terça-feira, 30 de agosto de 2016

Domaine Chapuis – Visita e Degustação


Recentemente, tive a oportunidade de degustar um Grand Cru branco de uma das minhas AOCs (appellation d'origine contrôlée) preferidas da Borgonha, Corton-Charlemagne.

Conta-se que a imperatriz de Carlos Magno cansada de ver a barba branca de seu marido manchada de vinho tinto, lhe sugeriu que mandasse plantar apenas uvas brancas (na época não necessariamente Chardonnay) no vinhedo preferido do monarca em Corton, nascendo assim o célebre Grand Cru.

O vinho em questão era um elegante e ainda jovem Domaine Chapuis Corton-Charlemagne 2008, produtor que tivemos a oportunidade de visitar em novembro do ano passado.

Após visitar alguns célebres e consagrados Domaines em Beaune (relembre aqui e aqui), tivemos a oportunidade de degustar os vinhos da Domaine Chapuis em sua pequena cave subterrânea no vilarejo de Aloxe-Corton (a pronúncia na Borgonha é diversa de outros locais da França e o “x” deve ser pronunciado como dois “ss”, Alosse-Corton).

Nossa intenção era conhecer um pequeno produtor, e seguindo a dica de um amigo, decidimos pela Maison Chapuis, em especial por produzir um Grand Cru branco e outro tinto.

Ligamos e agendamos a visita diretamente com o proprietário, o simpático Monsieur Maurice Chapuis, que além de produtor de vinhos, é também prefeito da pequena Aloxe-Corton e ex-jogador de futebol.

Assim, em um agradável final de tarde, aprendemos sobre a história da vinícola, que remonta ao ano de 1850 e que começou com apenas um hectare de vinhas. Conhecemos também a história do avô e homônimo do Monsieur Maurice Chapuis, e sua importante participação ainda na primeira metade do século XX na regulamentação de algumas das AOCs locais.

Na ocasião, degustamos os seguintes vinhos do Domaine Chapuis: Bourgogne Aligoté 2011, Chorey-lès-Beaune 2010, Corton-Charlemagne Grand Cru 2008 (brancos),  Aloxe-Corton 2011, Savigny-lès-Beaune 2011, Aloxe-Corton 1er Cru 2012, e Corton-Perrières Grand Cru – 2012 (tintos), com destaque para o Corton-Charlemagne, os dois Aloxe-Corton e o estupendo Corton-Perrières.

Tivemos ainda a oportunidade de aprender mais sobre a história de cada uma das AOCs e as características dos respectivos vinhos degustados.

Uma bela experiência!

Santé!


domingo, 31 de julho de 2016

Descobrindo Washington – Seattle e Woodinville

Já faz alguns anos que venho provando vinhos de Washington que (quase) sempre me impressionam pela alta qualidade aliada a bons preços, não importando a faixa.

Com o passar do tempo, me tornei um grande fã dos vinhos desse Estado do noroeste norte-americano, e que não deve ser confundido com a capital Washington D.C.. 

E a curiosidade de explorar as sub-regiões de Washington e provar in loco seus vinhos surgiu e foi aumentando... Assim, juntamente com minha família, visitei recentemente Washington e diversas sub-regiões vitivinícolas, aproveitando também para uma incursão ao Estado vizinho do Oregon.

Como mencionamos em post anterior, a parte oeste do Estado se caracteriza por florestas de pinheiros e montanhas cobertas de neve, com um clima bem frio, contando apenas com uma AVA (American Viticultural Aerea), Puget Sound, de pouca importância.

As demais, e principais, áreas vinícolas se encontram no leste do Estado, separado do oeste pelas cadeias de montanhas Cascade e Olympics, possuindo um clima seco, quase desértico e com baixo índice pluviométrico.

No entanto, muitas vinícolas mantêm suas sedes na parte oeste, perto de Seattle, principalmente em Woodinville (a apenas meia hora do centro de Seattle), por razões históricas: nos primórdios da produção de vinho em Washington, nas décadas de 1960 e 1970, não havia infraestrutura adequada no longínquo leste do Estado. Já outras vinícolas mais novas, mantêm tastings rooms no oeste, principalmente em Woodinville. Trata-se de uma estratégia de promoção e venda de seus vinhos, já que a maior parte da população do Estado reside na economicamente pujante parte oeste do Estado (Boeing, Microsoft, Nordstrom, Starbucks e Amazon são apenas algumas companhias com sede na região).

Iniciamos, assim, nossa jornada por Seattle, uma bela metrópole com uma linda paisagem, bons museus e interessante cena gastronômica. Além dos clássicos programas turísticos (visitas à Space Needle com direito a almoço no restaurante giratório, Pike Market, Museu de História Natural etc), visitamos ainda duas Urban Wineries em Seattle e uma vinícola em Woodinville.

A primeira vinícola que visitamos foi a Lost River Winery. Fundada em 2002, a vinícola produz diversos vinhos a partir de vinhedos de parceiros, muitos reconhecidos por sua altíssima qualidade como, por exemplo, o Pepper Bridge Vineyard em Walla Walla. Sua sede, e onde são produzidos seus vinhos, se localiza na pequena cidade de  Winthrop, no oeste do Estado. A vinícola mantém um Tasting Room em Seattle (2003 Western Avenue #100) pertinho do Pike Market.

Lá tivemos um belo panorama dos vinhos de Washington, inclusive provando vinhos de varietais pouco usuais no Estado. Provamos os seguintes vinhos da Lost River Winery: 2013 Columbia Valley Chardonnay, 2013 Columbia Valley Rain Shadow (60% Semillion, 40% Sauvignon Blanc), 2012 Horse Heaven Hills Barbera, 2012 Wahluke Slope Nebbiolo, 2011 Columbia Valley Cedarosa (45% Cabernet Franc, 55% Merlot), 2012 Columbia Valley Cabernet Sauvignon e 2011 Walla Walla Valley Syrah. Destes, nossos preferidos foram os dois brancos e o potente Cabernet Sauvignon, de uma das melhores safras recentes de Washington.
A segunda Urban Winery visitada foi a The Tasting Room Seattle, também nas cercanias do Pike Market (1924 Post Alley), e que não é propriamente uma vinícola, mas sim um cooperative tasting cellar, isto é, um local mantido por diversos pequenos produtores de Washington para apresentar e promover seus vinhos de produção limitada.
 
Seguindo os conselhos do atendente, optamos por degustar vinhos de produtores variados. Provamos quatro vinhos: NHV 2013 Naches Heights Pinot Gris Strand Vineyard, Willis Hall 2012 Viognier Columbia Valley, Camaraderie Cellars 2009 Yakima Valley Tempranillo e, por fim e o que gostamos mais, Wilridge Winery 2013 Wahluke Slope Cabernet Sauvignon Doc Stewart VIneyard. 

Dois dias depois, visitamos em Woodinville (a apenas meia hora do centro de Seattle) a tradicional e gigante Chateau Ste. Michelle.

Trata-se não apenas do maior grupo vinícola de Washington, e um dos maiores dos Estados Unidos (Columbia Crest, 14 Hands, Northstar juntamente com Eroica e Col Solare, parcerias respectivamente com o especialista alemão em Rieslings Dr. Loosen e com a tradicional família Antinori, são as demais vinícolas que compõem portfólio do grupo apenas em Washington), mas uma vinícola pioneira.

Em 1962, com consultoria do célebre enólogo californiano André Tchelistcheff e do especialista em vinhos Leon Adams, surgiu a Associated Vintners, formada por professores da University of Washington e por enólogos amadores, originando posteriormente as vinícolas Columbia Winery e American Wine Growers. Esta posteriormente foi rebatizada como Chateau Ste. Michelle.

O Chateau Ste. Michelle possui um belo centro de recepção de visitantes. Normalmente há tours gratuitos de hora em hora, sendo cobradas apenas as degustações. A loja também é um capítulo a parte com praticamente todos os rótulos da vinícola alguns à venda somente ali, e outros de variadas safras, como os vinhos ultra premium da linha Artist Series (relembre aqui), e também do projeto Eroica.

Em nossa visita degustamos os seguintes vinhos do Chateau Ste. Michelle: 2014 Columbia Valley Pinot Gris (com a curiosa menção no rótulo 100% Vinifera Rootstock, ou seja, vinhas sem enxerto de vinhas não viníferas com forma de proteção contra a filoxera); 2012 Austral White Columbia Valley (58% Roussanne, 32% Marsanne e 10% Viognier); 2013 Mimi Chardonnay Horse Heaven Hills; 2012 Cold Creek Vineyard Chardonnay Columbia Valley; 2011 Ethos Reserve Merlot Columbia Valley e 2011 Ethos Reserve Syrah Columbia Valley. Dias depois degustamos ainda um 2011 Ethos Reserve Cabernet Sauvignon Columbia Valley. Comprovamos a versatilidade dessa tradicional vinícola, com vinhos muito bem elaborados, dos quais apreciamos mais os tintos monovarietais da linha Ethos e o Mimi Chardonnay.

Se você não tem disponibilidade de viajar até o leste de Washington, com certeza Seattle e Woodinville podem atender à curiosidade de qualquer enófilo.

Cheers!

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Paradigm, uma Jóia de Oakville


Degustar um vinho quase sempre é um prazer, porém quando degustamos um vinho de uma vinícola que visitamos (e adoramos) a experiência é ainda mais agradável. É como se fossemos transportados no tempo e no espaço, relembrando com grande nitidez aquele momento especial. A nostalgia acaba por influenciar a degustação, tornando-a mais subjetiva do que objetiva, e, com certeza, ainda mais prazerosa.

Essa semana isso ocorreu mais uma vez comigo e com minha esposa. Degustamos um Paradigm Zinfandel 2011, e imediatamente fomos transportados ao passado e nos vimos em Napa Valley uma vez mais.

A Paradigm Winery nos foi apresentada em 2011, em um jantar no Tra Vigne, um clássico restaurante de Napa, mais especificamente em St. Helena. Naquela oportunidade bebemos, após um dia de degustações, uma meia garrafa do Paradigm Cabernet Sauvignon 2006, que muito nos impressionou. Infelizmente, não conseguimos, naquela viagem, visitar a vinícola, embora tenha trazido comigo duas garrafas do  que havíamos degustado (relembre aqui).

Depois daquele dia, sempre que viajámos aos Estados Unidos acabávamos por provar uma nova safra do Paradigm Cabernet Sauvignon.

Anos depois, indo mais uma vez à Napa, obviamente, uma das vinícolas em nossa lista era a Paradigm Winery.

A Paradigm Winery se localiza em Oakville, uma das mais prestigiosas AVAs (American Viticultural Area) de Napa, e berço de alguns dos melhores Cabs da Califórnia.

Fundada pelo casal Ren e Marilyn Harris, a vinícola iniciou suas operações em 1976, inicialmente limitando-se a vender suas uvas a outras vinícolas da região, o que ainda ocorre hoje com uma parte de sua produção (Groth, Nickel & Nickel e Far Niente são alguns dos compradores).

Posteriormente, em 1991, a Paradigm lançou seus primeiros vinhos, tendo como enólogo o talentoso Heidi Peterson Barrett, desde então.

A Paradigm Winery possui cerca de 55 acres de vinhedos plantados em Oakville, com Cabernet Sauvignon, Merlot, Zinfandel e Cabernet Franc. A curiosidade está na Zinfandel - uma cepa raramente plantada em Oakville -produzindo, no entanto, um dos melhores Zinfandels que já degustei.

Além de seu vinho ícone, o Cabernet Sauvignon, e do elegante e surpreendente Zinfandel, a Paradigm produz também um Rosé of Merlot, um Merlot e um Cabernet Franc.

Em nossa visita, após conhecer as instalações da Paradigm e visitar os vinhedos, tivemos a oportunidade de provar todos os vinhos da Paradigm, de acordo com a safra corrente disponível.
 
Degustamos, na bela salão de degustações da Paradigm com as montanhas Macacadas ao fundo, o Paradigm Rosé of Merlot 2013,  o Paradigm Merlot 2011, o Paradigm Cabernet Franc 2011, o Paradigm Zinfandel 2011 e o Paradigm Cabernet Sauvignon 2010, todos de altíssima qualidade, sendo os dois últimos os nossos preferidos.

Importante lembrar que a vinícola somente aceita visitas com agendamento prévio, e aconselhamos estabelecer contato com alguma antecedência.

Outro ponto curioso, porém importante para os visitantes, é que a Paradigm fica em uma via secundária da Highway 29, a Dwyer Road com uma placa logo no início com o aviso de “No Wineries This Road”!?!?

Infelizmente, os vinhos da Paradigm, com exceção do Cabernet Sauvigon, têm pequena produção, sendo difíceis de encontrar fora da vinícola (embora não impossível, visto já tê-los encontrado em uma filial da Total Wine e na Wine Exchange).
 
Vale destacar que por cerca de US$ 60 o Paradigm Cabernet Sauvignon apresenta uma excelente relação custo-benefício quando comparado com outros Cabs  de Napa, principalmente da prestigiosa apelação de Oakville (só para se ter uma noção, as prestigiosas Harlan e Opus One têm seus vinhedos ali pertinho).

Cheers!

terça-feira, 31 de maio de 2016

Ciel du Cheval, o Grand Cru de Washington


A identificação do vinho pela uva e não pelo local foi uma das maneiras encontradas pelos produtores do chamado "novo mundo" para desmistificar o vinho junto aos consumidores.  Essa fórmula, inventada pelos norte-americanos no decorrer dos anos 1970, passou a ser amplamente empregada por produtores de países do novo mundo.

Não há dúvida de que essa fórmula de identificação do vinho ajudou a formar novos consumidores e enófilos, mostrando-se extremamente útil em países cuja tradição vitivinícola era recente.

Essa fórmula, contudo, acabou propiciando uma homogeneização do vinho, passando os consumidores a escolher pela cepa - não raro sem considerações mais atentas sobre o local de origem, considerando,no máximo,  as denominações maiores ou os produtores mais conhecidos.

No entanto, com o passar dos anos e uma maior educação dos apreciadores de vinhos, esse cenário no novo mundo vem mudando, com consumidores buscando vinhos que reflitam o local de origem, o terroir.

Há, assim, uma forte tendência em se destacar o local de origem do vinho, com um aumento em países do novo mundo de denominações de origem e seus equivalentes (por exemplo, no Chile, as divisões de alguns vales em até três microrregiões, Andes, Entre Cordilleras e Costa), destacando cada vez mais as particularidades do terroir local.

Seguindo essa tendência, houve um drástico aumento no número de AVAs (American Viticultural Area) nos Estados Unidos nas últimas décadas, inclusive com a criação de AVAs dentro de outras AVAs, como, por exemplo, Red Mountain em Washington inserida dentro da AVA Yakima Valley, a qual, de seu turno, está inserida na AVA Columbia Valley (sobre AVAs e terroir na Califórnia leia aqui e aqui). Esse movimento, apesar das descabidas críticas de que confundiria o consumidor de vinhos, se mostra primordial para o fortalecimento de uma identidade cultural-vinícola e construção da própria noção de terroir.

Dentro desse contexto, diversos produtores na Califórnia, Washington e Oregon têm ido além e destacado em seus rótulos não apenas a denominação de origem (a American Viticultural Aerea) mas também o nome do vinhedo, isso sem olvidar em destacar a cepa ou as cepas com que elaborado o vinho.

Esse destaque do vinhedo no rótulo do vinho tem inspiração clara nos crus franceses, sobretudo de regiões como Bourgogne, Alsace e Champagne, em especial a primeira. Claro que sem qualquer sistema oficial de classificação como ocorre nas regiões francesas mencionadas.

Em poucos casos chega-se até mesmo a indicar parcela específica do vinhedo, os blocks, o que muito se assemelha aos Climats em relação aos vinhedos Premier e Grand Cru da Bourgogne.

Em suma, a indicação de vinhedos em vinhos americanos merece ser conhecida, até porque pode ser mais um guia na hora da escolha de vinhos em viagens aos Estados Unidos, mormente quando diante de inúmeras opções e pouca disponibilidade de espaço na bagagem.

Em Washington, a segunda maior região produtora de vinhos dos Estados Unidos, reconhecida pela excelente relação qualidade-preço (leia mais aqui), o vinhedo Ciel du Cheval é um dos mais renomados e reconhecido pela alta qualidade de seus vinhos.

Embora o nome nos remeta à vizinha AVA Horse Heaven Hills, o vinhedo Ciel du Cheval está localizado no centro de Red Mountain, AVA datada do ano de 2001 e a menor do Estado de Washington.

O vinhedo foi estabelecido em 1975 e, desde então, tem fornecido uvas para diversos produtores (Fidelitas, Seven Hills Winery, Mark Ryan, Betz Family, Cadence, Andrew Will etc...) que possuem contratos para fornecimento de uvas oriundas do vinhedo. Daí porque podemos encontrar vinhos elaborados a partir de uvas do Ciel du Cheval de diferentes vinícolas, muitas sequer localizadas em Red Mountain, como a Seven Hills Winery (um dos meus preferidos). Desde 2012 os proprietários passaram a produzir vinhos próprios, somente com uvas do Ciel du Cheval, com o projeto Côtes de Ciel.
Ciel du Cheval possui 120 acres, dos quais 102 são de vinhas, 3 acres sem cultivo, e 15 acres com estradas e edificações diversas.

O vinhedo é dividido em 36 parcelas, com medida de 2,84 acres, cada qual com seu próprio planejamento no que tange à exposição e à orientação das vinhas, planejamento de irrigação etc... No entanto, cultivo mecânico, não utilização de herbicidas, e colheita manual são práticas comuns em todo o vinhedo.

Há diversas variedades plantadas no Ciel du Cheval, tais como Barbera, Cabernet Franc, Cabernet Sauvignon, Cunoise, Grenache, Merlot, Mourvédre, Nebbiolo, Petit Verdot, Pinot Gris, Roussanne, Sangiovese, Syrah e Viognier.

Os vinhos elaborados com a Cabernet Sauvignon, sejam varietais, sejam cortes bordaleses, e os elaborados com a Syrah são incríveis e de uma elegância única, os meus preferidos.

O que poucos sabem é que o reconhecimento da alta qualidade das uvas do vinhedo Ciel du Cheval se deve também ao fato de suas uvas terem sido utilizadas nos blends de cult wines de Washington, como os Quilceda Creek 2002, 2003 e 2005, os primeiros vinhos do Estado a receberem 100 pontos do crítico Robert Parker, trazendo fama à região.

Quando se deparar com uma garrafa de um vinho elaborado com uvas do vinhedo Ciel du Cheval, não hesite e não perca a oportunidade.

Cheers!

sábado, 30 de abril de 2016

Maison Louis Jadot – Visita e Degustação


A Maison Louis Jadot é uma das casas mais tradicionais da Borgonha, reconhecida por enófilos do mundo todo pela alta qualidade de seus vinhos.

Embora fundada em 1859, a história da vinícola remonta ao ano de 1826 quando a família Jadot comprou o Clos des Ursules, seu primeiro vinhedo, atuando como vignerons até 1859, ano em que passaram a produzir vinhos.

A Maison Louis Jadot produz diversos vinhos das mais variadas AOCs (Appellation d'Origine Contrôlée) da Borgonha, desde os vinhos regionais até premier crus e grand crus. Também produz vinhos a partir de crus de Beaujolais (região geopoliticamente inserida na Borgonha).

A Louis Jadot elabora vinhos tanto a partir de seus próprios vinhedos quanto com uvas compradas de outros vignerons, com os quais mantém longa e estreita relação, inclusive na forma de manejo dos vinhedos. Dessa forma, a Maison controla cerca de 270 hectares de vinhedos na Borgonha, incluindo Beaujolais, com uma longa lista de vinhedos (ou parcelas de vinhedos, como usualmente ocorre na Borgonha).

A alta qualidade dos vinhos da Maison Louis Jadot, desde os Grand Crus até os vinhos de apelação regional, decorre da filosofia da casa, presente desde sua fundação: igual importância a todos os vinhos produzidos buscando a máxima expressão de cada terroir. Essa filosofia se traduz nos rótulos de seus vinhos, sempre com a cabeça do deus grego Bacchus, um sinal de preocupação com a qualidade dos vinhos, seja um mais simples, seja um Grand Cru.

Atualmente, a Maison Louis Jadot é controlada pela família Koch, prévios importadores nos Estados Unidos dos vinhos da Maison. A vinícola é gerenciada por Pierre-Henri Gagey, e o enólogo-chefe é Jacques Lardière, um dos nomes mais respeitados da Borgonha e responsáveis pelos vinhos da Louis Jadot desde 1970.
 
Em recente viagem à Borgonha tivemos uma incrível experiência, uma visita particular à Maison Louis Jadot, uma das casas mais tradicionais da Borgonha.

Recebidos pelo simpático monsieur Olivier Masmondet, tivemos uma verdadeira aula teórica e prática sobre a Borgonha e seus vinhos.

Percorrendo as belas e modernas instalações da Maison Luois Jadot, situada no caminho para Savigny-lès-Beaune, aprendemos não apenas a história e filosofia da vinícola, mas também a hierarquia dos vinhedos na Borgonha, até noções de climat e lieu-dit (conceitos complexos, com controvérsias, e que merecem um post próprio).
 
  nossa “aula” prática foi algo único. Por vezes já havia degustado vinhos diretamente da barrica. Dessa vez, porém, foi bem diferente.

Percorrendo a sala de barricas, escutávamos atentamente as explicações apaixonadas do monsieur Masmondet sobre os diferentes vinhos, suas características, seus detalhes decorrentes das safras... E parávamos e degustávamos alguns dos vinhos, sempre premier crus ou grand crus, todos retirados diretamente das barricas, comparando-os (um Clos Vougeot 2014 com um 2015; um Puligny-Montrachet e um Chassangne-Montrachet) e trocando impressões.

Assim passamos algumas horas, provando pouco mais de uma dezena de vinhos (Clos Vougeot 2014, Clos Vougeot 2015, Puligny-Montrachet Folatieres 2014, Chassangne-Montrachet Morgeot 2014, Gevrey-Chambertin Combe Aux Moines 2014, Chambolle-Musigny Sentiers 2014, Meursault Genévriers  2014, Corton-Charlemagne 2014, Vosne Romanée Beaux Monts 2014, Nuits-Saint-Georges Boudots 2014 e Échézeaux 2015), e aprendendo in loco sobre o incrível, rico e complexo mundo dos vinhos da Borgonha.
 
Encerramos a visita na loja da Maison Louis Jadot, onde além da possibilidade de degustação, pode-se comprar diversos rótulos de safras variadas. Realmente uma festa para qualquer amante de vinhos!

Santé!

domingo, 20 de março de 2016

Dica de Livro: Vinho Fino Brasileiro

Costumo dizer que não há um mundo do vinho, mas diversos mundos. Cada país, cada região, apresenta sua própria lógica, seus próprios hábitos que vão desde a forma como o consumidor local interage com o vinho (harmonizações, os vinhos que usa como aperitivo, para iniciar uma refeição ou para encerrar etc...), a maneira como se adquire os vinhos domésticos (clubes locais, lojas, compras diretamente das vinícolas), passando pelo enoturismo, até a produção em si (técnicas utilizadas, as uvas em si etc...).

Para entender o ponto de vista do enófilo local, busco sempre revistas, guias, livros locais  especializados. Junto com a visita do local em si, é uma excelente forma de mergulhar em um novo mundo do vinho.

No Brasil, sempre me ressenti de não houvesse uma obra que apresentasse um amplo e detalhado panorama da indústria do vinho fino brasileiro (no Brasil, utiliza-se o termo “vinho fino” para vinhos elaborados com uvas vitis vinífera em contraposição aos “vinhos de mesa” elaborados com outras variedades como as vitis labrusca). 

Entretanto, há algumas semanas me deparei com o livro Vinho Fino Brasileiro, do especialista e professor da Fundação Getúlio Vargas Rogerio Dardeau, e publicado pela Mauad X. Já havia lido, muitos anos antes, Vinhos – Uma Festa dos Sentidos do mesmo autor e não relutei em comprar seu novo livro, lido em apenas alguns dias.

Vinho Fino Brasileiro apresenta o atual estágio do vinho brasileiro, sem descuidar em contar os primórdios da indústria vitivinícola nacional, traçando um acurado panorama histórico. Além do aspecto histórico, são apresentadas ao leitor as práticas e uvas utilizadas, as regiões produtoras (mesmo as menos conhecidas), e até mesmo sugestões de harmonizações com pratos da culinária brasileira.

Por outro lado, o livro apresenta a sistemática legal brasileira sobre o tema, detalhando e simplificando-a para o leitor, com destaque para as modalidades de indicações geográficas (Denominação de Origem – DO, e Indicação de Procedência - IP).

No entanto, a grande contribuição de Rogerio Dardeau reside nas sugestões de conceitos e de sistematização do vinho nacional e os respectivos terroirs. Dentre os conceitos apresentados, o de “vinho brasileiro de terroir” (VBdT) é o grande destaque, em nossa humilde opinião. Já na sistematização, a proposta do autor em classificar os produtores (“Vinícolas tradicionais de grande porte”, “Vinícolas tradicionais de médio porte”, Vinícolas tradicionais de pequeno a médio portes”, “Vinícolas-butique”, “Vinhos de autor ou de garagem” e “Grandes investimentos vitivinícolas do Vale do Rio São Francisco”) permite ao leitor se situar com segurança no amplo cenário do vinho nacional, mostrando-se uma importantíssima contribuição ao tema.

Vinho Fino Brasileiro serve ainda de guia ao enófilo em suas compras ou viagens, listando, senão todas, quase todas as vinícolas em atividade no país, contando um pouco das história de cada uma (em viagem ao Vale dos Vinhedos, RS, vi um visitante em uma vinícola consultando o livro enquanto degustava).

Uma obra essencial à biblioteca de qualquer enófilo, mostrando a grande revolução em curso no mundo do vinho brasileiro. Saúde!

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Montgras – Elaborando Nosso Próprio Vinho no Chile


Um dos sonhos dos apaixonados por vinhos é elaborar seu próprio vinho, algo muitas vezes inatingível, pois, por óbvio, adquirir uma vinícola exige grande volume de recursos financeiros. A outra forma de elaborar um vinho seria se tornar enólogo, o que exige anos e anos de estudos, ou seja, se entregar a uma nova profissão.

No entanto, já há vinícolas no Brasil, no Chile e nos Estados Unidos, dentre outros países, que oferecem a possibilidade a seus visitantes de se tornarem enólogos por um dia, elaborando seu próprio assemblage.

Recentemente, em visita ao Chile, tivemos a oportunidade de participar do programa “Faça Seu Próprio Vinho” (“Haz Tu Proprio Vino”) oferecido na vinícola Montagras.

Fundada em 1993 pelos irmãos Hermán e Eduardo Gras junto com Cristián Hartwig, a Montgras conta com vinhedos nos vales de Maipo, Colchagua e Leyda, produzindo diversos rótulos entre brancos e tintos.

A sede da Montgras se situa no vale de Colchagua, oferecendo diversos programas de enoturismo com forte vocação didática, desde a tradicional visita aos vinhedos e às instalações com degustação, até degustações às cegas, degustações harmonizadas, participação na colheita, e o programa “Haz Tu Proprio Vino”.

O programa se inicia com uma visita aos vinhedos, onde aprendemos de forma extremamente didática a identificar as diferentes uvas por suas folhas, sem sombra de dúvida, um dos pontos altos da visita.

Na sequência, o tradicional tour pelas instalações, com explicações sobre o processo de elaboração do vinho da colheita até o engarrafamento e repouso.

Após, o momento mais esperado! Na cave subterrânea da vinícola os aprendizes de enólogo recebem o material e as instruções para elaboração de seu próprio vinho. Além dos aventais, cada um recebe diversas quatro taças e um tubo de 100ml. Em cada uma das três primeiras taças recebemos vinhos reservas das variedades Cabernet Sauvignon, Merlot e Carménère, todos servidos de garrafas Jeroboam (3 litros).

Em seguida, começam os “experimentos”. Primeiro, misturando-se os vinhos no “tubo de ensaio” e provando o resultado na quarta taça. Sempre anotando os percentuais.

Definido o assemblage, cada participante coloca os respectivos percentuais em um tubo de ensaio de 1 litro respeitando os 750ml.

Após realizado o corte, passa-se o vinho do tubo maior para a  garrafa de 750ml. Logo após, é a vez de colocar a rolha com auxílio de máquina própria e, depois, a cápsula.

Finalizado o engarrafamento do vinho, é só colocar o rótulo e o contra-rótulo com as informações sobre o assemblage escolhido e levar seu vinho (cada participante leva seu próprio vinho e o avental).

Importante destacar que se trata de programa para toda a família, e crianças são super bem-vindas e convidadas a participar do processo desenhando os rótulos e batizando os vinhos, além de ajudarem na colocação da rolha ou até mesmo a colocar os vinhos nos tubos. Os pequenos também recebem aventais e são recepcionados com queijinhos, biscoitos, dentre outras guloseimas, e sucos (de uva, claro).


Uma bela experiência para toda a família! Salud!