segunda-feira, 6 de março de 2017

Bien Nacido Vineyards – Um dos Grand Crus da Califórnia


Embora a noção de terroir nos países do novo mundo não seja, até mesmo por razões históricas, tão forte como em países como a França, já faz alguns anos que esse cenário vem mudando. Os apreciadores vêm buscando vinhos que reflitam o local de origem, com identidade própria, fugindo de produtos homogeneizados.

Bien Nacido Vineyards (no plural mesmo, embora seja um único e contíguo vinhedo) é um dos vinhedos históricos da Califórnia, tendo se tornado, ao longo dos anos, um ícone da prestigiosa AVA (American Viticultural Area) de Santa Maria Valley, no condado de Santa Barbara.

Bien Nacido se beneficia da topologia única da região de Santa Barbara, onde as cadeias de montanhas têm um eixo oeste-leste em contraposição ao eixo norte-sul da cadeias de montanhas do resto da Califórnia e dos demais Estados da costa oeste norte-americana, possibilitando, assim, a entrada da brisa fria do Pacífico.

Por esta razão, o vinhedo Bien Nacido é praticamente um semideserto com influência marítima, um dos vinhedos mais frios do mundo. A região é encoberta por nevoeiros pela manhã e recebe brisas marítimas pela tarde, um clima propício para variedades como Pinot Noir e Chardonnay.

Por conta da reconhecida qualidade de suas uvas, desde a década de 1980 produtores já ostentavam em seus rótulos a designação Bien Nacido Vineyards.

A propriedade na qual se localiza o vinhedo Bien Nacido foi adquirida pela família Miller em 1969, não havendo, na época, vinhas ali plantadas. A intenção inicial dos Millers não era plantar vinhedos mas batatas e frutas

Foi no início da década de 1970 que os Millers decidiram cultivar vinhedos. Nos primeiros anos, tentaram cultivar Cabernet Sauvignon e outras uvas mais propícias a climas mais quentes mas sem grande sucesso.
 
É na década de 1980 que ocorre a grande guinada do Bien Nacido. Nessa época, os Millers, atentos ao clima frio do local e à longa época de colheita, perceberam o potencial para o plantio de outras uvas, como a Pinot Noir, a Chardonnay e a Syrah, abandonando a Cabernet Sauvignon.

Os Millers estabeleceram parceria com a University Of California – Davis e receberam diversas de suas vinhas de lá, muitas plantando sem enxerto de uvas não viníferas. Hoje, Bien Nacido fornece diversas mudas para outros vinhedos, tendo se tornado uma referência.

Também é na década de 1980, por razões comerciais, que os Millers desistem da Riesling e da Gewürtztraminer, apesar de apresentarem bons resultados.

Nessa mesma época os Millers decidem não mais vender suas uvas a granel para grandes produtores de Napa, Sonoma, dentre outras regiões. Passam a ver o futuro não apenas do Bien Nacido Vineyards mas de toda a região em vinhos elaborados em pequenas quantidades por enólogos talentosos. Em suma, apostam na própria noção de terroir.

Em um verdadeiro desprendimento, os Millers passam a apoiar jovens e florescentes enólogos (hoje com um trabalho consagrado e reconhecido) como, por exemplo, Bob Lindquist (Qupé), Jim Clendenen (Au Bon Climat) e Adam Tolmach (Ojai Vineyards).

As relações eram mais pessoais do que propriamente comerciais e, ainda hoje são assim.
Apenas para se ter uma ideia Bob Lindquist (Qupé) e Jim Clendenen (Au Bon Climat), mantêm suas instalações em comum dentro do Bien Nacido Vineyards, em uma clara demonstração de reconhecimento por sua contribuição ao próprio prestígio do vinhedo.

Atualmente, o Bien Nacido possui entre 600 a 800 acres de vinhas plantadas, das quais cerca de 200 com Pinot Noir, 190 com Chardonnay e 40 com Syrah. Há ainda alguns acres, muitos experimentais, com vinhas de Marsanne, Rousanne, Grenache, Mourvèdre Viognier, Nebbiolo, Refosco, Tocai Friulano, Pinot Blanc, Pinot Gris, Merlot e Petit Verdot.

Hoje os Millers também passaram a produzir seus próprios vinhos a partir do Bien Nacido Vineyards, bem como de outro célebre vinhedo de sua propriedade na região, o Solomon Hills Vineyards.

Há mais de três dezenas de produtores que elaboram vinhos com uvas do Bien Nacido Vineyards, existindo uma lista de espera para novos produtores.

Cada produtor arrenda suas respectivas parcelas do vinhedo, indicando e orientando a forma de cultivo, poda colheita etc. Vários produtores colocam em seus rótulos menções às respectivas parcelas (blocks), de forma muito similar aos climats na Borgonha, até como forma de demonstrar as nuances existentes entre parcelas de um vinhedo tão extenso.

Após degustar diversos vinhos do Bien Nacido Vineyards, de produtores diversos, com uvas diferentes e de diferentes parcelas (Pinot Noir, Chardonnay, Syrah, Viognier, Rousanne, Grenache), a conclusão a que se chega é simples: o vinhedo é sinônimo de qualidade. 

E, depois de conhecer o local e de degustar diversos vinhos na companhia de Bob Lindquist (Qupé) e Jim Clendenen (Au Bon Climat) -o que será objeto de futuro post - posso dizer que os vinhos são mágicos e especiais.

Cheers!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Descobrindo Washington Parte 2 – Yakima Valley, Horse Heaven Hills e Red Mountain

Como mencionamos em post anterior, as principais áreas vinícolas do Estado de Washington (leia mais aqui) se encontram no leste do Estado, separado do oeste pelas cadeias de montanhas Cascade e Olympics.

Ao contrário do clima frio e chuvoso do oeste de Washington, o leste do Estado possui um clima seco, quase desértico e com baixo índice pluviométrico, extremamente propício para o plantio de uvas como a Cabernet Sauvignon, a Merlot e a Syrah.

Após visitarmos Seatlle e Woodinville (leia mais aqui), rumamos rumo ao leste do Estado. Algum tempo na estrada e começamos a subir a montanha, a neve surgindo pouco a pouco. Depois de cruzarmos a cadeia de montanhas, a paisagem de pinheiros típica do oeste cedeu espaço a uma paisagem quase desértica, inóspita, lembrando muito as pradarias dos antigos filmes de cowboys. Depois de quase quatros horas havíamos chegado ao Yakima Valley.

Escolhemos a pequena cidade de Prosser como primeira base para visitarmos as vinícolas das AVAs (American Viticultural Aereas) de Yakima Valley, Horse Heaven Hills e Red Mountain (também experimentando vinhos das demais AVAs vizinhas).

Logo no primeiro dia, conseguimos visitar cinco vinícolas. Próximo ao nosso hotel havia o Vintner’s Village, com diversos tasting rooms.

A primeira vinícola a ser visitada foi a Airfield Estates Winery cujas instalações são um antigo hangar de aviões construído durante a Segunda Guerra Mundial pelo avô de um dos proprietários, contando com diversos modelos de aviões em miniatura. Degustamos cinco vinhos: Vineyard Salute Flygirl White 2013 (um corte de Roussanne, Pinot Gris, Viognier, Gewurztraminer e Chardonnay), Vineyard Salute Bombshell Red 2012 (Syrah, Merlot, Cabernet Sauvignon, Malbec e Petit Verdot), Hellcat Yakima Valley 2013 (um corte de Tempranillo e Syrah), Airfield Estates Syrah Yakima Valley 2012 e por fim o Airfield Estates Riesling Late Harvest Yakima Valley 2013.

Na sequencia, visitamos a McKinley Springs Winery, cujos vinhos muito nos impressionou, em especial os brancos e o Malbec. Degustamos o Chenin Blanc 2012 Horse Heaven Hills 2012, o Viognier Horse Heaven Hills 2011, Bombing Range White Wine Horse Heaven Hills 2012 (Chenin Blanc e Viognier), Bombing Range Red Wine Horse Heaven Hills 2010 (Syrah, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Malbec, Mourvèdre), Malbec Horse Heaven Hills 2010 e Petit Verdot Horse Heaven Hills 2010. Ao final a atendente ao descobrir que éramos brasileiros e que estávamos em Washington para visitar as vinícolas, não nos deixou pagar. Uma amostra da hospitalidade do leste de Washington.

Logo ali ao lado, visitamos a Coyote Canyon, também com excelentes vinhos e um atendimento muito simpático. Provamos os seguintes vinhos: Andrews White Horse Heaven Hills 2011, Viognier Horse Heaven Hills 2012, Roussanne Horse Heaven Hills 2012, Life is a Rosé Barbera Horse Heaven Hills 2013, Albariño Horse Heaven Hills 2013, Grenache Horse Heaven Hills 2010, Sangiovese Horse Heaven Hills 2010, Cabernet Sauvignon Horse Heaven Hills 2010, Reserve Michael Andrews Horse Heaven Hills 2010 (um blend de Tempranillo e Graciano)  e por fim o Primitivo Horse Heaven Hills 2010.

A visita seguinte foi à Martinez & Martinez, cujos vinhos não nos empolgaram tanto como as demais. Degustamos ali: Viognier Alter Ridge Vineyard Horse Heaven Hills 2013, Pinot Grigio Tudor Hills Vineyard Horse Heaven Hills 2013, May Mae Rosé of Cabernet Sauvignon Horse Heaven Hills 2014, César Red Wine Horse Heaven Hills 2011 (Cabernet Sauvignon, Carmenérère e Petit Verdot), Dominio de Martinez Cabernet Sauvignon Horse Heaven Hills 2011 e o doce Selina Méchelle Organe Muscat Horse Heaven Hills 2012.

A última vinícola do dia (e também a melhor) foi a Milbrandt Vineyards. O interessante foi que os vinhos degustados eram de outras AVAs vizinhas nas quais praticamente não existem tasting rooms, Ancient Lakes e Wahluke Slope. Degustamos os seguintes vinhos: The Estates Ancient Lakes Riesling 2013, The Estates Wahluke Slope Viognier 2013, Vineyards Series Clifton Vineyards Grenache Wahluke Slope 2011, The Estates Wahluke Slope Malbec 2012, Vineyards Series Northridge Vineyard Primitivo Wahluke Slope 2011 e por fim o Vineyards Series Petit Verdot Wahluke Slope 2011. Embora todos os vinhos mostrassem uma elevada qualidade, o Riesling, o Grenache e o Malbec foram os melhores. Posteriormente, ainda nessa viagem, provamos o Sentinel Wahluke Slope 2010, um típico corte de inspiração bordalesa com Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec e Petit Verdot, que também muito nos impressionou.

No segundo dia, visitamos a Columbia Crest, que fica em uma área bem isolada, cerca de meia hora de carro de Prosser. A vinícola é do mesmo grupo do Chateau Ste. Michelle, e contribuiu fortemente com a promoção dos vinhos de Washington quando em 2009 o seu Columbia Crest Cabernet Sauvignon Columbia Valley Reserve 2005 foi o Wine of the Year no Wine Spectator Top 100 2009 (vinho vendido na época por US$ 29.00, mostrando o custo-benefício dos vinhos de Washignton a que nos referimos em post anterior).

A degustação foi simplesmente espetacular. Além Columbia Crest Cabernet Sauvignon Columbia Valley Reserve 2011, diversos vinhos da linha Reserve, alguns de edição limitadas: Chardonnay Unoaked Horse Heaven Hills 2013, Chardonnay Horse Heaven Hills 2012, Merlot Columbia Valley 2012, Cabernet Sauvignon 2011 Red Moutain, Coyote Canyon VIneyard Syrah Horse Heaven Hills 2011 e Malbec Horse Heaven Hills 2012. Provamos ainda um fresco Sauvignon Blanc 2014 da linha H3 e que ao contrário dos vinhos Chardonnay, Merlot e Cabernet Sauvignon dessa linha de excelente custo-benefício, não é exportado para o Brasil.

Por incrível que pareça, o que mais nos chamou a atenção foi o Malbec, elaborado pela primeira vez e em quantidades ínfimas e uma espécie de projeto pessoal do enólogo Juan Muñoz Oca (argentino criado em Mendoza).

Já era o terceiro Malbec que degustávamos em dois dias na região e que impressionava muito. Todos eram extremamente elegantes e aveludados, com boa acidez e fruta se sobrepondo à madeira, praticamente imperceptível. Ficou evidente que a Malbec tem um futuro promissor em Washington, como protagonista, não se limitando apenas a compor blends. Talvez até mesmo pelas condições climáticas muito similares às de Mendoza.

Na sequencia nos dirigimos até Red Mountain (leia mais aqui e aqui). Na verdade, não há opções de hotel em Red Mountain, estando as melhores opções de hospedagem em Prosser ou em Tri Cities.

Dentro do nosso planejamento, optamos por visitar Red Mountain  em dois dias distintos, um a partir de Prosser e outro um tempinho depois, após visitarmos Walla Walla mais ao leste, ficando hospedados em Kennewick, uma das cidades que compõem as chamadas Tri Cities (que na verdade são quatro: Kennewick, Pasco, Richland e West Richland).

Começamos pela Terra Blanca, uma bela vinícola e a única que vimos em Red Mountain que possuía um pequeno restaurante aberto apenas nos finais de semana. Os vinhos degustados nos impressionaram, foram eles: Signature Series Marsanne Red Mountain 2012, Signature Series Block 5 Chardonnay Red Mountain 2010, Signature Series Merlot Red Mountain 2009, Onyx Red Mountain 2011 (61% Cabernet Sauvignon, 33% Merlot, 3% Petit Verdot, 2% Cabernet Franc e 1% Malbec), Signature Series Petit Verdot Red Mountain 2009, Signature Series Cabernet Sauvignon Red Mountain 2009, Signature Series Batholith Red Mountain 2009 (56% Merlot, 39% Cabernet Sauvignon e 5% Syrah), Signature Series Block 8 Syrah Red Mountain 2010 e terminamos com o Arch Terrace Yakima Valley Late Harvest Chenin Blanc Cherry Hill Vineyard 2012. 


Na sequencia visitamos a Kiona Vineyards, com uma bela sala de degustação com uma esplendida vista de Red Mountain. Os vnhos não ficaram nem um pouco atrás da beleza do local. Provamos os seguintes vinhos: Chenin Blanc Columbia Valley 2013, Red Mountain Lemberger 2012 (95% Lemberger, 5% Carmenère), Malbec Estate Red Mountain 2012, Old Block Cabernet Sauvigon Red Mountain 2012, Red Mountain Reserve 2012 (Cabernet Sauvigon e Merlot) e finalizamos com um Late Harvest Riesling Columbia Valley 2013.

Após essa primeira visita a Red Mountain, retornamos a Prosser, e visitamos mais duas vinícolas, próximas uma da outra e de nosso hotel.

A primeira foi a tradicional Kestrel, com uma gama interessante de vinhos, alguns de produção limitadíssima, quase experimentos. Degustamos os seguintes vinhos: Falcon Series Pinot Gris Yakima Valley 2013, Falcon Series Sangiovese Yakima Valley 2010, , Falcon Series Merlot Yakima Valley 2010, , Falcon Series Syrah Yakima Valley 2010, , Falcon Series Tribute Red Yakima Valley 2010 (52% Mourvèdre, 44% Merlot, 3% Cabernet Sauvignon e 1% Sangiovese) e o Falcon Series Cabernet Sauvignon Yakima Valley 2012. Nossos preferidos foram o Cabernet e o Syrah. O simpático atendente ainda nos forneceu diversas indicações de vinícolas em Walla Walla, que seria nossa próxima etapa.

Finalizamos o dia – e a maratona – visitando a The Hogue Cellars, outra vinícola tradicional da região com uma bela linha de vinhos. Provamos os seguintes: Chardonnay Reserve Yakima Valley 2013, Terroir GSM (Grenache, Syrah, Mourvèdre) Lonesome Spring VIneyard Yakima Valley 2012, Merlot Reserve Columbia Valley 2011, Terroir Muscat Canelli Andrews & Rowell Vineyard Horse Heave Hills 2014 e finalizamos com o , Terroir Malbec Andrews & Rowell Vineyard Horse Heave Hills 2010.

Depois de dois dias na região e seguimos viagem rumo à Walla Walla, objeto de um post futuro.

Cheers!

sábado, 17 de dezembro de 2016

Bordeaux: Os Segundos Vinhos dos Châteaux


Visitando recentemente alguns Châteaux de grande prestígio em Bordeaux, tive a oportunidade de degustar alguns de seus seconds vins.

Já vinha, há algum tempo, experimentando os segundos vinhos dos Châteaux da região de Bordeaux especialmente em restaurantes, pelo excelente custo-benefício que oferecem. Na verdade, muitos restaurantes na França mantêm diversos second vins em suas cartas como forma mais acessível de se beber bons vinhos sem ir à falência!

Numa das várias "pesquisas de campo", comprei, certa vez, cerca de meia dúzia de garrafas de alguns seconds vins (Alter Ego de Palmer, Les Fiefs de Lagrange, Connétable de Talbot, Echo de Lynch-Bages etc) que me surpreenderam positivamente. 

Nesses últimos anos minha impressão pessoal apontava que se tratavam de vinhos mais acessíveis. E não me refiro apenas ao quesito preço, mas sim a serem vinhos que não exigem tanto tempo de guarda para atingir sua maturidade. Em outros termos, são vinhos que ficam “prontos” mais cedo do que seus irmãos mais velhos, os Grand Vins dos Châteaux bordaleses.

Os seconds vins não devem ser confundidos com os Châteaux de Bordeaux (Médoc e Sauternes e Barsac) classificados em 1855 como Deuxièmes Crus Classés (quiçá por isso o termo deuxième vin seja raramente empregado). São, em realidade, um segundo rótulo, abaixo do vinho principal (Grand Vin) do Château.

Importante destacar que, muito diferentemente do que ocorre na Borgonha, em Bordeaux as vinícolas costumam ter poucos rótulos.

Assim, no Médoc, um ou dois tintos, em alguns casos um terceiro vinho tinto (uma tendência recente, registre-se), com alguns Châteaux possuindo um branco sob a denominação genérica Bordeaux (exemplo: Cos D’Estournel Blanc).

Já em Graves e Pessac-Léognan, um ou dois tintos; e um ou dois brancos (e.g. Château Haut-Brion).

Em Sauternes e em Barsac um branco doce (às vezes um segundo vinho doce) e em algumas propriedades também um branco seco.

Em Saint-Émillon e no Pommerol os tintos são a regra (não obstante recente anúncio de um vinho branco lançado pelo mítico Château Cheval Blanc após quase uma década de experimentos).

Isso apenas para nos ater às principais sub-regiões de Bordeaux.

O conceito de second vin em Bordeaux não é novo, com registros remontando ao século XVIII, muito embora fossem exceção e sem regularidade safra a safra.

No início do século XX, surge o segundo vinho do Château Latour (posteriormente batizado para Les Forts de Latour), porém é na década de 1980 que ocorre o grande boom dos segundos vinhos, com os principais Châteaux passando a oferecer com regularidade um segundo rótulo abaixo de seu Grand Vin.

Atualmente, dos principais Châteaux do Médoc, poucos são os que não oferecem um second vin, como o Château Saint-Pierre (um 4ème Grand Cru Classé da AOC Saint-Julien). Recentemente, o tradicional Château Batailley (um 5ème Grand Cru Classé da AOC Paulliac) lançou pela primeira vez seu segundo vinho, o Lions de Batailley (safra 2015).

A filosofia do second vin varia de acordo com o Château: parcelas novas em idade dos vinhedos, vinhos novos decorrentes de expansões da propriedade e/ou lotes de uvas descartados para o Grand Vin.

Um ponto a destacar reside na atenção e cuidado dispensados pelos enólogos à elaboração dos seconds vins, mantendo a preocupação de que os segundos vinhos, tal qual o Grand Vin, expressem seu terroir, não obstante possa haver alguma mudança no estilo (a depender do enólogo, até como uma experimentação).
Em verdade, hoje em dia, os segundos vinhos se prestam não apenas como uma vitrine, uma introdução ao Grand Vin, mas também possuem a função de concorrer com os chamados crus bourgeois (basicamente, uma classificação de Châteaux do Médoc que não entraram na classificação de 1855) de preço inferior aos Grands Crus Classés.

A qualidade dos segundos vinhos vem aumentando ano a ano, assim como os preços.

Esse fenômeno ocorre não apenas pelo aumento exponencial dos preços dos Grands Vins, com ápice na badalada safra de 2009, e decorrente do interesse de mercados asiáticos nos vinhos de Bordeaux, com destaque para a China, mas também pela diminuição nas quantidades produzidas dos Grands Vins se comparadas com as quantidades produzidas na década de 1970 e início da década de 1980.

E assim, com a cada vez maior busca pela perfeição nos Grands Vins, as quantidades dos seconds vins, em alguns Châteaux, acabaram por suplantar as dos primeiros vinhos (na safra de 2011 apenas 30% da produção do Château Lafite foi destinada ao Grand Vin).

Observe-se que isso varia de vinícola para vinícola, não havendo uma regra absoluta, podendo-se afirmar se tratar de uma tendência. Os Châteaux Pontet-Canet, Léoville Barton e Cos d’Estournel produzem majoritariamente Grands Vins (respectivamente, 90%, 80% 75% de sua produção). Uma explicação para essa variação pode ser a idade das diferentes parcelas dos vinhedos.

Vale lembrar ainda que embora alguns chamem de segundos vinhos, há Châteaux que possuem um outro rótulo produzidos na mesma AOC (apelção de origem controlada), porém de vinhedos distintos dos utilizados para o Grand Vin e para o Second Vin, como é o caso do Clos du Marquis do célebre Château Léolville-Las Case (leia mais aqui).

A seguir apresentamos uma lista (não exaustiva) de alguns Grand Vins e os respectivos Seconds Vins por AOC:

Haut-Médoc:
      Château d'Agassac - Château Pomiès-Agassac
      Château Beaumont - Château d'Arvigny
      Château Belgrave - Diane de Belgrave
      Château Bernadotte - Château Fournas Bernadotte
      Château Cantemerle - Les Allées de Cantemerle
      Château Charmail - Tours de Charmail
      Château Citran - Moulins de Citran
      Château La Lagune - Moulin de La Lagune
      Château de Lamarque - D de Lamarque
      Château Liversan - Les Charmes de Liversan
      Château Malescarre - La Closerie de Malescarre
      Château du Moulin Rouge - L'Écuyer du Moulin Rouge
      Château Sociando-Mallet : La Demoiselle de Sociando-Mallet
Saint-estèphe[modifier | modifier le code]

Saint-Estèphe:
      Château Le Boscq - Héritage de Le Boscq
      Château Calon-Ségur - Château Maquis de Calon
      Château Cos d'Estournel - Les Pagodes de Cos
      Château Cos Labory - Le Charme Labory
      Château Meyney - Prieur de Meyney
      Château Montrose - La Dame de Montrose
      Château Phélan Ségur -Franck Phélan

Pauillac:
      Château Colombier-Monpelou - Château Puy La Rose
      Château Croizet-Bages - La Tourelle de Croizet-Bages
      Château Duhart-Milon - Moulin de Duhart
      Château Grand-Puy Ducasse - Prélude à Grand-Puy Ducasse
      Château Grand-Puy-Lacoste - Lacoste-Borie
      Château Haut-Bages Libéral - La Chapelle de Bages
      Château Haut-Batailley - Château La Tour l'Aspic
      Château Lafite Rothschild - Carruades de Lafite Rothschild
      Château Latour - Les Forts de Latour
      Château Lynch-Bages – Ecos de Lynch-Bages
      Château Mouton Rothschild - Le Petit Mouton de Mouton Rothschild
      Château Pédesclaux - Lucien de Pédesclaux
      Château Pibran - Château Tour Pibran
      Château Pichon-Longueville Baron - Les Tourelles de Longueville ou Les Griffons de Pichon (desde a safra de 2012)
      Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande - Réserve de la Comtesse
      Château Pontet-Canet-  Les Hauts de Pontet
·     Château Batailley - Lions de Batailley (a partir da safra 2015).

Saint-Julien:
      Château Beychevelle - Amiral de Beychevelle
      Château Branaire-Ducru - Duluc de Branaire-Ducru
      Château Ducru-Beaucaillou - La Croix de Beaucaillou
      Château Gloria - Château Peymartin
      Château Gruaud Larose - Sarget de Gruaud-Larose
      Château Lagrange - Les Fiefs de Lagrange
      Château Langoa Barton - Lady Langoa
      Château Léoville Barton - La Réserve de Léoville Barton
      Château Léoville Las Cases - Petit Lion de Léoville Las Cases
      Château Léoville Poyferré - Pavillon de Léoville Poyferré
      Château Talbot - Connétable Talbot

Margaux:
      Château d'Angludet - La Ferme d'Angludet
      Château Boyd-Cantenac - Jacques Boyd
      Château Brane-Cantenac - Le Baron de Brane
      Château Dauzac - La Bastide de Dauzac
      Château Ferrière - Les Rempart de Ferrière
      Château Giscours - La Sirène de Giscours
      Château d'Issan - Blason d'Issan
      Château Kirwan - Les Charmes de Kirwan
      Château Lascombes - Chevalier de Lascombes
      Château Malescot St-Exupéry - La Dame de Malescot
      Château Margaux - Pavillon Rouge du Château Margaux
      Château Marquis de Terme - Les Gondats de Marquis de Terme
      Château Martinens - Château Bois du Monteil
      Château Monbrison - Bouquet de Monbrison
      Château Palmer - Alter Ego de Palmer
      Château Prieuré-Lichine - Le Cloître de Prieuré-Lichine
      Château Rauzan-Gassies - Chevalier de Rauzan-Gassies
      Château Rauzan-Ségla - Ségla
      Château Siran - S de Siran
      Château du Tertre - Les Hauts du Tertre

Pessac-léognan:
      Château Brown - Le Colombier de Château Brown
      Château Carbonnieux - Château Tour Léognan
      Château Les Carmes Haut-Brion - Le Clos des Carmes
      Domaine de Chevalier - L'esprit de Chevalier
      Château de Fieuzal - L'Abeille de Fieuzal
      Château de France - Château Coquillas
      Château La Garde - La Terrasse de La Garde
      Château Haut-Bailly - La Parde de Haut-Bailly
      Château Haut-Bergey - Les Hauts de Bergey
      Château Haut-Brion - Le Clarence de Haut-Brion (antigo Château Bahans Haut-Brion)
      Château Larrivet-Haut-Brion - Domaine de Larrivet
      Château Latour-Martillac - Lagrave-Martillac
      Château La Louvière - L de La Louvière
      Château Malartic-Lagravière - Le Sillage de Malartic
      Château La Mission Haut-Brion - La Chapelle de la Mission Haut-Brion
      Château Olivier - Seigneurie d'Olivier
      Château Pape Clément - Le Clémentin du Château Pape Clément
      Château Smith Haut Lafitte - Les Hauts de Smith

Barsac:
      Château Climens - Les Cyprès de Climens
      Château Coutet - La Chartreuse de Coutet

Sauternes:
      Château d'Arche - Prieuré d'Arche
      Château Bastor-Lamontagne - Les Remparts de Bastor
      Château Clos Haut-Peyraguey - Château Haut Bommes
      Château Filhot - Château Pineau du Rey
      Château Guiraud - Le Dauphin Château Guiraud
      Château Lafaurie-Peyraguey - La Chapelle de Lafaurie-Peyraguey
      Château Lamothe - Les Tourelles de Lamothe
      Château Liot - Château du Levant
      Château de Malle - Château Ste Hélène
      Château de Rayne Vigneau - Madame de Rayne
      Château Rieussec - Clos Labère
      Château Romer du Hayot - Le 2 de Romer du Hayot
      Château Sigalas-Rabaud - Le Cadet de Sigalas
      Château Suduiraut - Castelnau de Suduiraut
      Château La Tour Blanche - Les Charmilles de Tour Blanche

Saint-Émilion:
      Château Angélus - Le Carillon d'Angélus
      Château Armens - La Fleur du Château Armens
      Château Ausone - Chapelle d'Ausone
      Château Beauséjour - Croix de Beauséjour
      Château Beau-Séjour Bécot - Tournelle de Beau-Séjour Bécot
      Château Bellefont-Belcier - Marquis de Bellefont
      Château La Bienfaisance - Vieux Château Peymouton
      Château Cadet-Piola - Chevaliers de Malte
      Château Canon - Clos J. Kanon
      Château Canon-la-Gaffelière - Côte Migon la Gaffelière
      Château Cantenac - Château Cantenac Sélection Madame
      Château Cheval Blanc - Le Petit Cheval
      Château Clos des Jacobins - Prieur des Jacobins
      Clos Fourtet - La Closerie de Fourtet
      Château La Clotte - Clos Bergat Bosson
      Château La Confession - Château Barreau
      Château Corbin - Maximin de Corbin
      Château Corbin Michotte - Château Les Abeilles
      Château Croque Michotte - Les Charmilles de Croque Michotte
      Château Dassault - D de Dassault
      Château La Dominique - Saint-Paul de Dominique
      Château Ferrand Lartigue - FL de Ferrand Lartigue
      Château-Figeac : Petit-Figeac (a partir de 2012) ou La Grange Neuve de Figeac (de 1945 a 2011)
      Château Fleur Cardinale - Château Bois Cardinal
      Château Fombrauge - Le Cadran de Fombrauge
      Château Fonplégade - Château Côtes Trois Moulins
      Château Franc Mayne - Les Cèdres de Franc-Mayne
      Château La Gaffelière - Clos La Gaffelière
      Château La Gomerie - Mademoiselle de La Gomerie
      Château Grand Corbin-Despagne - Petit Corbin-Despagne
      Château Grand Mayne - Les Plantes du Mayne
      Château Grand-Pontet - Dauphin de Grand-Pontet
      Château La Grangère - L'Étrier de La Grangère
      Château Haut-Villet - Château Moulin-Villet
      Château Laplagnotte-Bellevue - La Plagnotte
      Château Larmande - Le Cadet de Larmande
      Château Magdelaine - Les Songes de Magdelaine
      Château Milens - Tour du Sème
      Château Monbousquet - Angélique de Monbousquet
      Château Pavie - Arômes de Pavie
      Château Pavie-Macquin - Les Chênes de Macquin
      Château Roylland - Château Rocheyron
      Château Sansonnet - Château Lasalle
      Château La Serre - Les Menuts de La Serre
      Château Tretre Daugay - Château de Roquefort
      Château Troplong-Mondot - Mondot
      Château Trotte Vieille - La Vieille Dame de Trotte Vieille
      Château Valandraud - Virginie de Valandraud

Pomerol:
      Château Beauregard - Le Benjamin de Beauregard
      Château Bellegrave - Château des Jacobins
      Château Bonalgue - Château Burgrave
      Château Clinet - Fleur de Clinet
      Clos du Clocher - Château Monregard La Croix
      Clos l'Église - Esprit de l'Église
      Château La Croix du Casse - Domaine du Casse
      Château La Croix St-Georges - Château Le Prieuré
      Château L'Église-Clinet - La Petite Église
      Château L'Évangile - Blason de L'Évangile
      Château Gazin - L'Hospitalet de Gazin
      Château Gombaude-Guillot - Cadet de Gombaude
      Château La Grave à Pomerol - Domaine Trigant de Boisset
      Château Lafleur - Pensées de Lafleur
      Château Mazeyres - Le Seuil de Mazeyres
      Château Montviel - Château La Rose Montviel
      Château Le Moulin - Le Petit Moulin
      Château Moulinet - Clos Sainte Anne
      Château Nénin - Fugue de Nénin
      Château Petit Village - Le Jardin du Petit Village
      Château La Pointe - La Pointe Riffat
      Château La Providence - Les Chemins de la Providence
      Château Rouget - Vieux Château des Templiers
      Château de Sales - Château Chantalouette
      Château Taillefer - Château Fontmarty
      Vieux Château Certan - La Gravette de Certan

Uma dica é que os Seconds Vins nas safras consideradas excepcionais acabam por apresentar um excelente custo-benefício, e alternativa factível aos preços inflacionados e especulativos dos Grands Vins (pensemos no La Dame de Montrose, por exemplo).

Por fim, temos que torcer para que o ainda tímido surgimento dos “terceiros” vinhos dos Châteaux (e.g. Pauillac de Chateau Latour, Margaux de Château Margaux) não acabe por virar uma tendência vindo a inflacionar ainda mais os seconds vins.


Santé!