sábado, 16 de setembro de 2017

Qupé e Au Bon Climat, Uma Experiência Inesquecível

A região de Santa Barbara na chamada Central Coast californiana abriga diversas AVAs (American Viticultural Areas) com microclimas e solos diversificados. É célebre não apenas por seus elegantes

vinhos Pinot Noir e Chardonnay, mas também por vinhos elaborados com as cepas do Rhône, em especial a Syrah. A região produz ainda belos vinhos com a Cabernet Sauvignon e com varietais italianos e espanhóis. Claro que um certo filme de 2004 que venerava a Pinot Noir também ajudou a alavancar a fama da região.

Embora a elaboração de vinhos na região tenha se iniciado antes, é na década de 1980 que ocorreu significativo desenvolvimento da indústria local do vinho, inclusive com o surgimento das primeiras AVAs (American Viticultural Areas) da região, respectivamente Santa Maria Valley e Santa Ynez Valley (1981 e 1983). As demais AVAs da região viriam apenas a partir da década de 2000 (Santa Rita Hills em 2001; Happy Canyon of Santa Barbara em 2009; Ballard Canyon em 2013; e mais recentemente Los Olivos District em 2015).

Na história do vinho em Santa Barbara destacam-se dois personagens que são verdadeiros mitos na região, Bob Lindquist (Qupé) e Jim Clendenen (Au Bon Climat).

Bob Lindquist e Jim Clendenen trabalharam na tradicional Zaca Mesa Winery antes de iniciarem seus próprios projetos, cada qual com seu próprio foco.

Em 1982 Bob Lindquist fundou sua vinícola, Qupé (uma antiga palavra dos índios Chumash para papoula). Os primeiros vinhos produzidos foram um Syrah, um Chardonnay e um rosé elaborado com Pinot Noir.

O grande foco da Qupé está na grande paixão de Bob Lindquist, a Syrah, e os demais varietais tintos e brancos do Rhône. Uma das raras exceções é seu Chardonnay, produzido inicialmente para ajudar a custear seu projeto, mas até hoje produzido por razões nostálgicas, segundo o  próprio Bob me confidenciou.

Bob Lindquist além de pioneiro na região de Santa Barbara é apontado como um dos primeiros Rhone Rangers da Califórnia, e um dos maiores defensores da Syrah e das demais cepas do Rhône nos Estados Unidos.

Juntamente com sua esposa, a enóloga Louisa, Bob possui a vinícola La verdad voltada para vinhos elaborados com uvas espanholas.

Em 2002 Bob e sua esposa Louisa compraram um rancho na vizinha AVA de Edna Valley e três anos depois iniciaram um vinhedo de 40 acres batizado de Sawyer Lindquist Vineyard, que segue práticas biodinâmicas e conta com vinhas de Pinot Noir, Marsanne, Syrah, Grenache, Tempranillo e Albariño.
 
Paralelamente,em 1982 Jim Clendenen fundou juntamente com Adam Tolmach sua vinícola, a Au Bon Climat, com foco principal em vinhos elaborados com a Pinot Noir e com a Chardonnay.

Posteriormente, em 1991, Jim Clendenen e Adam Tolmach perceberam que deveriam seguir caminhos diferentes, e Jim comprou a parte de Adam na Au Bon Climat. Adam, por sua vez, fundou o projeto The Ojai Vineyard, produzindo vinhos elaborados com Pinot Noir, Syrah, Grenache, dentre outros varietais.

Em 1998 Jim Clendenen adquiriu 100 acres de terras nas proximidades do histórico Bien Nacido Vineyards, plantando Pinot Noir, Chardonnay e Viognier. O vinhedo recebeu o nome de Le Bon Climat e recebeu selo orgânico em 2003.

Jim cultiva ainda a paixão por vinhos elaborados com cepas autóctones italianas, como a Sangiovese, produzindo alguns vinhos com outros rótulos como oVita Nova.

Embora com personalidades bem distintas, e com focos diversos em suas vinícolas, os amigos Bob Lindquist e Jim Clendenen possuem a mesma filosofia. Para eles, quaisquer vinhos, sejam os elaborados com varietais da Borgonha, sejam os feitos com cepas do Rhône ou qualquer outro, devem ser equilibrados, com acidez firme e taninos que permitam sua longa guarda. Ademais, devem os vinhos sempre expressar seu lugar de origem, o caráter do vinhedo e da região, e preferencialmente devem ser degustados com boa comida, como tive a oportunidade de fazer.

Bob Lindquist e Jim Clendenen, que juntamente com Adam Tolmach, foram os grandes responsáveis pela fama do vinhedo Bien Nacido já que foram dos primeiros clientes da família Miller, mantém preferência para escolher as parcelas do Bien Nacido de onde provêm as uvas para seus vinhos. 

Ademais, justamente por essa relação, em 1989 Bob Lindquist e Jim Clendenen construíram suas instalações em comum no meio do Bien Nacido Vineyards, em Santa Maria Valley.
 
Lembrando a história desses dois pioneiros enquanto admirava a paisagem, dirigia, em uma fria e ensolarada manhã de fevereiro desse ano, numa estrada vicinal a caminho do  encontro com Bob Lindquist e Jim Clendenen.

Logo entrando no histórico Bien NacidoVineyards, após uns cinco minutos lá estava diante de mim a instalação que abrigava a sede comum da Qupé e da Au Bon Climat.

Fui recebido por Katie O'Hara (responsável pelo marketing de ambas as vinícolas), Bob Lindquist e por Jim Clendenen, que me apresentaram à sua equipe, e também para um outro convidado para o almoço, o antigo sócio de Jim, Adam Tolmach (The Ojai Vineyard).

Primeiramente, degustamos três amostras de Chardonnay da safra 2016 que haviam acabado de ser retiradas de barricas e colocadas em três pequenas garrafinhas. Todas com uvas do Bien Nacido Vineyards, porém de blocks distintos. A intenção era mostrar a diferença entre as amostras ainda jovens, para posterior comparação com vinhos mais antigos e já prontos.

Em seguida, com uma taça em uma mão, e um copo para descarte do vinho na outra, passamos então para a adega com as barricas. Lá degustamos cerca de 20 vinhos distintos, entre as safras 2014 e 2016, de varietais diversos, e vinhedos diferentes, ou até do mesmo vinhedo porém de parcelas distintas.

Alguns destaques dentre diversos vinhos degustados diretamente das barricas foram: Le Bon Climat Viognier Second Coming Le Bon Climar Vineyard Santa Maria Valley 2015; Le Bon Climat Aligoté Santa Maria Valley 2016; Qupé Roussanne Bien Nacido Vineyards Santa Maria Valley 2015; La Verdad Albariño Sawyer Lindquist Vineyard Edna Valley 2016; Qupé Marsanne Bien Nacido Vineyards Santa Maria Valley 2016, Au Bon Climat Pinot Noir Sanford & Benedict Vineyard Santa Ynez Valley 2015; Au Bon Climat Runway Santa Maria Valley 2016; Au Bon Climat Pinot Noir Le Bon Climat Vineyard Santa Maria Valley 2016; Au Bon Climat Pinot Noir Bien Nacido Vineyards Block 2 Mt. Eden Santa Maria Valley 2016; Barham Mendelsohn Pinot Noir Russian River Valley 2016; Au Bon Climat Pinot Noir Talley Vineyard-Rincon Arroyo Grande 2016; Qupé Syrah Sawyer Lindquist Vineyard Block 2 Estrella Edna Valley 2016.
  
Na sequencia, juntamente com toda a equipe da Qupé e da Au Bon Climat, passamos a uma grande e comprida mesa de carvalho para o almoço com autêntica comfort food com acento francês preparada pelo próprio Jim Clendenen (ele me contou que tomou gosto por cozinhar quando morou na França em sua juventude).

Escoltados por excelente comida e histórias incríveis, degustamos os seguintes vinhos:
   
- Qupé Marsanne 2015 Edna Valley Sawyer Lindquist Vineyard;

- Qupé Roussane 2014 Santa Maria Valley Bien Nacido Vineyards;

- The Ojai Vineyard Viognier 2004 Santa Maria Valley Bien Nacido Vineyards;

- Au Bon Climat Chardonnay 2012 Santa Maria Valley Bien Nacido Vineyards;

- Au Bon Climat Chardonnay Reserve 1988 Santa Maria Valley Rancho Vinedo Vineyard;

- Qupé Roussane 2004 Santa Maria Valley Bien Nacido Vineyards;

- Au Bon Climat Chardonnay Reserve 1986 Santa Barba County Los Alamos Vineyard;

- The Ojai Vineyard Grenache 2003 Santa Barbara County Purisima Moutain Vineyard (Magnum);

- Au Bon Climat Pinot Noir “Larmes de Grappe” 2005 Santa Rita Hills, Sanford & Benedict Vineyard;

- Au Bon Climat Pinot Noir 2013 Santa Maria Valley Bien Nacido Vineyards;

- Au Bon Climat Pinot Noir “Dick and Marg Denny Block” 2011 Santa Maria Valley Au Bon Climat Vineyard;

- Au Bon Climat Pinot Noir 2014 Santa Maria Valley Runway Vineyard;

- The Ojai Vineyard Syrah 2000 Santa Rita Hills Melville Vineyard;

- Au Bon Climat Pinot Noir 2014 Russian River Valley Lala Panzi Vineyard;

- Au Bon Climat Pinot Noir “Isabelle” 2013, Santa Maria Valley;


- Qupé Syrah 2011 Santa Maria Valley Bien Nacido Vineyards;

- Qupé Syrah Sonnie’s 2011 Edna Valley Sawyer Lindquist Vineyard.

Tenho dificuldade em apontar os vinhos que gostei mais nessa degustação.

Dentre os brancos o Marsanne e o Roussane da Qupé se mostraram excelentes, sendo que o Qupé Roussane 2004 me impressionou muito pela frescura após mais de uma década.

Os dois Chardonnays antigos da Au Bon Climat (1986 e 1988) foram os mais complexos, e se mostraram no seu apogeu e ainda com tempo de guarda pela frente.

Já entre os tintos, meus preferidos foram, dentre os Pinots, o Isabelle e o “Larmes de Grappe”, que demonstraram o potencial de guarda dos vinhos da Au Bon Climat. Ambos os Syrahs da Qupé me encantaram também, sobretudo pela elegância.

A boa notícia é que a Au Bon Climat mantém um tasting room na cidade de Santa Barabara, e a Qupé finalmente abriu seu novo tasting room na charmosa cidade de Los Olivos, pertinho de Solvang.

Ah, e eu mencionei que os preços dos vinhos da Qupé e da Au Bon Climat são de excelente custo-benefício? Ou como preferem os americanos um steal.

Uma inesquecível experiência! Cheers!  


domingo, 6 de agosto de 2017

A Dupla Poda e o Nascimento de novos Terroirs no Brasil

Nas últimas semanas, selecionando rótulos para a degustação que então organizava, experimentei diversos vinhos elaborados no sul de Minas Gerais – das vinícolas Casa Geraldo, Luiz Porto, Maria Maria e Villa Mosconi). Confesso ter ficado gratamente surpreso com a sua alta qualidade . 

Apenas para ilustrar, o Maria Maria Syrah 2015 e o Luiz Porto Brut Colheita de Inverno ficaram, respectivamente, em primeiro lugar nas categorias Vinho Tinto e Espumante do Top 10 da Vini Bra Expo 2017, evento de vinhos ocorrido no último fim de semana no Rio de Janeiro.

Um dos pontos em comum entre a esmagadora maioria dos vinhos mineiros degustados é o fato de serem elaborados  por meio da técnica conhecida como "dupla poda" em que altera-se o ciclo natural das videiras, técnica também utilizada pela premiada vinícola paulista Guaspari.

Mas afinal, o que vem a ser a técnica da “dupla poda”? Como ela afeta a qualidade do vinho?

O vinho é um produto da interação do homem com a natureza. Se deixarmos a videira livre para crescer, ela não utilizará seus recursos para amadurecer as uvas para elaboração de vinhos, ela simplesmente crescerá. Por conta disso, esse vigor da videira precisa ser controlado pelo viticultor. Para tanto, o produtor conta com algumas técnicas como embardamento (estrutura de postes e arames utilizadas nos vinhedos), poda e limitação da densidade de plantação das vinhas. Depois, por meio de outras técnicas, terá que controlar a qualidade e a maturação em potencial das uvas.

A poda, segundo  Karen MacNeil (autora do livro The Wine Bible) é “o processo exaustivo de cortar as videiras enquanto adormecidas durante o inverno (...) O que o podador deixa ficar torna-se a base da colheita do ano seguinte. Se ele podar com muito rigor, pode comprometer a capacidade frutífera e a força das parreiras. Ao contrário, se podar muito pouco, as videiras produzirão tantos galhos, folhas e frutos que ficarão desequilibrados”. Assim, a poda tem por objetivo a retirada de folhas, bem como de varas e madeiras velhas que não têm mais utilidade.

Há dois tipos de poda, a chamada “poda de inverno” e “poda de verão”.

O escopo da primeira é determinar o número e a localização dos gomos, que, por sua vez, irão originar os ramos tenros (hastes da videira, pampres em inglês e em francês) que produzirão as uvas na colheita seguinte.

Já as chamadas podas de verão, também denominadas de “podas verdes”, objetivam restringir o crescimento vegetativo de forma a direcionar a produção de açúcar pela videira para as uvas e não para as folhas ou hastes. Buscam podem se prestar também a remover os cachos em excesso como forma de limitar a produção. As podas verdes podem se limitar apenas à retirada de folhas de forma a proporcionar maior exposição solar aos cachos da videira.

A chamada “dupla poda”, na verdade, se refere à “poda de inverno” e foi criada há mais de dez anos pelo pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) Murillo de Albuquerque Regina.

Trata-se de técnica que inverte o ciclo natural da videira por meio de um manejo diferenciado das podas. Com isso, a videira passa a frutificar no inverno, evitando-se as altas temperaturas do verão (dia e noite), bem como as chuvas e alta umidade típicas dessa estação.

São feitas duas podas (“podas de inverno"), uma por volta de agosto e uma em dezembro/janeiro.

No inverno, em certas regiões, em especial no sul de Minas Gerais e em alguns pontos do Estado de São Paulo, há frio à noite, e insolação durante o dia, com baixa precipitação e com boa amplitude térmica, condições favoráveis à vinha.  

Na “dupla poda”, a primeira poda tem por objetivo a formação de ramos produtivos, e a segunda é a poda efetiva de frutificação. A videira, então, começa a brotar em fevereiro, floresce em março e os cachos começam a se formar em abril, ocorrendo a colheita a partir do final de junho e ao longo de julho (a depender do tipo de uva).
 
Observe-se que a chamada “colheita de inverno” não ocorre nos mesmos meses das colheitas das regiões do Hemisfério Norte (estas começam no final de agosto e se estendem até início de outubro, dependendo da variedade de uva).

Essa técnica, no entanto, não é recomendada para regiões no sul do país, com invernos rigorosos.

Nem tampouco é útil em regiões extremamente quentes, como o Vale do Rio São Francisco, em que mesmo no inverno não ocorre a amplitude térmica.

As “colheitas de inverno” apontam para um novo rumo da viticultura brasileira, permitindo que novos terroirs brasileiros possam surgir, aumentando a gama de excelentes vinhos nacionais.

Saúde!

domingo, 2 de julho de 2017

Um Syrah do Marrocos

Faz alguns dias degustei um vinho de origem inusitada, o Tandem 2011, um vinho 100% Syrah, com uvas provenientes de vinhedos orgânicos localizados na região de Zenata, cerca de 90 kms de Casablanca, no Marrocos.

Um Syrah elegante com frutas maduras, um certo frescor (embora distinto dos chamados Syrahs de climas frios, como alguns chilenos do Valle de Casablanca, ou alguns californianos como os de Santa Maria Valley), e um leve toque de especiarias como pimentas. E pelo preço na importadora me pareceu de excelente custo-benefício, além de valer pela oportunidade de degustar um vinho do Marrocos.


Trata-se de um projeto em conjunto da vinícola marroquina Domaine des Ouled Thaleb e do produtor francês Alain Graillot, considerado um dos grandes enólogos de Crozes-Hermitage e especialista em vinhos elaborados com a casta Syrah.

A parceria nasceu do encontro de Alain Graillot com os proprietários do Domaine des Ouled Thaleb em uma viagem para a prática de ciclismo no início dos anos 2000.

O Domaine des Ouled Thaleb é a vinícola mais antiga do Marrocos fundada em 1923 e responsável pela modernização da indústria vitivinícola do país a partir dos anos 1990.

O que pode causar uma certa surpresa ao leitor é um país com quase 100% da população muçulmana, uma religião que proíbe o consumo de álcool, e com grandes desertos produzir vinhos.

Na verdade, o Marrocos já produzia vinhos antes mesmo da era do Império Romano. O cultivo das vinhas, no entanto, se perdeu por volta do século VII por conta da proibição religiosa de consumo de álcool, retornando apenas com a colonização francesa no final do século XIX. Porém, é apenas na década de 1990 que a indústria marroquina volta a se expandir, com incentivos do próprio Rei Hassan II.

Atualmente, o Marrocos produz cerca de 40 milhões de garrafas de vinhos por ano. Desse total, apenas 5%, no entanto, é exportado.

Com nítida inspiração francesa, existem sete regiões produtoras subdivididas em 14 Appellations d'Origine Garantie (AOGs) e 1 Appelation d'Origine Contrôlée (AOC).

Seis das sete regiões vitivinícolas marroquinas se localizam nas proximidades das cidades de Meknes, Rabat e Casablanca, na costa atlântica ou nas montanhas próximas da costa, ao sudoeste da Espanha e de Gibraltar. Já a sétima região fica ao leste na fronteira com a Argélia e próxima ao mar Mediterrâneo.

Eis as regiões e as respectivas denominações de origem marrquinas:

Leste marroquino:
Beni Sadden AOG
Berkane AOG
Angad AOG
 
Região de Meknès e Fès:
Guerrouane AOG
Beni M'tir AOG
Saiss AOG
Zerhoune AOG
Coteaux de l’Atlas AOC

Região norte:
Gharb AOG

Região de Rabat e Casablanca:
Chellah AOG
Zemmour AOG
Zaër AOG
Zenatta AOG
Sahel AOG

Região de El-Jadida:
Doukkala AOG

Embora grande parte do país possua um clima desértico, as regiões produtoras de vinhos ficam aos pés de montanhas nas proximidades da costa atlântica ou mediterrânea. Dessa forma, a altitude e a influência marítima contribuem para preservar a acidez das uvas contribuindo para a elaboração de vinhos equilibrados. Some-se a isso uma boa inversão climática diurna e noturna e solos pobres com rochas e pedras, e lá estão condições propícias ao cultivo de vinhas e à elaboração de vinhos.

As principais cepas no Marrocos são: Syrah, Grenache, Carignan, Cabernet Sauvignon e Merlot para os tintos; e para os brancos Chenin Blanc, Sauvignon Blanc, Sémillon e Chardonnay

 A presença francesa (leia aqui e aqui sobre a influência francesa no Novo Mundo) é notada não apenas pelo projeto de Alain Graillot com o Domaine des Ouled Thaleb, mas também pela presença de enólogos franceses e até mesmo pela propriedade de vinícolas marroquinas por grupos franceses, como o Domaine Excelcio  e Kahina de propriedade de Bernard Magrez (Château Pape Clément, Graves, Bordeaux; Château La Tour Carnet, Haut-Médoc, Bordeaux etc). A exceção à influência francesa é o Les Celliers de Meknès, projeto de Albert Costa da vinícola espanhola (Priorato) Vall Llach.

E você, leitor, já degustou um vinho marroquino?

Santé! 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Château Cheval Blanc – Conhecendo um mito

Château Cheval Blanc. Um dos mais lendários vinhos do mundo, ocupando o ápice da classificação de vinhos de Saint-Émillion desde sua criação em 1955 (Premier Grand Cru Classé A). A mera menção de seu nome já é o suficiente para gerar expectativa em qualquer enófilo. Degustar uma de suas safras é sempre uma experiência singular. Visitar a propriedade, então, é uma daquelas experiências únicas e inesquecíveis.

Foi esse sentimento que tomou conta de mim em uma tarde fria e ensolarada de novembro ao me aproximar dos portões do Château Cheval Blanc. Já havia tido o privilégio de degustar algumas poucas e inesquecíveis safras do Château Cheval Blanc, e que me vinham à mente conforme ultrapassava os portões da propriedade.

A história do Château Cheval Blanc remonta ao ano de 1832. Nesse ano, a família Ducasse adquiriu parte da atual propriedade do Château Figeac, que pertencia à Condessa Felicité de Carle-Trajet. Até então essa parte da propriedade era chamada de Le Barrail de Cailloux.

Naquela época o Château Figeac possuía 200 hectares e a Condessa decidiu vender partes da propriedade, contribuindo para a criação de diversas vinícolas. Isso explica a razão de diversas propriedades manterem o nome Figeac (e.g. Château La Tour Figeac, Château La Tour du Pin Figeac, Château Yon Figeac).

Posteriormente, em 1838, a família Ducasse adquiriu mais parcelas do Château Figeac, o que é hoje a maior parte da propriedade.

Em 1852 Mille Ducasse casou-se com Jean Laussac-Fourcaud, e o dote de Mille Ducasse incluía os vinhedos Château Cheval Blanc.
A família Laussac-Fourcaud construiu o château, sendo esse edifício até hoje utilizado. E continuou, nos anos seguintes, a adquirir vinhedos contíguos, aumentando o tamanho do da propriedade. Em 1871, o Château Cheval Blanc possuía um total de 39 hectares de vinhedos em Saint-Émilion, permanecendo com esse tamanho até hoje.

Nos primeiros anos, os vinhos do Château Cheval Blanc eram vendidos como Château Figeac. No entanto, à medida em que recebiam prêmios, o vinho passou a ostentar um rótulo com o nome Château Cheval Blanc, fazendo jus às medalhas que recebia.

Na primeira metade do século XX, o Château Cheval Blanc produziu vinhos de altíssima qualidade, aumentando sua reputação, inclusive o mítico Château Cheval Blanc 1947, que muitos apontam como um dos melhores vinhos já elaborados.

Em 1998, o Château Cheval Blanc foi comprado por Bernard Arnault e pelo Barão Albert Frère, passando a propriedade a ser gerida por Pierre Lurton.

Posteriormente, em 2009, o grupo LVHM adquiriu a parte de Bernard Arnault na propriedade.

Em 2011, com projeto do célebre arquiteto e ganhador do Pritzker Architecture Prize Christian de Portzamparc, o Château Cheval Blanc encerrou uma ampla e completa reforma. A reforma incluiu um moderno edifício com nova adega, sala de vinificação com novos tanques, nova área de degustação e novo projeto de paisagismo dos jardins.

Embora o novo edifício possua linhas arquitetônicas modernas e arrojadas, há harmonia com paisagem do local, inclusive com o antigo Château, não ofuscando este, nem se destacando em demasia, talvez até mesmo por estar um pouco abaixo de uma colina. Dali temos belas vistas da paisagem não apenas de Saint-Émillion, mas também da vizinha Pomerol.

Nas novas instalações foram construídos os novos tanques de concreto, projetados especialmente para o Château Cheval Blanc a partir das orientações técnicas da equipe de Pierre Lurton. Os vinhos de cada variedade e da cada parcela dos vinhedos são vinificados separadamente em seus respectivos tanques de concreto, que variam de tamanho.

Iniciamos nossa visita pelos vinhedos, e ali aprendemos muito sobre o privilegiado e único terroir do Château Cheval Blanc.

A propriedade, como dito, possui 39 hectares de vinhedos plantados, com três tipos diferentes de solos. Embora os vinhedos sejam contíguos, não há uma uniformidade de solo, justamente o que aporta mais complexidades aos vinhos. 40% dos vinhedos possuem solos profundos com cascalho e uma multiplicidade de tipos de argila, incluindo a famosa argila azul - que dizem ser um dos segredos desse notório vinho. 20% consistem em argila arenosa com depósitos de ferro. Já os 40% restantes possuem solos profundos com cascalho. Importante destacar ainda dois pontos: a existências de cinco colinas de cascalho na propriedade com cerca de 38 metros de altura, bem como a proximidade da propriedade com a divisa com a AOC (Appellation d’Origine Contrôlée) vizinha de Pomerol, o que leva alguns especialista a dizer que o Cheval Blanc reflete um pouco do estilo da apelação vizinha (não obstante o predomínio quase total da Merlot nos vinhos desta última).
Os vinhedos do Château Cheval Blanc são divididos em 45 seções, cada um tratado como se fosse um vinhedo próprio em virtude das diferenças de solo, de idade das vinhas, da variedade, dentre outros fatores. Os vinhedos são compostos de 49% Cabernet Franc, 47% Merlot, 4% Cabernet Sauvignon. Já se chegou a ter 1% de Malbec, que, no entanto, não chegou a ser utilizado.

O assemblage do Grand Vin varia safra a safra, atendendo a especificidades destas, sendo certo que nas últimas safras há uma tendência de predomínio da Cabernet Franc

As vinhas da propriedade tem uma média de 45 anos de idade, embora haja vinhas mais antigas, cerca de 8 hectares de vinhas de Cabernet Franc plantadas na década de 1950 e algumas parcelas plantadas na década de 1920.

A equipe do Château Cheval Blanc, no entanto, utiliza as vinhas mais antigas para seleção de clones, um programa que começou em 1996 buscando manter a identidade dos vinhedos. 

Algo que realmente me surpreendeu foi a informação de que a equipe do Château Cheval Blanc não espera, durante a colheita, até que todas as frutas das vinhas de cada parcela alcancem um grau de madurez fenólica total, colhem-nas antes. O assemblage das diferentes uvas de parcelas distintas adiciona complexidade, frescor e aquele tom aveludado e profundo aos vinhos.
Continuando, visitamos as instalações da vinícola, conhecendo a sala das barricas e a sala dos novos tanques de cimento. 

Aprendemos que a vinificação dos vinhos do Château Cheval Blanc ocorre, como já mencionado antes, em 52 tanques de cimento, com tamanhos variados, onde a fermentação malolática ocorre. Posteriormente, é feito o assemblage, e os vinhos são envelhecidos em barricas novas de carvalho francês durante 18 meses.

Importante lembrar que o Château Cheval Blanc produz, desde a safra 1988, um segundo vinho, Le Petit Cheval, que é envelhecido em 50% de barricas novas de carvalho francês, correspondendo a metade da produção do Grand VIn. No entanto, em 1991, uma safra sofrível, apenas o Le Petit Cheval foi produzido. Já em 2015, pela primeira vez, apenas o Château Cheval Blanc foi produzido por conta da alta qualidade da safra (apenas uma parcela ínfima foi desclassificada). 

Também a partir da safra 2015, o Château Cheval Blanc, após quase uma década de experimentos, passou a produzir um vinho branco: Le Petit Cheval - Bordeaux Blanc

Trata-se de um Bordeaux Blanc produzido, incialmente, somente com a uva Sauvignon Blanc (há planos do uso de 20% de Sémillion a partir de 2018). As uvas são provenientes de um vinhedo defronte ao Château Cheval Blanc, do outro lado da estrada, e anteriormente pertencentes ao Château La Tour du Pin adquiridos faz alguns anos pela vinícola. 

Por conta das regras da AOC (Appellation d’Origine Contrôlée) Saint-Émillion não permitirem o uso de cepas brancas, o referido vinho é classificado com um Bordeaux branco genérico. Na verdade, a elaboração de vinhos brancos pelos grandes Châteaux de Bordeaux, em especial no Médoc, é um tendência relativamente recente e que, pelo visto, veio para ficar (note-se que não estamos nos referindo aos vinhos brancos secos de Graves, Pessac-Léognan ou Sauternes). 

Finalizando nossa visita, degustamos um Château Cheval Blanc 2011. Uma safra ofuscada pelas duas incríveis safras anteriores, porém mesmo assim uma safra clássica, com tempo seco (mas não excessivo) durante a época do amadurecimento, refletindo a filosofia da vinícola. Elaborado com 52% de Cabernet Franc, 47% de Merlot e 1% de Cabernet Sauvignon, apresentava um rubi profundo, opulento, com o aveludado, quase seda, característico desse vinho, com uma bela camada de frutas vermelhas e negras, demonstrando grande potencial de guarda. O retrogosto parecia interminável. Um vinho inesquecível!

Santé!