domingo, 6 de agosto de 2017

A Dupla Poda e o Nascimento de novos Terroirs no Brasil

Nas últimas semanas, selecionando rótulos para a degustação que então organizava, experimentei diversos vinhos elaborados no sul de Minas Gerais – das vinícolas Casa Geraldo, Luiz Porto, Maria Maria e Villa Mosconi). Confesso ter ficado gratamente surpreso com a sua alta qualidade . 

Apenas para ilustrar, o Maria Maria Syrah 2015 e o Luiz Porto Brut Colheita de Inverno ficaram, respectivamente, em primeiro lugar nas categorias Vinho Tinto e Espumante do Top 10 da Vini Bra Expo 2017, evento de vinhos ocorrido no último fim de semana no Rio de Janeiro.

Um dos pontos em comum entre a esmagadora maioria dos vinhos mineiros degustados é o fato de serem elaborados  por meio da técnica conhecida como "dupla poda" em que altera-se o ciclo natural das videiras, técnica também utilizada pela premiada vinícola paulista Guaspari.

Mas afinal, o que vem a ser a técnica da “dupla poda”? Como ela afeta a qualidade do vinho?

O vinho é um produto da interação do homem com a natureza. Se deixarmos a videira livre para crescer, ela não utilizará seus recursos para amadurecer as uvas para elaboração de vinhos, ela simplesmente crescerá. Por conta disso, esse vigor da videira precisa ser controlado pelo viticultor. Para tanto, o produtor conta com algumas técnicas como embardamento (estrutura de postes e arames utilizadas nos vinhedos), poda e limitação da densidade de plantação das vinhas. Depois, por meio de outras técnicas, terá que controlar a qualidade e a maturação em potencial das uvas.

A poda, segundo  Karen MacNeil (autora do livro The Wine Bible) é “o processo exaustivo de cortar as videiras enquanto adormecidas durante o inverno (...) O que o podador deixa ficar torna-se a base da colheita do ano seguinte. Se ele podar com muito rigor, pode comprometer a capacidade frutífera e a força das parreiras. Ao contrário, se podar muito pouco, as videiras produzirão tantos galhos, folhas e frutos que ficarão desequilibrados”. Assim, a poda tem por objetivo a retirada de folhas, bem como de varas e madeiras velhas que não têm mais utilidade.

Há dois tipos de poda, a chamada “poda de inverno” e “poda de verão”.

O escopo da primeira é determinar o número e a localização dos gomos, que, por sua vez, irão originar os ramos tenros (hastes da videira, pampres em inglês e em francês) que produzirão as uvas na colheita seguinte.

Já as chamadas podas de verão, também denominadas de “podas verdes”, objetivam restringir o crescimento vegetativo de forma a direcionar a produção de açúcar pela videira para as uvas e não para as folhas ou hastes. Buscam podem se prestar também a remover os cachos em excesso como forma de limitar a produção. As podas verdes podem se limitar apenas à retirada de folhas de forma a proporcionar maior exposição solar aos cachos da videira.

A chamada “dupla poda”, na verdade, se refere à “poda de inverno” e foi criada há mais de dez anos pelo pesquisador da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) Murillo de Albuquerque Regina.

Trata-se de técnica que inverte o ciclo natural da videira por meio de um manejo diferenciado das podas. Com isso, a videira passa a frutificar no inverno, evitando-se as altas temperaturas do verão (dia e noite), bem como as chuvas e alta umidade típicas dessa estação.

São feitas duas podas (“podas de inverno"), uma por volta de agosto e uma em dezembro/janeiro.

No inverno, em certas regiões, em especial no sul de Minas Gerais e em alguns pontos do Estado de São Paulo, há frio à noite, e insolação durante o dia, com baixa precipitação e com boa amplitude térmica, condições favoráveis à vinha.  

Na “dupla poda”, a primeira poda tem por objetivo a formação de ramos produtivos, e a segunda é a poda efetiva de frutificação. A videira, então, começa a brotar em fevereiro, floresce em março e os cachos começam a se formar em abril, ocorrendo a colheita a partir do final de junho e ao longo de julho (a depender do tipo de uva).
 
Observe-se que a chamada “colheita de inverno” não ocorre nos mesmos meses das colheitas das regiões do Hemisfério Norte (estas começam no final de agosto e se estendem até início de outubro, dependendo da variedade de uva).

Essa técnica, no entanto, não é recomendada para regiões no sul do país, com invernos rigorosos.

Nem tampouco é útil em regiões extremamente quentes, como o Vale do Rio São Francisco, em que mesmo no inverno não ocorre a amplitude térmica.

As “colheitas de inverno” apontam para um novo rumo da viticultura brasileira, permitindo que novos terroirs brasileiros possam surgir, aumentando a gama de excelentes vinhos nacionais.

Saúde!

domingo, 2 de julho de 2017

Um Syrah do Marrocos

Faz alguns dias degustei um vinho de origem inusitada, o Tandem 2011, um vinho 100% Syrah, com uvas provenientes de vinhedos orgânicos localizados na região de Zenata, cerca de 90 kms de Casablanca, no Marrocos.

Um Syrah elegante com frutas maduras, um certo frescor (embora distinto dos chamados Syrahs de climas frios, como alguns chilenos do Valle de Casablanca, ou alguns californianos como os de Santa Maria Valley), e um leve toque de especiarias como pimentas. E pelo preço na importadora me pareceu de excelente custo-benefício, além de valer pela oportunidade de degustar um vinho do Marrocos.


Trata-se de um projeto em conjunto da vinícola marroquina Domaine des Ouled Thaleb e do produtor francês Alain Graillot, considerado um dos grandes enólogos de Crozes-Hermitage e especialista em vinhos elaborados com a casta Syrah.

A parceria nasceu do encontro de Alain Graillot com os proprietários do Domaine des Ouled Thaleb em uma viagem para a prática de ciclismo no início dos anos 2000.

O Domaine des Ouled Thaleb é a vinícola mais antiga do Marrocos fundada em 1923 e responsável pela modernização da indústria vitivinícola do país a partir dos anos 1990.

O que pode causar uma certa surpresa ao leitor é um país com quase 100% da população muçulmana, uma religião que proíbe o consumo de álcool, e com grandes desertos produzir vinhos.

Na verdade, o Marrocos já produzia vinhos antes mesmo da era do Império Romano. O cultivo das vinhas, no entanto, se perdeu por volta do século VII por conta da proibição religiosa de consumo de álcool, retornando apenas com a colonização francesa no final do século XIX. Porém, é apenas na década de 1990 que a indústria marroquina volta a se expandir, com incentivos do próprio Rei Hassan II.

Atualmente, o Marrocos produz cerca de 40 milhões de garrafas de vinhos por ano. Desse total, apenas 5%, no entanto, é exportado.

Com nítida inspiração francesa, existem sete regiões produtoras subdivididas em 14 Appellations d'Origine Garantie (AOGs) e 1 Appelation d'Origine Contrôlée (AOC).

Seis das sete regiões vitivinícolas marroquinas se localizam nas proximidades das cidades de Meknes, Rabat e Casablanca, na costa atlântica ou nas montanhas próximas da costa, ao sudoeste da Espanha e de Gibraltar. Já a sétima região fica ao leste na fronteira com a Argélia e próxima ao mar Mediterrâneo.

Eis as regiões e as respectivas denominações de origem marrquinas:

Leste marroquino:
Beni Sadden AOG
Berkane AOG
Angad AOG
 
Região de Meknès e Fès:
Guerrouane AOG
Beni M'tir AOG
Saiss AOG
Zerhoune AOG
Coteaux de l’Atlas AOC

Região norte:
Gharb AOG

Região de Rabat e Casablanca:
Chellah AOG
Zemmour AOG
Zaër AOG
Zenatta AOG
Sahel AOG

Região de El-Jadida:
Doukkala AOG

Embora grande parte do país possua um clima desértico, as regiões produtoras de vinhos ficam aos pés de montanhas nas proximidades da costa atlântica ou mediterrânea. Dessa forma, a altitude e a influência marítima contribuem para preservar a acidez das uvas contribuindo para a elaboração de vinhos equilibrados. Some-se a isso uma boa inversão climática diurna e noturna e solos pobres com rochas e pedras, e lá estão condições propícias ao cultivo de vinhas e à elaboração de vinhos.

As principais cepas no Marrocos são: Syrah, Grenache, Carignan, Cabernet Sauvignon e Merlot para os tintos; e para os brancos Chenin Blanc, Sauvignon Blanc, Sémillon e Chardonnay

 A presença francesa (leia aqui e aqui sobre a influência francesa no Novo Mundo) é notada não apenas pelo projeto de Alain Graillot com o Domaine des Ouled Thaleb, mas também pela presença de enólogos franceses e até mesmo pela propriedade de vinícolas marroquinas por grupos franceses, como o Domaine Excelcio  e Kahina de propriedade de Bernard Magrez (Château Pape Clément, Graves, Bordeaux; Château La Tour Carnet, Haut-Médoc, Bordeaux etc). A exceção à influência francesa é o Les Celliers de Meknès, projeto de Albert Costa da vinícola espanhola (Priorato) Vall Llach.

E você, leitor, já degustou um vinho marroquino?

Santé! 

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Château Cheval Blanc – Conhecendo um mito

Château Cheval Blanc. Um dos mais lendários vinhos do mundo, ocupando o ápice da classificação de vinhos de Saint-Émillion desde sua criação em 1955 (Premier Grand Cru Classé A). A mera menção de seu nome já é o suficiente para gerar expectativa em qualquer enófilo. Degustar uma de suas safras é sempre uma experiência singular. Visitar a propriedade, então, é uma daquelas experiências únicas e inesquecíveis.

Foi esse sentimento que tomou conta de mim em uma tarde fria e ensolarada de novembro ao me aproximar dos portões do Château Cheval Blanc. Já havia tido o privilégio de degustar algumas poucas e inesquecíveis safras do Château Cheval Blanc, e que me vinham à mente conforme ultrapassava os portões da propriedade.

A história do Château Cheval Blanc remonta ao ano de 1832. Nesse ano, a família Ducasse adquiriu parte da atual propriedade do Château Figeac, que pertencia à Condessa Felicité de Carle-Trajet. Até então essa parte da propriedade era chamada de Le Barrail de Cailloux.

Naquela época o Château Figeac possuía 200 hectares e a Condessa decidiu vender partes da propriedade, contribuindo para a criação de diversas vinícolas. Isso explica a razão de diversas propriedades manterem o nome Figeac (e.g. Château La Tour Figeac, Château La Tour du Pin Figeac, Château Yon Figeac).

Posteriormente, em 1838, a família Ducasse adquiriu mais parcelas do Château Figeac, o que é hoje a maior parte da propriedade.

Em 1852 Mille Ducasse casou-se com Jean Laussac-Fourcaud, e o dote de Mille Ducasse incluía os vinhedos Château Cheval Blanc.
A família Laussac-Fourcaud construiu o château, sendo esse edifício até hoje utilizado. E continuou, nos anos seguintes, a adquirir vinhedos contíguos, aumentando o tamanho do da propriedade. Em 1871, o Château Cheval Blanc possuía um total de 39 hectares de vinhedos em Saint-Émilion, permanecendo com esse tamanho até hoje.

Nos primeiros anos, os vinhos do Château Cheval Blanc eram vendidos como Château Figeac. No entanto, à medida em que recebiam prêmios, o vinho passou a ostentar um rótulo com o nome Château Cheval Blanc, fazendo jus às medalhas que recebia.

Na primeira metade do século XX, o Château Cheval Blanc produziu vinhos de altíssima qualidade, aumentando sua reputação, inclusive o mítico Château Cheval Blanc 1947, que muitos apontam como um dos melhores vinhos já elaborados.

Em 1998, o Château Cheval Blanc foi comprado por Bernard Arnault e pelo Barão Albert Frère, passando a propriedade a ser gerida por Pierre Lurton.

Posteriormente, em 2009, o grupo LVHM adquiriu a parte de Bernard Arnault na propriedade.

Em 2011, com projeto do célebre arquiteto e ganhador do Pritzker Architecture Prize Christian de Portzamparc, o Château Cheval Blanc encerrou uma ampla e completa reforma. A reforma incluiu um moderno edifício com nova adega, sala de vinificação com novos tanques, nova área de degustação e novo projeto de paisagismo dos jardins.

Embora o novo edifício possua linhas arquitetônicas modernas e arrojadas, há harmonia com paisagem do local, inclusive com o antigo Château, não ofuscando este, nem se destacando em demasia, talvez até mesmo por estar um pouco abaixo de uma colina. Dali temos belas vistas da paisagem não apenas de Saint-Émillion, mas também da vizinha Pomerol.

Nas novas instalações foram construídos os novos tanques de concreto, projetados especialmente para o Château Cheval Blanc a partir das orientações técnicas da equipe de Pierre Lurton. Os vinhos de cada variedade e da cada parcela dos vinhedos são vinificados separadamente em seus respectivos tanques de concreto, que variam de tamanho.

Iniciamos nossa visita pelos vinhedos, e ali aprendemos muito sobre o privilegiado e único terroir do Château Cheval Blanc.

A propriedade, como dito, possui 39 hectares de vinhedos plantados, com três tipos diferentes de solos. Embora os vinhedos sejam contíguos, não há uma uniformidade de solo, justamente o que aporta mais complexidades aos vinhos. 40% dos vinhedos possuem solos profundos com cascalho e uma multiplicidade de tipos de argila, incluindo a famosa argila azul - que dizem ser um dos segredos desse notório vinho. 20% consistem em argila arenosa com depósitos de ferro. Já os 40% restantes possuem solos profundos com cascalho. Importante destacar ainda dois pontos: a existências de cinco colinas de cascalho na propriedade com cerca de 38 metros de altura, bem como a proximidade da propriedade com a divisa com a AOC (Appellation d’Origine Contrôlée) vizinha de Pomerol, o que leva alguns especialista a dizer que o Cheval Blanc reflete um pouco do estilo da apelação vizinha (não obstante o predomínio quase total da Merlot nos vinhos desta última).
Os vinhedos do Château Cheval Blanc são divididos em 45 seções, cada um tratado como se fosse um vinhedo próprio em virtude das diferenças de solo, de idade das vinhas, da variedade, dentre outros fatores. Os vinhedos são compostos de 49% Cabernet Franc, 47% Merlot, 4% Cabernet Sauvignon. Já se chegou a ter 1% de Malbec, que, no entanto, não chegou a ser utilizado.

O assemblage do Grand Vin varia safra a safra, atendendo a especificidades destas, sendo certo que nas últimas safras há uma tendência de predomínio da Cabernet Franc

As vinhas da propriedade tem uma média de 45 anos de idade, embora haja vinhas mais antigas, cerca de 8 hectares de vinhas de Cabernet Franc plantadas na década de 1950 e algumas parcelas plantadas na década de 1920.

A equipe do Château Cheval Blanc, no entanto, utiliza as vinhas mais antigas para seleção de clones, um programa que começou em 1996 buscando manter a identidade dos vinhedos. 

Algo que realmente me surpreendeu foi a informação de que a equipe do Château Cheval Blanc não espera, durante a colheita, até que todas as frutas das vinhas de cada parcela alcancem um grau de madurez fenólica total, colhem-nas antes. O assemblage das diferentes uvas de parcelas distintas adiciona complexidade, frescor e aquele tom aveludado e profundo aos vinhos.
Continuando, visitamos as instalações da vinícola, conhecendo a sala das barricas e a sala dos novos tanques de cimento. 

Aprendemos que a vinificação dos vinhos do Château Cheval Blanc ocorre, como já mencionado antes, em 52 tanques de cimento, com tamanhos variados, onde a fermentação malolática ocorre. Posteriormente, é feito o assemblage, e os vinhos são envelhecidos em barricas novas de carvalho francês durante 18 meses.

Importante lembrar que o Château Cheval Blanc produz, desde a safra 1988, um segundo vinho, Le Petit Cheval, que é envelhecido em 50% de barricas novas de carvalho francês, correspondendo a metade da produção do Grand VIn. No entanto, em 1991, uma safra sofrível, apenas o Le Petit Cheval foi produzido. Já em 2015, pela primeira vez, apenas o Château Cheval Blanc foi produzido por conta da alta qualidade da safra (apenas uma parcela ínfima foi desclassificada). 

Também a partir da safra 2015, o Château Cheval Blanc, após quase uma década de experimentos, passou a produzir um vinho branco: Le Petit Cheval - Bordeaux Blanc

Trata-se de um Bordeaux Blanc produzido, incialmente, somente com a uva Sauvignon Blanc (há planos do uso de 20% de Sémillion a partir de 2018). As uvas são provenientes de um vinhedo defronte ao Château Cheval Blanc, do outro lado da estrada, e anteriormente pertencentes ao Château La Tour du Pin adquiridos faz alguns anos pela vinícola. 

Por conta das regras da AOC (Appellation d’Origine Contrôlée) Saint-Émillion não permitirem o uso de cepas brancas, o referido vinho é classificado com um Bordeaux branco genérico. Na verdade, a elaboração de vinhos brancos pelos grandes Châteaux de Bordeaux, em especial no Médoc, é um tendência relativamente recente e que, pelo visto, veio para ficar (note-se que não estamos nos referindo aos vinhos brancos secos de Graves, Pessac-Léognan ou Sauternes). 

Finalizando nossa visita, degustamos um Château Cheval Blanc 2011. Uma safra ofuscada pelas duas incríveis safras anteriores, porém mesmo assim uma safra clássica, com tempo seco (mas não excessivo) durante a época do amadurecimento, refletindo a filosofia da vinícola. Elaborado com 52% de Cabernet Franc, 47% de Merlot e 1% de Cabernet Sauvignon, apresentava um rubi profundo, opulento, com o aveludado, quase seda, característico desse vinho, com uma bela camada de frutas vermelhas e negras, demonstrando grande potencial de guarda. O retrogosto parecia interminável. Um vinho inesquecível!

Santé!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Château Gruaud Larose – Visita e Degustação

 Situado em Saint-Julien, uma das mais prestigiosas AOC (appellation d'origine contrôlée) de Bordeaux, o Château Gruaud Larose é uma das mais tradicionais propriedades da região, e classificada, em 1855, como um Deuxièmes Crus.

Por volta do século XVIII, a propriedade, então denominada de Fond-Bedeau, pertencia ao cavaleiro Joseph Stanislas Gruaud, sendo administrada por um abade parente seu. Posteriormente, em 1781, a propriedade foi herdada pelo Cavaleiro Larose, parente dos Gruaud, que rebatizou a propriedade de Gruaud-Larose, ampliando os vinhedos de 50 para 80 hectares.

Em 1812, na ausência de herdeiros, Gruaud-Larose foi adquirida em leilão por duas famílias distintas, mantendo-se intacta até 1867 quando foi divida em duas partes, Château Gruaud-Larose-Sarget (parte da família Sarget) e Château Gruaud-Larose-Faure (parte da família Faure).
 
Na primeira metade do século XX, da família Cordier compra as duas partes da propriedade (Sarget em 1917; Faure em 1935), se tornando uma das principais vinícolas nas operações da família Cordier.

Atualmente, após pertencer a alguns outros proprietários, o  Château Gruaud-Larose pertence, desde 1997, a família Merlaut, experimentando um vigoroso renascimento, mormente a partir da safra de 2000.

Desde a aquisição da vinícola pela família Merlaut, métodos sustentáveis e técnicas de manejo orgânicos foram introduzidos, optando-se nos últimos anos por uma maior expansão das vinhas de Cabernet Sauvigon.

Hoje a propriedade conta com cerca de 80 hectares de vinhedos plantados (61% Cabernet Sauvigon, 29% Merlot, 5% Cabernet Franc e 5% Petit Verdot).

Como usualmente ocorre nos Châteaux bordaleses, a vinícola produz apenas dois rótulos, o homônimo Château Gruaud Larose e seu second vin (leia aqui sobre os seconds vins de Bordeaux) o Sarget de Gruaud Larose.

Um curiosidade foi a participação a partir de 1998 do Château Gruaud Larose no projeto vitivinícola  Osoyoos Larose, em Okanagan Valley, na costa oeste do Canadá (British Columbia)elaborando um Grand Vin homônimo e um segundo vinho, Pétales d’Osoyoos, com assemblages bordaleses. Hoje o Château Gruaud Larose não integra mais o projeto, como me foi dito quando em recente visita à propriedade em Bordeaux.

Faz alguns meses tivemos o privilégio de visitar o Château Gruaud Larose.

Ao contrário de muitas vinícolas em Bordeaux, o Château Gruaud Larose possui um estrutura de enoturismo, aberto a visitas , de preferência mediante prévia reserva, e oferecendo outras atividades além das clássicas visitas, como, por exemplo, observação da colheita com almoço, curso de degustação, curso de culinária.

Para nossa grata surpresa, ao chegarmos na vinícola, fomos recebidos pela Maísa Mendonça (e-mail para reservas em português: maisa@gruaud-larose.com), uma simpática mineira há anos radicada na França (mencionei que o site do Château tem versão em português do Brasil!?).

Percorremos a propriedade, observando os diversos estágios da elaboração dos vinhos. Além da belíssima cave, o ponto alto da visita é a subida (de elevador ou de escada, dependendo da disposição do visitante) à moderna torre de observação construída recentemente na propriedade. A torre proporciona uma vista de 360 graus dos vinhedos e das propriedade adjacentes.
 
Encerramos a visita com uma bela degustação: um elegante Château Gruaud Larose 1999, e um o Sarget de Gruaud Larose 2000, ambos ainda com vida longa pela frente.


Quando em Bordeaux, uma visita imperdível! Santé!

segunda-feira, 6 de março de 2017

Bien Nacido Vineyards – Um dos Grand Crus da Califórnia


Embora a noção de terroir nos países do novo mundo não seja, até mesmo por razões históricas, tão forte como em países como a França, já faz alguns anos que esse cenário vem mudando. Os apreciadores vêm buscando vinhos que reflitam o local de origem, com identidade própria, fugindo de produtos homogeneizados.

Bien Nacido Vineyards (no plural mesmo, embora seja um único e contíguo vinhedo) é um dos vinhedos históricos da Califórnia, tendo se tornado, ao longo dos anos, um ícone da prestigiosa AVA (American Viticultural Area) de Santa Maria Valley, no condado de Santa Barbara.

Bien Nacido se beneficia da topologia única da região de Santa Barbara, onde as cadeias de montanhas têm um eixo oeste-leste em contraposição ao eixo norte-sul da cadeias de montanhas do resto da Califórnia e dos demais Estados da costa oeste norte-americana, possibilitando, assim, a entrada da brisa fria do Pacífico.

Por esta razão, o vinhedo Bien Nacido é praticamente um semideserto com influência marítima, um dos vinhedos mais frios do mundo. A região é encoberta por nevoeiros pela manhã e recebe brisas marítimas pela tarde, um clima propício para variedades como Pinot Noir e Chardonnay.

Por conta da reconhecida qualidade de suas uvas, desde a década de 1980 produtores já ostentavam em seus rótulos a designação Bien Nacido Vineyards.

A propriedade na qual se localiza o vinhedo Bien Nacido foi adquirida pela família Miller em 1969, não havendo, na época, vinhas ali plantadas. A intenção inicial dos Millers não era plantar vinhedos mas batatas e frutas

Foi no início da década de 1970 que os Millers decidiram cultivar vinhedos. Nos primeiros anos, tentaram cultivar Cabernet Sauvignon e outras uvas mais propícias a climas mais quentes mas sem grande sucesso.
 
É na década de 1980 que ocorre a grande guinada do Bien Nacido. Nessa época, os Millers, atentos ao clima frio do local e à longa época de colheita, perceberam o potencial para o plantio de outras uvas, como a Pinot Noir, a Chardonnay e a Syrah, abandonando a Cabernet Sauvignon.

Os Millers estabeleceram parceria com a University Of California – Davis e receberam diversas de suas vinhas de lá, muitas plantando sem enxerto de uvas não viníferas. Hoje, Bien Nacido fornece diversas mudas para outros vinhedos, tendo se tornado uma referência.

Também é na década de 1980, por razões comerciais, que os Millers desistem da Riesling e da Gewürtztraminer, apesar de apresentarem bons resultados.

Nessa mesma época os Millers decidem não mais vender suas uvas a granel para grandes produtores de Napa, Sonoma, dentre outras regiões. Passam a ver o futuro não apenas do Bien Nacido Vineyards mas de toda a região em vinhos elaborados em pequenas quantidades por enólogos talentosos. Em suma, apostam na própria noção de terroir.

Em um verdadeiro desprendimento, os Millers passam a apoiar jovens e florescentes enólogos (hoje com um trabalho consagrado e reconhecido) como, por exemplo, Bob Lindquist (Qupé), Jim Clendenen (Au Bon Climat) e Adam Tolmach (Ojai Vineyards).

As relações eram mais pessoais do que propriamente comerciais e, ainda hoje são assim.
Apenas para se ter uma ideia Bob Lindquist (Qupé) e Jim Clendenen (Au Bon Climat), mantêm suas instalações em comum dentro do Bien Nacido Vineyards, em uma clara demonstração de reconhecimento por sua contribuição ao próprio prestígio do vinhedo.

Atualmente, o Bien Nacido possui entre 600 a 800 acres de vinhas plantadas, das quais cerca de 200 com Pinot Noir, 190 com Chardonnay e 40 com Syrah. Há ainda alguns acres, muitos experimentais, com vinhas de Marsanne, Rousanne, Grenache, Mourvèdre Viognier, Nebbiolo, Refosco, Tocai Friulano, Pinot Blanc, Pinot Gris, Merlot e Petit Verdot.

Hoje os Millers também passaram a produzir seus próprios vinhos a partir do Bien Nacido Vineyards, bem como de outro célebre vinhedo de sua propriedade na região, o Solomon Hills Vineyards.

Há mais de três dezenas de produtores que elaboram vinhos com uvas do Bien Nacido Vineyards, existindo uma lista de espera para novos produtores.

Cada produtor arrenda suas respectivas parcelas do vinhedo, indicando e orientando a forma de cultivo, poda colheita etc. Vários produtores colocam em seus rótulos menções às respectivas parcelas (blocks), de forma muito similar aos climats na Borgonha, até como forma de demonstrar as nuances existentes entre parcelas de um vinhedo tão extenso.

Após degustar diversos vinhos do Bien Nacido Vineyards, de produtores diversos, com uvas diferentes e de diferentes parcelas (Pinot Noir, Chardonnay, Syrah, Viognier, Rousanne, Grenache), a conclusão a que se chega é simples: o vinhedo é sinônimo de qualidade. 

E, depois de conhecer o local e de degustar diversos vinhos na companhia de Bob Lindquist (Qupé) e Jim Clendenen (Au Bon Climat) -o que será objeto de futuro post - posso dizer que os vinhos são mágicos e especiais.

Cheers!