segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Turley – O Mago da Zinfandel

Escrever sobre a Turley Wine Cellars e sobre seu fundador LarryTurley sem mencionar a Zinfandel é praticamente impossível. Larry Turley não é apenas um dos grandes entusiastas da Zinfandel. Ele simplesmente criou um estilo único de vinhos elaborados com a Zin, fazendo brilhar essa cepa de nome difícil com origem na Croácia.

Zinfandel é apontada como The All American grape por excelência, uma das grandes uvas da Califórnia, presente em vinhedos antigos sozinha ou em field blends com a Petite Sirah, com a Mataró (a Mourvèdre, como é conhecida na Califórnia), dentre outras. 

Testes de DNA comprovaram tratar-se da Primitivo italiana, ambas com origem na cepa croata Crljenak Kaštelanski (e não a Plavac Mali como alguns pensam). 

Os vinhos com a Zinfandel dividem opiniões, ou são amados ou esnobados por apreciadores. Os estilos vão desde os White Zinfandels, secos e meio secos de coloração rosada, até vinhos sobremaduros, com grande extração e álcool, lembrando vinhos do Porto embora sem qualquer adição de aguardente vínica (como muitos dos vinhos da Rosenblum Cellars). 

Em 1993, após vender sua parte na Frog’s Leap Winery, vinícola que havia fundado em 1981 com John WilliamsLarry Turley fundou a Turley Wine Cellars, buscando uma produção menor e focada em vinhos elaborados com a Zinfandel e a Petite Sirah, de vinhedos únicos e antigos, expressando os diferentes terroirs californianos.

Larry criou, então, um estilo totalmente diverso até então - e hoje adotado por muitos produtores, como Zichichi, Quivira e Seghesio -, com vinhos mais frutados e macios, com acidez mais destacada e bem secos, sem aquela sensação de doçura usual em muitos Zinfandels.

Incialmente tendo como enóloga sua irmã Helen Turley, com ela Larry Turley aprendeu a tratar a Zinfandel com extremo cuidado, como se fosse a Pinot Noir, diluindo ou separando manualmente as bagas verdes ou passificadas dos cachos, evitando, dessa forma, o amadurecimento irregular (não homogêneo) típico da Zinfandel

No entanto, Helen saiu em seguida da Turley Wine Cellars, sendo substituída por Ehren Jordan, que permaneceu por muitos anos como enólogo chefe.

Atualmente, a Turley Wine Cellars possui três instalações; a original em Napa Valley (a única que não possui tasting room), Karly em Amador County no norte da Califórnia, e Pesenti em Paso Robles. Tegan Passalacqua, que consolidou o estilo Turley após a saída de Ehren Jordan, é o enólogo responsável pelas duas primeiras e, desde 2002, Karl Wicka responde por Paso.

Hoje a Turley Wine Cellars conta com mais de 130 acres de vinhedos e produz anualmente mais de vinte Zins de diferentes vinhedos em toda a Califórnia como, por exemplo, Pesenti, Ueberroth Dusi (Paso Robles); Mead Ranch em Atlas Peak (Napa); Dragon Rattlesnake Ridge em Howell Mountain (Napa); Duarte (Contra Costa County); Zampatti (Sonoma County); Sadie Upton (Amador County); Dowtown (Lodi) etc... 

Produz ainda diversos vinhos Petite Sirah (leia mais sobre essa enigmática uva aqui), dentre outros tintos de pequena produção como o Tecolote Red Wine (um corte de Grenache e Carignan); o field blend Casa Nuestra; um Cinsault de Lodi (Bechthold Vineyard - Cinsault) etc. 

Quase todos os vinhedos são certificados como orgânicos, e os que não o são estão em vias de ser.

ATurley produz ainda dois brancos, um Estate Sauvignon Blanc (Napa) e o inusitado, porém delicioso, White Coat (um assemblage de Roussanne do vinhedo Rattlesnake Ridge de Howell Mountain com Grenache Blanc do Pesenti Vineyard em Paso, com um toque de Vermientino de Amador County, de Grenache Blanc e deVerdelho de Lodi). 

Faz poucos anos - por influência de Christina Turley, a filha mais velha (uma das quatro estrelas que simbolizam a vinícola) responsável pela parte administrativa - a Turley Wine Cellars começou a elaborar dois Cabernet Sauvignons, um de Napa (Turley Estate Cabernet Sauvignon) e outro de Sonoma Valley (Montecillo Vineyard). Já tive a oportunidade de provar duas safras, 2014 e 2015 do primeiro, e é simplesmente incrível, como os demais vinhos da Turley costumam ser (ao escrever este post degustei um Zinfandel Rattlesnake Ridge Howell Mountain 2014 que estava sublime). 

Os vinhos da Turley não são fáceis de encontrar, mesmo nos Estados Unidos, e quando o são, os preços costumam ser bem mais altos do que os retail prices originais. Tampouco é possível comprar online no site da vinícola. Conseguir uma vaga na mailing list pode levar facilmente mais de um ano.

No entanto, há uma excelente notícia. As filiais localizadas em Templeton (Paso Robles – a meio caminho de San Francisco e de Los Angeles) e Plymouth (Amador County) possuem tasting rooms abertos ao público sem necessidade de prévio agendamento. 

Em cada um deles, são oferecidos flights com os Zins produzidos na respectiva região e não raro com mais algum de outra região, e um flight  adicional com dois Petite Sirahs. Em algumas das ocasiões em que visitei o tasting room de Paso (relembre aqui nossa primeira visita a Pasotambém me foram oferecidas provas do White Coat e do Cab de Napa, enriquecendo ainda mais a experiência. 

Também é possível comprar nos tastings rooms quase todos os vinhos da Turley com preços bem mais em conta dos encontrados nas poucas lojas e sites que vendem vinhos da Turley. O difícil é escolher quais levar.

Assim, visitar a Turley em uma viagem pela Califórnia acaba se tornando um programa obrigatório!

Cheers!

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Domaine Weinbach, um Tesouro da Alsácia

A Alsácia possui centenas de produtores, de cooperativas a domaines familiares, estando a esmagadora maioria aberta à visitação. São inúmeras as cidadezinhas e vilas charmosas, rodeadas por vinhedos para descobrir e explorar. Trata-se de uma região com grande vocação para o enoturismo.

Escolher as vinícolas a serem visitadas, por conseguinte, não é uma tarefa simples, porém muito prazerosa.

Dentre as centenas de vinícolas que tive o prazer de visitar, foi a Domaine Weinbach que fez-me sentir como se estivesse na casa de velhos amigos. Aliada à calorosa recepção da Famille Faller, os incríveis vinhos do Domaine Weinbach tornam a visita a esta vinícola uma parada obrigatória na jornada de qualquer enófilo pela Alsace.

A origem do Domaine Weinbach remonta ao longínquo ano de 1612, quando frades capuchinhos fundaram a vinícola no local hoje conhecido como Clos des Capucins. Exatamente onde fica a sede do domaine e um dos terroirs explorados. Importante notar que desde o século IX já havia vinhas plantadas no local.

Durante a revolução francesa as terras do domaine foram confiscadas e vendidas como propriedade nacional, até que em 1898, o Domaine Weinbach foi comprado pelos irmãos Faller, e posteriormente herdado pelo filho e sobrinho Théo Faller

A partir de 1979 o domaine passou a ser administrador por sua esposa Colette e por suas filhas, Catherine Laurence.

Desde 2016, Catherine administra a vinícola com a ajuda de seus filhos Eddy Théo Faller, sendo este o atual enólogo.

Domaine Weinbach se localiza na chamada Route du Vin da Alsácia, nas proximidades da charmosa Kaysersberg, próximo aos sopés das colinas onde se situa o célebre Grand Cru Schlossberg. 
 
Em 1998 o Domaine Weinbach abraçou a biodinâmica em parte de seus vinhedos, e desde 2005 a totalidade de suas terras passou a ser cultivada usando a  chamada viticultura biodinâmica. Hoje toda a sua produção é certificada como orgânica (certificação Ecocert) e como biodinâmica (certificação Demeter). A filosofia da Família Faller reside na busca por vinhos mais puros e autênticos, que expressem os seus diversos terroirs.

Clos des Capucins é um monopólio que rodeia a sede da vinícola com solo arenoso e lodoso e base de dois vinhos principais da vinícola, os Cuvées Théo Gewurtztraminer Riesling.

O Lieu-dit Altenbourg se localiza em Kientzheim, e fica entre 220 e 300 metros de altitude logo abaixo do Grand Cru Furstentum, com solos de marga (calcário com cerca de 35 a 60% de argila), calcário e arenito, muito similar ao de Furstentum, porém com mais areia.

Aqui vale abrir um parêntese sobre o sistema de Appellations d'Origine Contrôlée (AOC) na Alsácia para vinhos tranquilos. As AOCS se dividem apenas em Alsace AOCAlsace Grand Cru AOC, não havendo AOCs comunais ou uma categoria de Premier Cru, como ocorre na Borgonha. No entanto, muitos produtores defendem a colocação – e assim o fazem - nos rótulos dos vinhos Alsace AOC dos nomes das cidades (o que é permitido desde o início da década de 2000) e dos vinhedos ou parcelas de vinhedos não classificados como Grand Crus, os chamados Lieu-dit. Há vignerons, como Marcel Deiss, que defendem a criação de uma categoria de Premier Crus, mas isso é tema para um post específico. Assim, podemos dizer que Altenbourg seria o equivalente a um Premier Cru.

Grand Cru Schlossberg, o primeiro vinhedo alsaciano a obter o status de Grand Cru, se caracteriza por solos arenosos e graníticos ricos em minerais que determinam a complexidade aromática dos seus vinhos. Desse Grand Cru se origina a maior parte dos Rieslings do Domaine Weinbach

Já o Grand Cru Furstentum, localizado entre as vilas de  Kientzheim Sigolsheim, se destaca por seus vinhos aromáticos Gewurztraminer. Situado entre 300 e 400m de altitude, os solos marrons do Furstentum são ricos em calcário, seixos, filtragem, com superfície rochosa. 

Grand Cru Mambourg, com exposição sudeste, se localiza perto da vila de Sigolsheim, perto do vale de Kaysensberg, entre 210 e 350 metros de altitude. Possui solos calcários ricos em cálcio e em magnésio. Daqui se originam vinhos Gewurztraminer extremamente complexos e aromáticos.

Por fim, o Grand Cru Marckrain localizado ao sul da vila de Bennwihr, na saída do vale Kaysersberg, possui solo com seixos calcários e conglomerados costeiros, daqui se originando alguns dos Pinot Gris Gewurztraminer do Domaine Weinbach.

Fomos recepcionados pela encantadora Catherine Faller que, em seguida, nos apresentou ao seu simpático filho Eddy

Eddy nos apresentou a alguns dos vinhos do Domaine Weinbach, e nos contou sobre a Alsácia e seus vinhos, explicando a filosofia da vinícola, os diferentes terroirs alsacianos. Uma verdadeira aula!

A degustação ocorreu na própria casa da família Faller, na imensa, elegante e aconchegante cozinha, onde ocorrem as degustações, o epicentro da casa. Um ponto a destacar para os leitores é que Eddy Faller é fluente em português, tendo morado muitos anos em São Paulo.

Degustamos os seguintes vinhos:

vDomaine Weinbach Pinot Noir Réserve 2016 (Alsace AOC);

vDomaine Weinbach Pinot Noir W 2016 (Alsace AOC);

vDomaine Weinbach Pinot Blanc 2017 (Alsace AOC);

vDomaine Weinbach Muscat 2017 (Alsace AOC);

vDomaine Weinbach Cuvée Colette Riesling 2016 (Alsace AOC);

vDomaine Weinbach Schlossberg Riesling 2016 (Alsace Grand Cru AOC);

vDomaine Weinbach Réserve Particulière Pinot Gris 2016 (Alsace AOC);

vDomaine Weinbach Pinot Gris Altenbourg 2016 (Alsace AOC);

vDomaine Weinbach Pinot Gris Altenbourg 2007 (Alsace AOC);

vDomaine Weinbach Gewurtztraminer Cuvée Théo 2016 (Alsace AOC);

vDomaine Weinbach Gewurtztraminer Altenbourg 2016 (Alsace AOC);

vDomaine Weinbach Gewurtztraminer Furstentum 2016 (Alsace Grand Cru AOC);

vDomaine Weinbach Gewurtztraminer Furstentum Vendages Tardives 2007 (Alsace Grand Cru AOC).

Vale destacar que na Alsácia, de forma muito similar com o que usualmente ocorre na Borgonha, as degustações se iniciam pelos vinhos tintos.

Outro ponto a sublinhar reside na ordem dos brancos servidos, sempre começando pelo mais seco, passando pelos meio secos, meio doces, até os doces. 

Uma das grandes críticas ao sistema alsaciano reside na ausência de indicações padronizadas nos rótulos dos vinhos indicando se são secos, off dry etc, salvo os das categorias Vendanges Tardives Sélection de Grains Nobles, necessariamente doces. Há produtores que colocam no contra-rótulo de seus vinhos suas próprias escalas numéricas para indicar o grau de açúcar residual.

O painel de vinhos degustados demonstrou a razão do Domaine Weinbach ser considerado pela crítica especializada como um dos melhores produtores da Alsácia, com um nível alto de qualidade em todos os vinhos e tipicidade, inclusive nos vinhos de entrada. Mesmo vinhos de uvas não tão expressivas ou complexas como a Pinot Blanc e a Muscat apresentam uma impressão mais saborosa e frutada.

Além dos dois vinhos com mais de dez anos provados demonstrando a capacidade de guarda dos vinhos alsacianos, o grande destaque (talvez porque sou um grande fã da Riesling), sem qualquer dúvida, foram os dois Rieslings degustados. 

Por fim, não podemos olvidar de destacar o Pinot Noir W, aveludado, macio e elegante, de longe o melhor Pinot Noir provado nessa viagem à Alsácia.

Um brinde à família Faller! Santé!

Nota do autor: Na Alsácia a grafia utilizada é "Gewurztraminer", e, não, como na Alemanha, " "Gewürztraminer". 

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Carcavelos – Um Patrimônio Vitivinícola Português

 Quando pensamos nos vinhos generosos (fortificados) de Portugal nos vêm à mente os vinhos do Porto, da Madeira e os Moscatéis. Poucos se recordam do vinho de Carcavelos.

Carcavelos é uma das mais antigas denominações de origem portuguesas, criada em 1907 e demarcada em 1908, e situa-se próximo da foz do Tejo nas Freguesias de S. Domingos de Rana e Carcavelos, no Concelho de Cascais, e parte da Freguesia de Oeiras, no concelho de mesmo nome.

As vinhas de Carcavelos remontam ao século XIV, ganhando notoriedade nos séculos XVIII e XIX. Graças ao Marquês de Pombal, proprietário da Quinta de Oeiras na região e um dos maiores produtores na época, o vinho de Carcavelos tornou-se célebre.
  
O reconhecimento e o prestígio dos vinho de Carcavelos eram tão grandes na época do Marquês de Pombal que os vinhos eram utilizados pela Companhia Geral da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro (posteriormente Real Companhia Velha) para melhorar a qualidade dos vinhos do Porto.

No século XVIII, por sua alta qualidade, o vinho de Carcavelos foi oferecido pelo rei de Portugal D. José I à Corte de Pequim.

Mais tarde, com as invasões napoleônicas, e com Lisboa isolada por conta da ocupação parcial do território português por tropas francesas, o vinho de Carcavelos veio a tornar-se uma alternativa ao vinho do Porto para os militares ingleses que defendiam Lisboa, ficando então conhecido como Lisbon Wine. Por conta disso, o vinho de Carcavelos passou a ser apreciado na Grã-Bretanha e para lá vendido.

No entanto, na segunda metade do século XIX as vinhas de Carcavelos foram quase totalmente aniquiladas pelo oídio e, posteriormente, pelo surto de filoxera, que quase dizimou todas as vinhas europeias.

Já na segunda metade do século XX, com a rápida expansão urbana e a forte especulação imobiliária nos concelhos de Cascais Oeiras a produção do vinho de Carcavelos quase se extinguiu, com muitos produtores encerrando suas atividades e os vinhedos dando espaço a empreendimentos imobiliários.

Atualmente, há apenas um produtor em atividade, a Villa Oeiras, mantida por um ente público, a Câmara Municipal de Oeiras que utiliza a antiga Estação Agronómica de Oeiras. Em verdade, o Município de Oeiras e o Ministério da Agricultura português, em esforço conjunto, conseguiram manter o último produtor de vinhos de Carcavelos.

O vinho de Carcavelos é um vinho generoso ou fortificado, com adição de aguardente vínica da região de Lourinhã a 77% na metade do processo de fermentação, interrompendo-a e preservando grande parte do açúcar natural da uva.

O vinho branco de Carcavelos é o mais comum. As castas recomendadas (mínimo de 75% do assemblage) são a Galego Dourado, a Boal, a Ratinho e a Arinto. As uvas brancas Rabo de Ovelha Seara Nova são autorizadas a compor o blend em no máximo 25%.

Há também o vinho tinto de CarcavelosCastelão (Periquita, Santarém ou Trincadeira) e Preto Martinho são as castas recomendadas (mínimo de 75% do assemblage). A cepa Trincadeira-Preta (Espadeiro ou Torneiro) pode ser usada até 25% do blend.

Tanto em brancos quanto em tintos há um estágio mínimo obrigatório de dois anos em barricas de madeira e seis meses em garrafa, a contar da sua elaboração.

Os vinhos de Carcavelos, de forma similar aos vinhos do Porto, podem ter indicação de safra/colheita ou a indicação do tempo de envelhecimento (e.g.15 anos). 

Ainda é possível encontrar nas garrafeiras de Lisboa garrafas de produtores de Carcavelos, seja da Villa Oeiras, seja de produtores que praticamente encerraram suas atividades (Quinta dos Pesos, Quinta da Bela Vista, Quinta do Barão Quinta da Ribeira Caparide).
 
No entanto, há boas notícias em relação ao vinho de Carcavelos.

A primeira é que a Villa Oeiras mantém a pleno vapor as suas atividades, inclusive aberta para visitas conjugadas com visita ao palácio do Marquês de Pombal em Oeiras.

Recentemente, tive o grande prazer de visitar a Villa Oeiras, e além de conhecer a história do vinho de Carcavelos degustei três vinhos: dois brancos de 8 e 15 anos, e um tinto retirado da barrica. Todos excelentes, com grande destaque para o de 15 anos.

A segunda boa notícia é que o Município de Cascais adquiriu recentemente o Mosteiro de Santa Maria do Mar em Sassoeiros, com uma área total de 5 hectares dos quais 3,5 hectares são de vinhedos, havendo planos de produção a médio prazo de vinho de Carcavelos. Essa excelente notícia foi-me dada por Manuel José Machado, da Confraria do Vinho de Carcavelos, entidade que realiza um belíssimo trabalho de manutenção da memória do vinho de Carcavelos.

Amigo leitor, estando em Portugal e deparando-se com  uma garrafa do vinho de Carcavelos, não hesite, compre e prove. Garanto que não haverá arrependimento.

Saúde e longa vida ao vinho de Carcavelos!

Nota de agradecimento: Agradecimentos especiais ao Manuel José Machado da Confraria do Vinho de Carcavelos que, gentilmente, esclareceu algumas dúvidas.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Las Notas de Jean Claude 2012 – Um Pomerol Argentino

Mês passado, em visita à Mendoza tive a oportunidade de visitar as vinícolas Zolo/Tapiz. Na ocasião, adquiri duas garrafas do vinho Las Notas de Jean Claude 2012, vinho que constava em minha lista de desejos e nunca conseguira encontrar. 

Las Notas de Jean Claude 2012 tem a Merlot como cepa principal (91%), escoltada pelas Petit Verdot (3,5%), Cabernet Franc (3%) e Cabernet Sauvignon (2,5%). 

Quando pensamos em vinhos argentinos, ou mesmo sul-americanos, raramente pensamos em Merlot, e o Las Notas de Jean Claude 2012 pode ser considerado o Merlot ultra premium da Argentina.

O vinho é elaborado com total liberdade pelo enólogo consultor da Zolo/Tapiz, o francês Jean-Claude Berrouet

Jean-Claude Berrouet trabalhou por mais de quarenta anos com Jean Pierre Moueix no lendário Château Pétrus, e por muitos anos em outras vinícolas da família Moueix, como Château Magdelaine (Saint-Émilion), Château Trotanoy (Pomerol) e Dominus Estate (Napa Valley).

Em 2007, Jean-Claude Berrouet  se aposentou oficialmente. 
Entretanto, em parceria com seu filho Jean-François BerrouetJean Claude passou a prestar consultoria para vinícolas em diversos países do mundo, como  China (Rongzi), Israel (Tzora Wines), França (Château Lafon-Rochet em Saint-Estèphe, Bordeaux), Espanha, Portugal (Quinta da Boavista, Douro), Estados Unidos (Twomey Cellars, Napa Valley) e, é claro, Argentina (Zolo/Tapiz).

Além disso, Jean Claude Berrouet e seu filho, Jean-François, possuem a vinícola Vieux Château Saint-André na AOC Montagne-Saint-Émilion. Para mim, um dos melhores custo-benefícios de Bordeaux, e que tive a oportunidade de provar a primeira vez em novembro de 2016.

Por outro lado,  a família Berrouet não abandonou o célebre Château PétrusUm dos filhos de Jean-ClaudeOlivier Berrouet, passou a ser o diretor de enologia do Château Pétrus, trabalhando com Jean-François Moueix, filho de Jean Pierre.

Especialista na Merlot, Jean Claude Berrouet não se deixou seduzir por modismos, sendo adepto de vinhos que expressem seu local, com intervenções mínimas. Seus vinhos são densos, equilibrados, elegantes, e com capacidade de longa guarda.

Las Notas de Jean Claude 2012, elaborado com uvas do vinhedo San Pablo, em Tupungato, Valle de Uco, a 1350 metros de altitude,se caracteriza pela elegância, pelo frescor típico do Valle de Uco, taninos sedosos e perfeito equilíbrio entre fruta e acidez, com aromas terrosos e final longo. Extremamente macio e elegante, o vinho "abriu" após 90 minutos no decanter, mostrando bem a tipicidade da Merlot e remetendo a um Pomerol

Com certeza, o Las Notas de Jean Claude 2012 inaugura um novo capítulo na história do vinho argentino, e, certamente, será seguido por outros.

Salut e Santé!

* As fotos 3 e 5 foram gentilmente cedidas pela vinícola Zolo/Tapiz.