segunda-feira, 29 de maio de 2017

Château Cheval Blanc – Conhecendo um mito

Château Cheval Blanc. Um dos mais lendários vinhos do mundo, ocupando o ápice da classificação de vinhos de Saint-Émillion desde sua criação em 1955 (Premier Grand Cru Classé A). A mera menção de seu nome já é o suficiente para gerar expectativa em qualquer enófilo. Degustar uma de suas safras é sempre uma experiência singular. Visitar a propriedade, então, é uma daquelas experiências únicas e inesquecíveis.

Foi esse sentimento que tomou conta de mim em uma tarde fria e ensolarada de novembro ao me aproximar dos portões do Château Cheval Blanc. Já havia tido o privilégio de degustar algumas poucas e inesquecíveis safras do Château Cheval Blanc, e que me vinham à mente conforme ultrapassava os portões da propriedade.

A história do Château Cheval Blanc remonta ao ano de 1832. Nesse ano, a família Ducasse adquiriu parte da atual propriedade do Château Figeac, que pertencia à Condessa Felicité de Carle-Trajet. Até então essa parte da propriedade era chamada de Le Barrail de Cailloux.

Naquela época o Château Figeac possuía 200 hectares e a Condessa decidiu vender partes da propriedade, contribuindo para a criação de diversas vinícolas. Isso explica a razão de diversas propriedades manterem o nome Figeac (e.g. Château La Tour Figeac, Château La Tour du Pin Figeac, Château Yon Figeac).

Posteriormente, em 1838, a família Ducasse adquiriu mais parcelas do Château Figeac, o que é hoje a maior parte da propriedade.

Em 1852 Mille Ducasse casou-se com Jean Laussac-Fourcaud, e o dote de Mille Ducasse incluía os vinhedos Château Cheval Blanc.
A família Laussac-Fourcaud construiu o château, sendo esse edifício até hoje utilizado. E continuou, nos anos seguintes, a adquirir vinhedos contíguos, aumentando o tamanho do da propriedade. Em 1871, o Château Cheval Blanc possuía um total de 39 hectares de vinhedos em Saint-Émilion, permanecendo com esse tamanho até hoje.

Nos primeiros anos, os vinhos do Château Cheval Blanc eram vendidos como Château Figeac. No entanto, à medida em que recebiam prêmios, o vinho passou a ostentar um rótulo com o nome Château Cheval Blanc, fazendo jus às medalhas que recebia.

Na primeira metade do século XX, o Château Cheval Blanc produziu vinhos de altíssima qualidade, aumentando sua reputação, inclusive o mítico Château Cheval Blanc 1947, que muitos apontam como um dos melhores vinhos já elaborados.

Em 1998, o Château Cheval Blanc foi comprado por Bernard Arnault e pelo Barão Albert Frère, passando a propriedade a ser gerida por Pierre Lurton.

Posteriormente, em 2009, o grupo LVHM adquiriu a parte de Bernard Arnault na propriedade.

Em 2011, com projeto do célebre arquiteto e ganhador do Pritzker Architecture Prize Christian de Portzamparc, o Château Cheval Blanc encerrou uma ampla e completa reforma. A reforma incluiu um moderno edifício com nova adega, sala de vinificação com novos tanques, nova área de degustação e novo projeto de paisagismo dos jardins.

Embora o novo edifício possua linhas arquitetônicas modernas e arrojadas, há harmonia com paisagem do local, inclusive com o antigo Château, não ofuscando este, nem se destacando em demasia, talvez até mesmo por estar um pouco abaixo de uma colina. Dali temos belas vistas da paisagem não apenas de Saint-Émillion, mas também da vizinha Pomerol.

Nas novas instalações foram construídos os novos tanques de concreto, projetados especialmente para o Château Cheval Blanc a partir das orientações técnicas da equipe de Pierre Lurton. Os vinhos de cada variedade e da cada parcela dos vinhedos são vinificados separadamente em seus respectivos tanques de concreto, que variam de tamanho.

Iniciamos nossa visita pelos vinhedos, e ali aprendemos muito sobre o privilegiado e único terroir do Château Cheval Blanc.

A propriedade, como dito, possui 39 hectares de vinhedos plantados, com três tipos diferentes de solos. Embora os vinhedos sejam contíguos, não há uma uniformidade de solo, justamente o que aporta mais complexidades aos vinhos. 40% dos vinhedos possuem solos profundos com cascalho e uma multiplicidade de tipos de argila, incluindo a famosa argila azul - que dizem ser um dos segredos desse notório vinho. 20% consistem em argila arenosa com depósitos de ferro. Já os 40% restantes possuem solos profundos com cascalho. Importante destacar ainda dois pontos: a existências de cinco colinas de cascalho na propriedade com cerca de 38 metros de altura, bem como a proximidade da propriedade com a divisa com a AOC (Appellation d’Origine Contrôlée) vizinha de Pomerol, o que leva alguns especialista a dizer que o Cheval Blanc reflete um pouco do estilo da apelação vizinha (não obstante o predomínio quase total da Merlot nos vinhos desta última).
Os vinhedos do Château Cheval Blanc são divididos em 45 seções, cada um tratado como se fosse um vinhedo próprio em virtude das diferenças de solo, de idade das vinhas, da variedade, dentre outros fatores. Os vinhedos são compostos de 49% Cabernet Franc, 47% Merlot, 4% Cabernet Sauvignon. Já se chegou a ter 1% de Malbec, que, no entanto, não chegou a ser utilizado.

O assemblage do Grand Vin varia safra a safra, atendendo a especificidades destas, sendo certo que nas últimas safras há uma tendência de predomínio da Cabernet Franc

As vinhas da propriedade tem uma média de 45 anos de idade, embora haja vinhas mais antigas, cerca de 8 hectares de vinhas de Cabernet Franc plantadas na década de 1950 e algumas parcelas plantadas na década de 1920.

A equipe do Château Cheval Blanc, no entanto, utiliza as vinhas mais antigas para seleção de clones, um programa que começou em 1996 buscando manter a identidade dos vinhedos. 

Algo que realmente me surpreendeu foi a informação de que a equipe do Château Cheval Blanc não espera, durante a colheita, até que todas as frutas das vinhas de cada parcela alcancem um grau de madurez fenólica total, colhem-nas antes. O assemblage das diferentes uvas de parcelas distintas adiciona complexidade, frescor e aquele tom aveludado e profundo aos vinhos.
Continuando, visitamos as instalações da vinícola, conhecendo a sala das barricas e a sala dos novos tanques de cimento. 

Aprendemos que a vinificação dos vinhos do Château Cheval Blanc ocorre, como já mencionado antes, em 52 tanques de cimento, com tamanhos variados, onde a fermentação malolática ocorre. Posteriormente, é feito o assemblage, e os vinhos são envelhecidos em barricas novas de carvalho francês durante 18 meses.

Importante lembrar que o Château Cheval Blanc produz, desde a safra 1988, um segundo vinho, Le Petit Cheval, que é envelhecido em 50% de barricas novas de carvalho francês, correspondendo a metade da produção do Grand VIn. No entanto, em 1991, uma safra sofrível, apenas o Le Petit Cheval foi produzido. Já em 2015, pela primeira vez, apenas o Château Cheval Blanc foi produzido por conta da alta qualidade da safra (apenas uma parcela ínfima foi desclassificada). 

Também a partir da safra 2015, o Château Cheval Blanc, após quase uma década de experimentos, passou a produzir um vinho branco: Le Petit Cheval - Bordeaux Blanc

Trata-se de um Bordeaux Blanc produzido, incialmente, somente com a uva Sauvignon Blanc (há planos do uso de 20% de Sémillion a partir de 2018). As uvas são provenientes de um vinhedo defronte ao Château Cheval Blanc, do outro lado da estrada, e anteriormente pertencentes ao Château La Tour du Pin adquiridos faz alguns anos pela vinícola. 

Por conta das regras da AOC (Appellation d’Origine Contrôlée) Saint-Émillion não permitirem o uso de cepas brancas, o referido vinho é classificado com um Bordeaux branco genérico. Na verdade, a elaboração de vinhos brancos pelos grandes Châteaux de Bordeaux, em especial no Médoc, é um tendência relativamente recente e que, pelo visto, veio para ficar (note-se que não estamos nos referindo aos vinhos brancos secos de Graves, Pessac-Léognan ou Sauternes). 

Finalizando nossa visita, degustamos um Château Cheval Blanc 2011. Uma safra ofuscada pelas duas incríveis safras anteriores, porém mesmo assim uma safra clássica, com tempo seco (mas não excessivo) durante a época do amadurecimento, refletindo a filosofia da vinícola. Elaborado com 52% de Cabernet Franc, 47% de Merlot e 1% de Cabernet Sauvignon, apresentava um rubi profundo, opulento, com o aveludado, quase seda, característico desse vinho, com uma bela camada de frutas vermelhas e negras, demonstrando grande potencial de guarda. O retrogosto parecia interminável. Um vinho inesquecível!

Santé!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Château Gruaud Larose – Visita e Degustação

 Situado em Saint-Julien, uma das mais prestigiosas AOC (appellation d'origine contrôlée) de Bordeaux, o Château Gruaud Larose é uma das mais tradicionais propriedades da região, e classificada, em 1855, como um Deuxièmes Crus.

Por volta do século XVIII, a propriedade, então denominada de Fond-Bedeau, pertencia ao cavaleiro Joseph Stanislas Gruaud, sendo administrada por um abade parente seu. Posteriormente, em 1781, a propriedade foi herdada pelo Cavaleiro Larose, parente dos Gruaud, que rebatizou a propriedade de Gruaud-Larose, ampliando os vinhedos de 50 para 80 hectares.

Em 1812, na ausência de herdeiros, Gruaud-Larose foi adquirida em leilão por duas famílias distintas, mantendo-se intacta até 1867 quando foi divida em duas partes, Château Gruaud-Larose-Sarget (parte da família Sarget) e Château Gruaud-Larose-Faure (parte da família Faure).
 
Na primeira metade do século XX, da família Cordier compra as duas partes da propriedade (Sarget em 1917; Faure em 1935), se tornando uma das principais vinícolas nas operações da família Cordier.

Atualmente, após pertencer a alguns outros proprietários, o  Château Gruaud-Larose pertence, desde 1997, a família Merlaut, experimentando um vigoroso renascimento, mormente a partir da safra de 2000.

Desde a aquisição da vinícola pela família Merlaut, métodos sustentáveis e técnicas de manejo orgânicos foram introduzidos, optando-se nos últimos anos por uma maior expansão das vinhas de Cabernet Sauvigon.

Hoje a propriedade conta com cerca de 80 hectares de vinhedos plantados (61% Cabernet Sauvigon, 29% Merlot, 5% Cabernet Franc e 5% Petit Verdot).

Como usualmente ocorre nos Châteaux bordaleses, a vinícola produz apenas dois rótulos, o homônimo Château Gruaud Larose e seu second vin (leia aqui sobre os seconds vins de Bordeaux) o Sarget de Gruaud Larose.

Um curiosidade foi a participação a partir de 1998 do Château Gruaud Larose no projeto vitivinícola  Osoyoos Larose, em Okanagan Valley, na costa oeste do Canadá (British Columbia)elaborando um Grand Vin homônimo e um segundo vinho, Pétales d’Osoyoos, com assemblages bordaleses. Hoje o Château Gruaud Larose não integra mais o projeto, como me foi dito quando em recente visita à propriedade em Bordeaux.

Faz alguns meses tivemos o privilégio de visitar o Château Gruaud Larose.

Ao contrário de muitas vinícolas em Bordeaux, o Château Gruaud Larose possui um estrutura de enoturismo, aberto a visitas , de preferência mediante prévia reserva, e oferecendo outras atividades além das clássicas visitas, como, por exemplo, observação da colheita com almoço, curso de degustação, curso de culinária.

Para nossa grata surpresa, ao chegarmos na vinícola, fomos recebidos pela Maísa Mendonça (e-mail para reservas em português: maisa@gruaud-larose.com), uma simpática mineira há anos radicada na França (mencionei que o site do Château tem versão em português do Brasil!?).

Percorremos a propriedade, observando os diversos estágios da elaboração dos vinhos. Além da belíssima cave, o ponto alto da visita é a subida (de elevador ou de escada, dependendo da disposição do visitante) à moderna torre de observação construída recentemente na propriedade. A torre proporciona uma vista de 360 graus dos vinhedos e das propriedade adjacentes.
 
Encerramos a visita com uma bela degustação: um elegante Château Gruaud Larose 1999, e um o Sarget de Gruaud Larose 2000, ambos ainda com vida longa pela frente.


Quando em Bordeaux, uma visita imperdível! Santé!

segunda-feira, 6 de março de 2017

Bien Nacido Vineyards – Um dos Grand Crus da Califórnia


Embora a noção de terroir nos países do novo mundo não seja, até mesmo por razões históricas, tão forte como em países como a França, já faz alguns anos que esse cenário vem mudando. Os apreciadores vêm buscando vinhos que reflitam o local de origem, com identidade própria, fugindo de produtos homogeneizados.

Bien Nacido Vineyards (no plural mesmo, embora seja um único e contíguo vinhedo) é um dos vinhedos históricos da Califórnia, tendo se tornado, ao longo dos anos, um ícone da prestigiosa AVA (American Viticultural Area) de Santa Maria Valley, no condado de Santa Barbara.

Bien Nacido se beneficia da topologia única da região de Santa Barbara, onde as cadeias de montanhas têm um eixo oeste-leste em contraposição ao eixo norte-sul da cadeias de montanhas do resto da Califórnia e dos demais Estados da costa oeste norte-americana, possibilitando, assim, a entrada da brisa fria do Pacífico.

Por esta razão, o vinhedo Bien Nacido é praticamente um semideserto com influência marítima, um dos vinhedos mais frios do mundo. A região é encoberta por nevoeiros pela manhã e recebe brisas marítimas pela tarde, um clima propício para variedades como Pinot Noir e Chardonnay.

Por conta da reconhecida qualidade de suas uvas, desde a década de 1980 produtores já ostentavam em seus rótulos a designação Bien Nacido Vineyards.

A propriedade na qual se localiza o vinhedo Bien Nacido foi adquirida pela família Miller em 1969, não havendo, na época, vinhas ali plantadas. A intenção inicial dos Millers não era plantar vinhedos mas batatas e frutas

Foi no início da década de 1970 que os Millers decidiram cultivar vinhedos. Nos primeiros anos, tentaram cultivar Cabernet Sauvignon e outras uvas mais propícias a climas mais quentes mas sem grande sucesso.
 
É na década de 1980 que ocorre a grande guinada do Bien Nacido. Nessa época, os Millers, atentos ao clima frio do local e à longa época de colheita, perceberam o potencial para o plantio de outras uvas, como a Pinot Noir, a Chardonnay e a Syrah, abandonando a Cabernet Sauvignon.

Os Millers estabeleceram parceria com a University Of California – Davis e receberam diversas de suas vinhas de lá, muitas plantando sem enxerto de uvas não viníferas. Hoje, Bien Nacido fornece diversas mudas para outros vinhedos, tendo se tornado uma referência.

Também é na década de 1980, por razões comerciais, que os Millers desistem da Riesling e da Gewürtztraminer, apesar de apresentarem bons resultados.

Nessa mesma época os Millers decidem não mais vender suas uvas a granel para grandes produtores de Napa, Sonoma, dentre outras regiões. Passam a ver o futuro não apenas do Bien Nacido Vineyards mas de toda a região em vinhos elaborados em pequenas quantidades por enólogos talentosos. Em suma, apostam na própria noção de terroir.

Em um verdadeiro desprendimento, os Millers passam a apoiar jovens e florescentes enólogos (hoje com um trabalho consagrado e reconhecido) como, por exemplo, Bob Lindquist (Qupé), Jim Clendenen (Au Bon Climat) e Adam Tolmach (Ojai Vineyards).

As relações eram mais pessoais do que propriamente comerciais e, ainda hoje são assim.
Apenas para se ter uma ideia Bob Lindquist (Qupé) e Jim Clendenen (Au Bon Climat), mantêm suas instalações em comum dentro do Bien Nacido Vineyards, em uma clara demonstração de reconhecimento por sua contribuição ao próprio prestígio do vinhedo.

Atualmente, o Bien Nacido possui entre 600 a 800 acres de vinhas plantadas, das quais cerca de 200 com Pinot Noir, 190 com Chardonnay e 40 com Syrah. Há ainda alguns acres, muitos experimentais, com vinhas de Marsanne, Rousanne, Grenache, Mourvèdre Viognier, Nebbiolo, Refosco, Tocai Friulano, Pinot Blanc, Pinot Gris, Merlot e Petit Verdot.

Hoje os Millers também passaram a produzir seus próprios vinhos a partir do Bien Nacido Vineyards, bem como de outro célebre vinhedo de sua propriedade na região, o Solomon Hills Vineyards.

Há mais de três dezenas de produtores que elaboram vinhos com uvas do Bien Nacido Vineyards, existindo uma lista de espera para novos produtores.

Cada produtor arrenda suas respectivas parcelas do vinhedo, indicando e orientando a forma de cultivo, poda colheita etc. Vários produtores colocam em seus rótulos menções às respectivas parcelas (blocks), de forma muito similar aos climats na Borgonha, até como forma de demonstrar as nuances existentes entre parcelas de um vinhedo tão extenso.

Após degustar diversos vinhos do Bien Nacido Vineyards, de produtores diversos, com uvas diferentes e de diferentes parcelas (Pinot Noir, Chardonnay, Syrah, Viognier, Rousanne, Grenache), a conclusão a que se chega é simples: o vinhedo é sinônimo de qualidade. 

E, depois de conhecer o local e de degustar diversos vinhos na companhia de Bob Lindquist (Qupé) e Jim Clendenen (Au Bon Climat) -o que será objeto de futuro post - posso dizer que os vinhos são mágicos e especiais.

Cheers!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Descobrindo Washington Parte 2 – Yakima Valley, Horse Heaven Hills e Red Mountain

Como mencionamos em post anterior, as principais áreas vinícolas do Estado de Washington (leia mais aqui) se encontram no leste do Estado, separado do oeste pelas cadeias de montanhas Cascade e Olympics.

Ao contrário do clima frio e chuvoso do oeste de Washington, o leste do Estado possui um clima seco, quase desértico e com baixo índice pluviométrico, extremamente propício para o plantio de uvas como a Cabernet Sauvignon, a Merlot e a Syrah.

Após visitarmos Seatlle e Woodinville (leia mais aqui), rumamos rumo ao leste do Estado. Algum tempo na estrada e começamos a subir a montanha, a neve surgindo pouco a pouco. Depois de cruzarmos a cadeia de montanhas, a paisagem de pinheiros típica do oeste cedeu espaço a uma paisagem quase desértica, inóspita, lembrando muito as pradarias dos antigos filmes de cowboys. Depois de quase quatros horas havíamos chegado ao Yakima Valley.

Escolhemos a pequena cidade de Prosser como primeira base para visitarmos as vinícolas das AVAs (American Viticultural Aereas) de Yakima Valley, Horse Heaven Hills e Red Mountain (também experimentando vinhos das demais AVAs vizinhas).

Logo no primeiro dia, conseguimos visitar cinco vinícolas. Próximo ao nosso hotel havia o Vintner’s Village, com diversos tasting rooms.

A primeira vinícola a ser visitada foi a Airfield Estates Winery cujas instalações são um antigo hangar de aviões construído durante a Segunda Guerra Mundial pelo avô de um dos proprietários, contando com diversos modelos de aviões em miniatura. Degustamos cinco vinhos: Vineyard Salute Flygirl White 2013 (um corte de Roussanne, Pinot Gris, Viognier, Gewurztraminer e Chardonnay), Vineyard Salute Bombshell Red 2012 (Syrah, Merlot, Cabernet Sauvignon, Malbec e Petit Verdot), Hellcat Yakima Valley 2013 (um corte de Tempranillo e Syrah), Airfield Estates Syrah Yakima Valley 2012 e por fim o Airfield Estates Riesling Late Harvest Yakima Valley 2013.

Na sequencia, visitamos a McKinley Springs Winery, cujos vinhos muito nos impressionou, em especial os brancos e o Malbec. Degustamos o Chenin Blanc 2012 Horse Heaven Hills 2012, o Viognier Horse Heaven Hills 2011, Bombing Range White Wine Horse Heaven Hills 2012 (Chenin Blanc e Viognier), Bombing Range Red Wine Horse Heaven Hills 2010 (Syrah, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Malbec, Mourvèdre), Malbec Horse Heaven Hills 2010 e Petit Verdot Horse Heaven Hills 2010. Ao final a atendente ao descobrir que éramos brasileiros e que estávamos em Washington para visitar as vinícolas, não nos deixou pagar. Uma amostra da hospitalidade do leste de Washington.

Logo ali ao lado, visitamos a Coyote Canyon, também com excelentes vinhos e um atendimento muito simpático. Provamos os seguintes vinhos: Andrews White Horse Heaven Hills 2011, Viognier Horse Heaven Hills 2012, Roussanne Horse Heaven Hills 2012, Life is a Rosé Barbera Horse Heaven Hills 2013, Albariño Horse Heaven Hills 2013, Grenache Horse Heaven Hills 2010, Sangiovese Horse Heaven Hills 2010, Cabernet Sauvignon Horse Heaven Hills 2010, Reserve Michael Andrews Horse Heaven Hills 2010 (um blend de Tempranillo e Graciano)  e por fim o Primitivo Horse Heaven Hills 2010.

A visita seguinte foi à Martinez & Martinez, cujos vinhos não nos empolgaram tanto como as demais. Degustamos ali: Viognier Alter Ridge Vineyard Horse Heaven Hills 2013, Pinot Grigio Tudor Hills Vineyard Horse Heaven Hills 2013, May Mae Rosé of Cabernet Sauvignon Horse Heaven Hills 2014, César Red Wine Horse Heaven Hills 2011 (Cabernet Sauvignon, Carmenérère e Petit Verdot), Dominio de Martinez Cabernet Sauvignon Horse Heaven Hills 2011 e o doce Selina Méchelle Organe Muscat Horse Heaven Hills 2012.

A última vinícola do dia (e também a melhor) foi a Milbrandt Vineyards. O interessante foi que os vinhos degustados eram de outras AVAs vizinhas nas quais praticamente não existem tasting rooms, Ancient Lakes e Wahluke Slope. Degustamos os seguintes vinhos: The Estates Ancient Lakes Riesling 2013, The Estates Wahluke Slope Viognier 2013, Vineyards Series Clifton Vineyards Grenache Wahluke Slope 2011, The Estates Wahluke Slope Malbec 2012, Vineyards Series Northridge Vineyard Primitivo Wahluke Slope 2011 e por fim o Vineyards Series Petit Verdot Wahluke Slope 2011. Embora todos os vinhos mostrassem uma elevada qualidade, o Riesling, o Grenache e o Malbec foram os melhores. Posteriormente, ainda nessa viagem, provamos o Sentinel Wahluke Slope 2010, um típico corte de inspiração bordalesa com Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec e Petit Verdot, que também muito nos impressionou.

No segundo dia, visitamos a Columbia Crest, que fica em uma área bem isolada, cerca de meia hora de carro de Prosser. A vinícola é do mesmo grupo do Chateau Ste. Michelle, e contribuiu fortemente com a promoção dos vinhos de Washington quando em 2009 o seu Columbia Crest Cabernet Sauvignon Columbia Valley Reserve 2005 foi o Wine of the Year no Wine Spectator Top 100 2009 (vinho vendido na época por US$ 29.00, mostrando o custo-benefício dos vinhos de Washignton a que nos referimos em post anterior).

A degustação foi simplesmente espetacular. Além Columbia Crest Cabernet Sauvignon Columbia Valley Reserve 2011, diversos vinhos da linha Reserve, alguns de edição limitadas: Chardonnay Unoaked Horse Heaven Hills 2013, Chardonnay Horse Heaven Hills 2012, Merlot Columbia Valley 2012, Cabernet Sauvignon 2011 Red Moutain, Coyote Canyon VIneyard Syrah Horse Heaven Hills 2011 e Malbec Horse Heaven Hills 2012. Provamos ainda um fresco Sauvignon Blanc 2014 da linha H3 e que ao contrário dos vinhos Chardonnay, Merlot e Cabernet Sauvignon dessa linha de excelente custo-benefício, não é exportado para o Brasil.

Por incrível que pareça, o que mais nos chamou a atenção foi o Malbec, elaborado pela primeira vez e em quantidades ínfimas e uma espécie de projeto pessoal do enólogo Juan Muñoz Oca (argentino criado em Mendoza).

Já era o terceiro Malbec que degustávamos em dois dias na região e que impressionava muito. Todos eram extremamente elegantes e aveludados, com boa acidez e fruta se sobrepondo à madeira, praticamente imperceptível. Ficou evidente que a Malbec tem um futuro promissor em Washington, como protagonista, não se limitando apenas a compor blends. Talvez até mesmo pelas condições climáticas muito similares às de Mendoza.

Na sequencia nos dirigimos até Red Mountain (leia mais aqui e aqui). Na verdade, não há opções de hotel em Red Mountain, estando as melhores opções de hospedagem em Prosser ou em Tri Cities.

Dentro do nosso planejamento, optamos por visitar Red Mountain  em dois dias distintos, um a partir de Prosser e outro um tempinho depois, após visitarmos Walla Walla mais ao leste, ficando hospedados em Kennewick, uma das cidades que compõem as chamadas Tri Cities (que na verdade são quatro: Kennewick, Pasco, Richland e West Richland).

Começamos pela Terra Blanca, uma bela vinícola e a única que vimos em Red Mountain que possuía um pequeno restaurante aberto apenas nos finais de semana. Os vinhos degustados nos impressionaram, foram eles: Signature Series Marsanne Red Mountain 2012, Signature Series Block 5 Chardonnay Red Mountain 2010, Signature Series Merlot Red Mountain 2009, Onyx Red Mountain 2011 (61% Cabernet Sauvignon, 33% Merlot, 3% Petit Verdot, 2% Cabernet Franc e 1% Malbec), Signature Series Petit Verdot Red Mountain 2009, Signature Series Cabernet Sauvignon Red Mountain 2009, Signature Series Batholith Red Mountain 2009 (56% Merlot, 39% Cabernet Sauvignon e 5% Syrah), Signature Series Block 8 Syrah Red Mountain 2010 e terminamos com o Arch Terrace Yakima Valley Late Harvest Chenin Blanc Cherry Hill Vineyard 2012. 


Na sequencia visitamos a Kiona Vineyards, com uma bela sala de degustação com uma esplendida vista de Red Mountain. Os vnhos não ficaram nem um pouco atrás da beleza do local. Provamos os seguintes vinhos: Chenin Blanc Columbia Valley 2013, Red Mountain Lemberger 2012 (95% Lemberger, 5% Carmenère), Malbec Estate Red Mountain 2012, Old Block Cabernet Sauvigon Red Mountain 2012, Red Mountain Reserve 2012 (Cabernet Sauvigon e Merlot) e finalizamos com um Late Harvest Riesling Columbia Valley 2013.

Após essa primeira visita a Red Mountain, retornamos a Prosser, e visitamos mais duas vinícolas, próximas uma da outra e de nosso hotel.

A primeira foi a tradicional Kestrel, com uma gama interessante de vinhos, alguns de produção limitadíssima, quase experimentos. Degustamos os seguintes vinhos: Falcon Series Pinot Gris Yakima Valley 2013, Falcon Series Sangiovese Yakima Valley 2010, , Falcon Series Merlot Yakima Valley 2010, , Falcon Series Syrah Yakima Valley 2010, , Falcon Series Tribute Red Yakima Valley 2010 (52% Mourvèdre, 44% Merlot, 3% Cabernet Sauvignon e 1% Sangiovese) e o Falcon Series Cabernet Sauvignon Yakima Valley 2012. Nossos preferidos foram o Cabernet e o Syrah. O simpático atendente ainda nos forneceu diversas indicações de vinícolas em Walla Walla, que seria nossa próxima etapa.

Finalizamos o dia – e a maratona – visitando a The Hogue Cellars, outra vinícola tradicional da região com uma bela linha de vinhos. Provamos os seguintes: Chardonnay Reserve Yakima Valley 2013, Terroir GSM (Grenache, Syrah, Mourvèdre) Lonesome Spring VIneyard Yakima Valley 2012, Merlot Reserve Columbia Valley 2011, Terroir Muscat Canelli Andrews & Rowell Vineyard Horse Heave Hills 2014 e finalizamos com o , Terroir Malbec Andrews & Rowell Vineyard Horse Heave Hills 2010.

Depois de dois dias na região e seguimos viagem rumo à Walla Walla, objeto de um post futuro.

Cheers!