podem ser classificados em: 

1) Tafelweinvinho de mesa engarrafado na Alemanha com uvas de qualquer lugar do mundo (!?);

2) Deutscher Tafelwein: categoria equivalente ao Vin de Pays francês, e, em alguns locais determinados, com requisitos específicos;

3) Qualitätsweinvinhos de uma das 13 regiões específicas e oficiais, as chamadas Anbaugebeit

4) Prädikatsweinvinhos com atributos especiaisdas regiões oficiais, com classificação baseada no peso mínimo do mosto no momento da colheita (a chamada Öchsle Scale), podendo ser elaborados em diferentes níveis de doçura: Kabinett, Spätlese, Auslese – que podem até mesmo ser totalmente secos – Beerenauslese (pode ou não ter botrytis), Eiswien (não tem  botrytis) e Trockenbeerenauslese (sempre com botrytis).

Ao contrário do sistema francês, o sistema oficial alemão não classifica os vinhos pela qualidade, dificultando ainda mais a escolha do vinho.

No entanto, essa lacuna foi preenchida por um sistema paralelo (não governamental)  criado por uma associação privada de produtores de vinho, a Verband Deutscher Prädikatsweingüter. 

VDP foi criada em 1910 com os melhores produtores alemães. Seu objetivo inicial era promover práticas vitivinícolas sustentáveis, com vinhos sem “chaptalização (adição de açúcar durante a fermentação, com o objetivo de aumentar o teor final de álcool do vinho), permitida em algumas categorias de vinhos alemães.

Posteriormente ao ano de 1971, quando as regras do sistema alemão atual foram criadas, a VDP passou a adotar como escopo promover os grandes vinhos alemães com base em vinhedos de qualidade superior. 

A partir de 2002, com atualizações de tempos em tempos (e.g. 2006, 2012), a VDP passou a publicar uma classificação baseada na qualidade dos vinhedos, com clara influência do sistema da Borgonha (Grand Cru, Premier Cru, Village e regional). 

Note-se que os vilarejos alemães possuem grande importância na rotulagem dos vinhos, alguns considerados como muito superiores a outros (e.g. Piesport, Bernkastel Wehlen no Mosel; Schlossböckelheim no NaheJohannnisberg Rüdesheim no Rheingau etc...). Entretanto, a opção do VDP foi claramente seguir o sistema da Borgonha e não o sistema de Champagne (neste os Grand Crus e Premier Crus são baseados no vilarejo e não no vinhedo). 

A classificação doVDP é a seguinte (em ordem decrescente):

1aGrosses Gewächs: os vinhedos de mais alta qualidade (seriam o equivalente aos Grand Crus);

2aErste Gewächs: vinhedos de alta qualidade, porém, inferiores aos Grosses Gewächs (seriam o equivalente aos Premier Crus);

3aOrtsweine: seriam os Villages vins na classificação da Borgonha;

4aGutsweine: vinhos tradicionais da vinícola (aqui não há uma equivalência exata com os vinhos regionais da Borgonha).

Nos rótulos dos vinhos Grosses Gewächs consta apenas o nome do vinhedo, e não a tradicional combinação vilarejo vinhedo. Tais vinhos seguem também regras mais severas, como colheita manual, peso mínimo do mosto e parâmetros de rendimentos baixos dos vinhedos. 

Em geral, essa classificação aparece apenas em Qualitätsweine secos, e as uvas permitidas variam conforme a região.

E o mais importante – e aqui a minha dica básica para facilitar bem a vida do enófilo - nos rótulos das garrafas do vinhos Grosses Gewächs consta um GG com um logo formado por um cacho de uvas colocado na parte superior da garrafa. Fácil, não? 

Prost Zum Wohl!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Champagne Henriot Cuvée des Enchanteleurs 1998 – Para começar bem 2019

Em 2013 degustei, pela primeira vez, o raro Champagne Henriot Cuvée des Enchanteleurs 1998, de produção minúscula e elaborado apenas em anos excepcionais (relembre aqui), que muito me impressionou na época

Posteriormente, em 2014, tive a oportunidade de visitar a Maison Henriot em Reims. Dentre outros vinhos, foi-nos oferecido o Cuvée des Enchanteleurs 1998, até hoje um dos melhores Champagnes que provei. 

Na ocasião pensei em como aos dezesseis anos de idade esse vinho ainda se mostrava fresco, vivo, com frutas cítricas bem presentes.

Curioso em saber como estaria esse raro vinho daqui a alguns anos, adquiri então uma garrafa do Cuvée des Enchanteleurs 1998.

Como costumo fazer nas tardes de todo dia primeiro de janeiro, abri um vinho especial - quase sempre é um espumante ou um branco - para celebrar o novo ano. Desta vez o escolhido foi o Henriot Cuvée des Enchanteleurs 1998. Ao abri-lo, fui imediatamente remetido para uma fria e ensolarada manhã de março de 2014, quando da visita à Maison Henriot em Reims e ao tour de carro pelos vinhedos dos vilarejos de Champagne.
 
Champagne Cuvée des Enchanteleurs 1998 é um dos grandes vinhos da Maison Henriot, de minúscula produção, produzido apenas em anos excepcionais. 

Elaborado com 50% Chardonnay e 50% Pinot Noir, é um vinho elegante, produzido com uvas provenientes apenas de Grands Crus da região (Mailly Champagne, Verzy, Verzenay em Montagne de Reims; Mesnil-sur-Oger, Avize, Chouilly na Côte des Blancs).

O nome é uma homenagem aos trabalhadores das caves numa época em que a vinificação era feita apenas em barricas. Tais trabalhadores empilhavam as barricas em estruturas próprias chamadas de chantiers, referindo-se em francês a tal ato como enchantelaient. E ainda contavam com o privilégio de poder elaborar para si pequenas quantidades de cuvée com os melhores vinhos.
 
No auge dos seus vinte anos de idade, o Cuvée des Enchanteleurs 1998 se mostrava em seu apogeu, quiçá com mais uns cinco anos de vida à frente.

O vinho foi servido em um taça mais aberta comumente usada para degustar vinhos da Bourgogne, de forma a poder-se apreciar melhor os aromas, o que não é possível nas tradicionais flûtes.
 
No aspecto visual, o Cuvée des Enchanteleurs 1998 possuía um amarelo dourado, já indicando a idade e bem mais dourado que quando degustado em 2013 e 2014. Ainda apresentava perlage pequeno e delicado, com duração prolongada, o que me surpreendeu bastante (pela idade do vinho).
 
No nariz, o vinho apresentava aromas de pera, pêssego, brioche, pastelaria, compota de cítricos, maçã seca, damasco seco, cogumelo, noz moscada e frutos secos, mostrando-se extremamente complexo.

Na boca ainda era fresco, vivo, com algo de tostado e frutas secas, com final longo e extremamente persistente. 

Um vinho sublime, perfeito para iniciar mais um ano! Santé!

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Turley – O Mago da Zinfandel

Escrever sobre a Turley Wine Cellars e sobre seu fundador LarryTurley sem mencionar a Zinfandel é praticamente impossível. Larry Turley não é apenas um dos grandes entusiastas da Zinfandel. Ele simplesmente criou um estilo único de vinhos elaborados com a Zin, fazendo brilhar essa cepa de nome difícil com origem na Croácia.

Zinfandel é apontada como The All American grape por excelência, uma das grandes uvas da Califórnia, presente em vinhedos antigos sozinha ou em field blends com a Petite Sirah, com a Mataró (a Mourvèdre, como é conhecida na Califórnia), dentre outras. 

Testes de DNA comprovaram tratar-se da Primitivo italiana, ambas com origem na cepa croata Crljenak Kaštelanski (e não a Plavac Mali como alguns pensam). 

Os vinhos com a Zinfandel dividem opiniões, ou são amados ou esnobados por apreciadores. Os estilos vão desde os White Zinfandels, secos e meio secos de coloração rosada, até vinhos sobremaduros, com grande extração e álcool, lembrando vinhos do Porto embora sem qualquer adição de aguardente vínica (como muitos dos vinhos da Rosenblum Cellars). 

Em 1993, após vender sua parte na Frog’s Leap Winery, vinícola que havia fundado em 1981 com John WilliamsLarry Turley fundou a Turley Wine Cellars, buscando uma produção menor e focada em vinhos elaborados com a Zinfandel e a Petite Sirah, de vinhedos únicos e antigos, expressando os diferentes terroirs californianos.

Larry criou, então, um estilo totalmente diverso até então - e hoje adotado por muitos produtores, como Zichichi, Quivira e Seghesio -, com vinhos mais frutados e macios, com acidez mais destacada e bem secos, sem aquela sensação de doçura usual em muitos Zinfandels.

Incialmente tendo como enóloga sua irmã Helen Turley, com ela Larry Turley aprendeu a tratar a Zinfandel com extremo cuidado, como se fosse a Pinot Noir, diluindo ou separando manualmente as bagas verdes ou passificadas dos cachos, evitando, dessa forma, o amadurecimento irregular (não homogêneo) típico da Zinfandel

No entanto, Helen saiu em seguida da Turley Wine Cellars, sendo substituída por Ehren Jordan, que permaneceu por muitos anos como enólogo chefe.

Atualmente, a Turley Wine Cellars possui três instalações; a original em Napa Valley (a única que não possui tasting room), Karly em Amador County no norte da Califórnia, e Pesenti em Paso Robles. Tegan Passalacqua, que consolidou o estilo Turley após a saída de Ehren Jordan, é o enólogo responsável pelas duas primeiras e, desde 2002, Karl Wicka responde por Paso.

Hoje a Turley Wine Cellars conta com mais de 130 acres de vinhedos e produz anualmente mais de vinte Zins de diferentes vinhedos em toda a Califórnia como, por exemplo, Pesenti, Ueberroth Dusi (Paso Robles); Mead Ranch em Atlas Peak (Napa); Dragon Rattlesnake Ridge em Howell Mountain (Napa); Duarte (Contra Costa County); Zampatti (Sonoma County); Sadie Upton (Amador County); Dowtown (Lodi) etc... 

Produz ainda diversos vinhos Petite Sirah (leia mais sobre essa enigmática uva aqui), dentre outros tintos de pequena produção como o Tecolote Red Wine (um corte de Grenache e Carignan); o field blend Casa Nuestra; um Cinsault de Lodi (Bechthold Vineyard - Cinsault) etc. 

Quase todos os vinhedos são certificados como orgânicos, e os que não o são estão em vias de ser.

ATurley produz ainda dois brancos, um Estate Sauvignon Blanc (Napa) e o inusitado, porém delicioso, White Coat (um assemblage de Roussanne do vinhedo Rattlesnake Ridge de Howell Mountain com Grenache Blanc do Pesenti Vineyard em Paso, com um toque de Vermientino de Amador County, de Grenache Blanc e deVerdelho de Lodi). 

Faz poucos anos - por influência de Christina Turley, a filha mais velha (uma das quatro estrelas que simbolizam a vinícola) responsável pela parte administrativa - a Turley Wine Cellars começou a elaborar dois Cabernet Sauvignons, um de Napa (Turley Estate Cabernet Sauvignon) e outro de Sonoma Valley (Montecillo Vineyard). Já tive a oportunidade de provar duas safras, 2014 e 2015 do primeiro, e é simplesmente incrível, como os demais vinhos da Turley costumam ser (ao escrever este post degustei um Zinfandel Rattlesnake Ridge Howell Mountain 2014 que estava sublime). 

Os vinhos da Turley não são fáceis de encontrar, mesmo nos Estados Unidos, e quando o são, os preços costumam ser bem mais altos do que os retail prices originais. Tampouco é possível comprar online no site da vinícola. Conseguir uma vaga na mailing list pode levar facilmente mais de um ano.

No entanto, há uma excelente notícia. As filiais localizadas em Templeton (Paso Robles – a meio caminho de San Francisco e de Los Angeles) e Plymouth (Amador County) possuem tasting rooms abertos ao público sem necessidade de prévio agendamento. 

Em cada um deles, são oferecidos flights com os Zins produzidos na respectiva região e não raro com mais algum de outra região, e um flight  adicional com dois Petite Sirahs. Em algumas das ocasiões em que visitei o tasting room de Paso (relembre aqui nossa primeira visita a Pasotambém me foram oferecidas provas do White Coat e do Cab de Napa, enriquecendo ainda mais a experiência. 

Também é possível comprar nos tastings rooms quase todos os vinhos da Turley com preços bem mais em conta dos encontrados nas poucas lojas e sites que vendem vinhos da Turley. O difícil é escolher quais levar.

Assim, visitar a Turley em uma viagem pela Califórnia acaba se tornando um programa obrigatório!

Cheers!