quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Você conhece a Foire aux Vins?

Foire aux Vins pode ser traduzida literalmente como “feira de vinhos”. m daqueles eventos com diversos stands e produtores apresentando seus rótulos para sedentos enófilos ou para grandes compradores em potencial.

Na França é tradicional, por exemplo, a Foire aux Vins d’Alsace, um festival gastronômico, que ocorre por cerca de dez dias em Colmar durante a segunda metade de agosto. 

Porém, mais do que significar feiras regionais de vinhos, a Foire aux Vinsé uma verdadeira instituição francesa. Se visitarmos a França em setembro, início de outubro, em todos os supermercados e em praticamente todos os cavistes (lojas de vinhos) iremos nos deparar com o termo, sempre em destaque.

Trata-se de um período em que os estabelecimentos vendem inúmeros rótulos de vinhos, das mais variadas origens (não são apenas os franceses, embora prevaleçam, por razões óbvias), de tipos diversos e diversificadas faixas de preço, com descontos substanciais.

É a época em que os franceses aproveitam para abastecer suas adegas, seja comprando vinhos para pronto consumo, seja para guarda.

Cada estabelecimento, caviste ou supermercado, tem seu período específico de Foire aux Vins entre o final de agosto e início de outubro, uns com períodos mais longos e outros com períodos mais curtos.

Nos supermercados, os vinhos se espalham por prateleiras além da cave (seção de vinhos), degustações são organizadas, as publicações especializadas e suplementos especiais dos jornais e revistas como Le Figaro, Le PointLa Revue du Vin de France publicam edições temáticas ou suplementos especiais com as datas de início e fim da Foire aux Vins de estabelecimentos diversos, e, o mais importante, les bonnes affaires, as dicas de boas compras.

A origem da Foire aux Vins remonta ao ano de 1973, quando a direção da rede de supermercados E. Leclerc decidiu buscar vinhos mais sofisticados para vender em suas filiais, buscando vinhos de AOC/AOPs (Appellation d'Origine Contrôlée/Protégée). Após muitas negativas, acabaram por vencer as resistências iniciais, passando a vender vinhos de Bordeaux, dentre outros, democratizando, assim, o acesso e o consumo do vinho.

Alguns dizem em tom jocoso que setembro é escolhido para a principal Foire aux Vins para os pais comemorarem a volta às aulas dos filhos após as férias de verão no hemisfério norte; já outros defendem que é para comemorar a nova colheita.

Foire aux Vins ocorre ainda em março e início de abril, embora a do segundo semestre seja mais badalada.

De qualquer forma, estando na França, é uma excelente oportunidade para adquirir vinhos. A Foire aux Vins, mais que uma feira, é uma verdadeira festa do vinho! Santé!

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Vin de Paille – Um Doce Tesouro do Jura

Espremida entre a Borgonha e a Suíça há uma região montanhosa, o Jura, com uma pequena produção de vinhos, apenas 10% exportados. 

Embora não seja tão famoso e badalado como a sua vizinha Borgonha, o Jura produz excelentes vinhos, brancos, tintos, espumantes e até mesmo um vinho fortificado com aguardente obtido da destilação dos bagaços de vinho local (AOC Macvin du Jura) ou ainda o original Vin Jaune.

Na região do Jura existem cinco uvas autorizadas para a produção de vinhos: as brancas Chardonnay Savagnin; e as tintas Poulsard (ou Ploussard); Pinot Noir Trousseau.

Há ainda seis AOCs/AOPs (Appellation d'Origine Contrôlée/Protégée): Arbois (a maior de todas); Château-ChalonL’ÉtoileCôtes du Jura (a segunda em tamanho), Macvin du Jura (para vinhos fortificados) e Crémant du Jura (espumantes rosés e brancos).

Vin de Paille (“vinho da palha” em tradução livre) não é uma AOCs/AOPs (Appellation d'Origine Contrôlée/Protégée). Na verdade, o Vin de Paille é um estilo de vinho produzidos em três das AOPs do JuraArbois, L’Étoile Côtes du Jura, e suas normas constam dos regramentos das respectivas denominações de origem, sendo que, por lei, seu teor alcóolico mínimo é de no mínimo 14%.

Vin de Paille é um dos tesouros vitivinícolas da França. Um tradicional vinho doce elaborado na região do Jura pelo método passerillage, um método ancestral. Por esse método, os cachos de uvas são colocados, após colhidos manualmente, por alguns meses para secar em esteiras ou em leitos de palha (daí o seu nome), ou até mesmo pendurados em ganchos ou cordas presos a vigas, em ambientes fechados, ventilados, porém não aquecidos.

Com a desidratação das uvas, ocorre concentração dos açúcares e dos compostos aromáticos antes de serem prensadas e vinificadas.

Entre o final do ano e fevereiro as uvas são prensadas. A fermentação é lenta e o mosto acaba por não fermentar completamente. O resultado é um vinho doce, com teor alcóolico entre 14 e 15%.

Trata-se do mesmo método do Recioto ou do Soave di Valpolicella (em italiano o método é chamado de appassimento).

Na sequência o vinho passa por um estágio de 18 meses em barricas. 

Em geral, só é colocado a venda três anos após a colheita, quase sempre em garrafas de 375 ml.

O mais comum é a utilização das uvas brancas Chardonnay Savagnin, e da tinta Poulsard. Trousseau é permitida, embora raramente utilizada. A Pinot Noir é vetada. 

Os Vins de Paille são longevos, com grande capacidade de guarda. Apresentam aromas de laranja cristalizada, mel, caramelo e ameixas. São perfeitos para harmonizar com foie gras.

Importante, por fim, lembrar que o termo Vin de Paille 
(ou Vin Paillé) também é utilizado para vinhos similares produzidos em outras regiões da França: Vin de Paille de Tain l'HermitageVin Paillé de Beaumont-du-VentouxVin de Paille de CorrèzeVin Paillé du Cap Corse.

Santé!

terça-feira, 30 de julho de 2019

Bollinger La Côte aux Enfants 2013 (Coteaux Champenois) – Um Incrível Tinto da Região de Champagne


Quando pensamos na região de Champagne de imediato nos remetemos a seus vinhos espumantes.

No entanto, acabamos por nos esquecer que os históricos e tão celebrados vinhos espumantes de Champagne estão englobados em uma das AOP (Apellation d'Origine Protégée, antiga Apellation d'Origine Contrôlée) da região: AOP Champagne, a principal, obviamente.

Porém, há duas outras AOPs na região, com uma produção minúscula – até porque elaborar Champagne é muito mais lucrativo – e que produzem vinhos “tranquilos” (não espumantes): Rosé de Riceys (100% vinhos rosados tranquilos) e Coteaux Champenois (100% vinhos tranquilos, brancos, rosados e tintos).



A AOP Rosé de Riceys produz vinhos rosés elaborados exclusivamente com a Pinot Noir e sua produção se limita às três aldeias de Les Riceys no Aube (Bar sur Aubois, na Côte des Bars).

Já a AOP Coteaux Champenois possui uma área bem maior que a da AOP anterior, correspondendo à quase totalidade da zona de produção da AOP Champagne, não obstante as divisas territoriais não se correspondam exatamente. Os vinhos são em sua esmagadora maioria brancos e tintos, embora possam ser produzidos rosés. As uvas autorizadas são as clássicas e principais da AOP Champagne: Pinot Noir, Pinot Meunier e Chardonnay. Podem ser usadas ainda as uvas secundárias de Champagne: Petit Meslier, Arbanne, Pinot Blanc e Pinot Gris.
 
Justamente por serem os vinhos espumantes da AOP Champagne as grandes estrelas da região, os vinhos das demais AOPs acabam sendo relegados a um segundo plano, tornando-se difíceis de encontrar.

Isso não significa que sua qualidade seja inferior, em especial os da AOP Coteaux Champenois, já havendo, entre algumas clássicas Maisons de Champagne, uma tendência a elaborar alguns rótulos.

Esses rótulos, que muitas vezes eram reservados a convidados, passaram a ser disponibilizados no mercado, em quantidades pequenas.

Esse mês tivemos a oportunidade de degustar um dos expoentes desse, por assim dizer, movimento com foco no terroir.

Degustamos o Bollinger La Côte aux Enfants 2013 AOP Coteaux Champenois, vinho tinto elaborado apenas com a Pinot Noir.

A Bollinger é uma das mais prestigiadas e míticas casas de Champagne, notória não apenas pela alta qualidade de seus Champagnes, mas também por ser o Champagne do agente secreto James Bond.

O Bollinger La Côte aux Enfants 2013 é elaborado em anos excepcionais a partir de uvas Pinot Noir do vinhedo La Côte aux Enfants, um monopole  da Bollinger localizado na vila de Aÿ, um Grand Cru, portanto (vale lembrar que na classificação da região de Champagne são as vilas classificadas como Grand Cru, Premier Cru, e não os vinhedos em si, ao contrário do que ocorre no sistema da Borgonha).

O vinhedo La Côte aux Enfants - apelidada de a Romanée-Conti da Champagne – com cerca de quatro hectares era dividida por diversos proprietários, até que no século XIX Joseph Bollinger conseguiu êxito em adquirir todas as parcelas.

A condução do vinhedo é, desde 2009, de agricultura biológica, somente sendo produzido esse incrível vinho em safras excepcionais, buscando expressar o notável terroir do histórico vinhedo Côte aux Enfants em Aÿ.

O vinho é envelhecido por oito meses em pequenos barris de carvalho. Apresenta um vermelho púrpura. No olfato, apresenta intensidade pronunciada, com aromas de frutas vermelhas, como morango, framboesa, groselha, ameixa, cereja; e especiarias como cravinho, alcaçuz; além de cogumelos, terra e um toque de pimenta, mostrando-se ainda em evolução. Seco, apresenta acidez média (+), taninos moderados, contando com com 12% de teor alcoólico e intensidade pronunciada, destacando-se os sabores de frutas vermelhas, com excelente equilíbrio e final longo.

Um detalhe curioso é a rolha, utilizando-se a tradicional dos Champagnes, inclusive a forma de encapsulamento.

Um vinho único e extremamente elegante! Agora é procurar um branco da AOP Coteaux Champenois!

Santé!

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Porto Kopke Colheita 1974, no Auge aos 45 anos

Encontrar um vinho do ano de seu nascimento quando se tem 45 anos não é uma tarefa das mais fáceis. Em especial, quando o ano não foi excepcional em regiões produtoras de vinhos de longa guarda.

É exatamente isso que ocorre com o “meu” ano, 1974, que não representou uma grande safra em Bordeaux, na Borgonha, ou ainda no Piemonte, só para mencionar algumas regiões. 

Após degustar um Bordeaux 1974 ao completar 40 anos (relembre aqui), passei a procurar outros vinhos da safra 1974 para abrir em aniversários futuros.

Pelo tempo já decorrido e buscando obter vinhos em condições adequadas de consumo e ainda evitando correr grandes riscos, voltei-me para os vinhos fortificados, em especial os vinhos do Porto. Justamente pela adição de aguardente vínica, vinhos do Porto nos estilos Vintage ou Colheita suportam mais os efeitos do tempo.

O ano de 1974 não foi um ano “vintage clássico”, isto é, quando mais da metade dos produtores membros da Confraria do Vinho do Porto produz vinhos Vintage e o grupo decide declarar o ano como “clássico”. Obviamente, alguns produtores elaboraram vinhos do Porto vintages, como a Kopke ou a Taylor’s (esta produziu um Single Quinta, o Quinta de Vargellas).

Minhas atenções voltaram-se, então, aos vinhos do Porto Colheita, que são tawnies de um ano específico e de elevada qualidade, e  envelhecidos em cascos por um mínimo de sete anos. Podem ser mantidos em processo de envelhecimento por mais tempo do que os sete anos mínimos, alguns ficando décadas nos tonéis. 

Quando engarrafados, estão já prontos para serem bebidos, não evoluindo,-  segundo o pensamento dominante - em garrafa, ao contrário do que ocorre com os Portos Vintages (há corrente minoritária entre os apreciadores de vinhos do Porto que defende que os Tawnies Colheitas evoluiriam em garrafa). Por isso, aconselha-se a não guardar por mais de uma década um Tawnie Colheita.

Em 2014 minha procura acabou sendo recompensada. Em uma viagem ao Porto encontrei e fui presenteado por minha esposa com um Porto Kopke Colheita 1974, engarrafado naquele ano.

Kopke é considerada a casa de vinhos do Porto mais antiga, fundada em 1638. Atualmente, produz não apenas vinhos do Porto, mas também vinhos tranquilos, ou “de mesa”, como se denomina em Portugal.

Embora produza vinhos do Porto em variados estilos, com certeza o ponto alto dos vinhos do Porto da Kopke reside nos seus Colheitas, dos mais variados anos, com preços bem corretos ao nosso sentir, em especial quando se leva em conta a idade dos vinhos, o tempo de armazenamento etc...

Kopke Colheita 1974 apresentou uma cor acastanhada dourada, com reflexos alaranjados. No nariz, mostrou-se límpido, com intensidade média (+) e aromas de amêndoas tostadas, avelãs, nozes, caramelo, café torrado e notas de chocolate. Na boca, doce, com boa acidez (média), taninos médios (+), álcool alto, intensidade pronunciada, sabores de frutas secas com destaque para nozes e amêndoas torradas, e caramelo. Final longo. 

Um vinho que ainda pode durar mais alguns bons anos e de excelente qualidade, daqueles para se manter na memória.

Felizmente, recentemente encontrei outro Porto da minha safra, a ser guardado para os 50 anos! Saúde!

sexta-feira, 31 de maio de 2019

A Alsace e seus Vinhos: Uma Breve Introdução – Parte I

Imagine uma região produtora de vinhos em que duas das principais uvas sejam a Riesling e a Gewurtztraminer; em que as garrafas do vinhos sejam as longas e estreitas flutes; em que nos rótulos conste o nome da uva; em que o grau de açúcar residual nos vinhos seja um tema relevante; em que os vinhedos tenham nomes como Altenberg de Bergheim, Geisberg, Schoenenbourg, Schlossberg, dentre outros. Para completar, Flammekuche Choucroute sejam dois pratos típicos locais.

Embora essa região fique na beira do Reno, ela é francesa, a Alsácia, ou Alsace (o “s” com pronúncia de “z”). E apesar da influência germânica possui fortes traços franceses, como a presença da noção de terroir, assim como um sistema de classificação de vinhedos tipicamente francês. 

A Alsácia produzia vinhos na época dos romanos. Depois, durante a Idade Média, com o cristianismo, chegou a ter quase duas centenas de aldeias produzindo vinhos.

Na Renascença a Alsácia atingiu seu auge, sendo parte de um principado alemão. Após a Guerra dos Trintas Anos, no século XVII, a região entrou em declínio e acabou passando para o domínio francês.
 
Posteriormente, após a Guerra Franco-Prussiana, na segunda metade do século XIX, a Alsácia voltou ao domínio alemão.

Após a I Grande Guerra Mundial a Alsácia retornou à França, época em que o Governo ordenou a retirada de vinhas híbridas e sua substituição por Vitis Viniferas, o que acabou ocorrendo como um todo apenas anos depois do final do segundo conflito mundial, posteriormente a 1949.

Durante a II Guerra Mundial a Alsácia foi anexada novamente à Alemanha, retornando para a França ao fim do conflito.

Todas essas mudanças de domínio sobre a Alsácia geraram uma fusão entre as culturas alemã e francesa, originando a cultura alsaciana, da qual os vinhos são um de seus reflexos.

Situada no nordeste da França, a Alsácia fica ao longo da fronteira com a Alemanha, 120 km de norte a sul, com apenas 5,8km de largura.

O clima alsaciano é continental, com verões quentes e invernos gélidos. A cadeia de montanhas Vosges ao oeste da Alsácia protegem a região dos ventos úmidos e das nuvens carregadas de chuva que vêm do oeste. O efeito dos Vosges faz com que a Alsácia seja quente e ensolarada, trazendo como consequência o amadurecimento mais lento das uvas, acarretando complexidade aromática.

Há uma grande variedade de solos na Alsácia (xisto, calcário, vulcânico, marga, granito, gnaisse, arenito, areia, argila, loess etc...), que podem ser encontrados sós ou mesclados nas mais variadas combinações, criando um rico mosaico.

E cada tipo de solo ou combinação, aliado com o respectivo microclima são ideais para uma ou outra variedade de uva, o que os produtores vêm aprendendo e aprimorando por gerações.

Na Alsácia os rótulos indicam em destaque, em regra, os nomes das cepas, algo praticamente único na França. 

Embora inicialmente a valorização da variedade se sobrepusesse ao local, isso vem mudando já faz alguns anos, primeiro com a criação da denominação autônoma Grand Cru e depois com subcategorias dentro da AOC Alsace (Communal Lieu-Dit), aumentando cada vez mais a necessidade do vinho expressar um local único.

As principais uvas da Alsace são: 
- Riesling;
- Gewurztraminer (escrito sem o trema mesmo);
- Pinot Gris;
- Pinot Blanc (chamada também de Klevner ou Pinot Vrai) e muitas vezes plantada misturada com a Auxerrois Blanc;
- Muscat (Ottonel ou à Petits Grains Blanc, duas variedades distintas);
- Pinot Noir.

Há ainda outras uvas, como Auxerrois Blanc, porém de menor importância.

A esmagadora maioria dos vinhos na Alsácia é de brancos, embora haja rosés e tintos.

Em geral, os vinhos na Alsácia são monovarietais. No entanto, é possível haver cortes, como os vinhos rotulados como Gentil (deve conter ao menos 50% de Riesling, Gerwuztraminer, Muscat ou Pinot Gris, com cada variedade vinificada separadamente) ou Edelzwicker (corte de vinhos com qualquer das uvas autorizadas na Alsace). Tais vinhos se inserem na denominação AOC Alsace.

Os espumantes – Crémant d’Alsace - também podem ser cortes.

Há ainda os incríveis vinhos do “rebelde” Jean-Michel Deiss (Domaine Marcel Deiss) que colhe uvas diversas plantadas misturadas no vinhedo (field blend ou complantation) e as vinifica conjuntamente, mantendo menção apenas ao nome do vinhedo. Tais vinhos são defendidos como integrantes de uma futura categoria a ser criada nos moldes dos premiers crus da Borgonha (lieux-dits - crus d'alsace en cours de hiérarchisation).

Não podemos esquecer ainda de vinhos identificados no rótulo como Pinot d’Alsace, ou ainda como Klevner (esta um sinônimo para a Pinot Blanc). São vinhos produzidos com a Auxerrois Blanc, Pinot Blanc, Pinot Noir (elaborado como branco) e Pinot Gris. Podem ser monovarietais ou um corte de algumas dessas castas, não havendo regramento quanto a percentuais mínimos ou máximos.

Há ainda exceções entre os Grand Crus alsacianos, como Altenberg de Bergheim Kaefferkopf, ambos possuindo detalhamentos específicos, podendo ser monovarietais ou assemblages.

Os estilos dos vinhos alsacianos podem ser:

- “secos” tranquilos (brancos, rosés e tintos), com grande prevalência dos brancos; 
- espumantes rosés e brancos (Crémant d’Alsace), 
- doces ou de sobremesa:Vendanges Tardives Sélections de Grains Nobles. 

Os Vendanges Tardives são vinhos de colheita tardia elaborados com Riesling, Muscat, Pinot Gris ou Gewrztraminer, podendo ou não ser afetados ou não pelo fungo Botrytis Cinerea (a chamada “podridão nobre”), que não é obrigatória. 

Por sua vez, os vinhos Sélections de Grains Nobles são também vinhos de colheita tardia elaborados com a Riesling, Muscat, Pinot Gris ou a Gewrztraminer, porém a “podridão nobre” é um requisito obrigatório, havendo um cuidado ainda maior, com seleção manual das uvas no vinhedo ainda. 

Uma questão atual reside no fato de nos últimos anos, até mesmo em virtude do aquecimento global, mais e mais vinhos da Alsácia estarem apresentando maiores graus de açúcar residual. Por conta do aumento das temperaturas médias, as uvas têm sido colhidas com maior teor alcóolico, e muitas vezes a fermentação termina antes mesmo de todo o açúcar ter sido convertido em álcool. 

Embora originalmente secos, hoje há vinhos nessa categoria com um maior grau elevado de açúcar residual, não havendo regramento formal para indicação na rotulagem, indicando-se os que fogem dos secos para os meio secos e meio doces. Alguns produtores, como o Domaines Schlumberger ou o Dopf au Mouloin, colocam indicações nos contra-rótulos de escalas de doçura em seus vinhos, não abrangendo os de sobremesa. Tais escalas, justamente por não estarem regulamentadas, variam de produtor para produtor. 

Na nossa próxima publicação abordaremos o sistema de classificação e hierarquização dos vinhos alsacianos e alguns temas correlatos.

Santé!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Desbravando as Denominações de Origem Italianas – Montecompatri Colonna D.O.C.

A Itália é um dos países com a maior riqueza enológica existente, produzindo vinhos em praticamente todas as suas regiões, do norte ao sul, passando por suas ilhas, Sardegna e a Sicilia. 

A variedade de uvas autóctones na Itália é imensa. O Ministério da Agricultura e Silvicultura italiano documenta centenas e centenas de cepas, entre nativas e estrangeiras. Jancis Robinson, Julia Harding e José Vouillamoz listam e analisam, em sua indispensável obra Wine Grapes – A Complete Guide to 1,368 Vine Varieties, Including Their Origins and Flavours, nada menos do que 377 variedades autóctones italianas! Tal fato já demonstra por si só a riqueza da viticultura italiana.

Na Itália há vinhos brancos, espumantes, frisantes, rosados, laranjas/âmbar, tintos, de sobremesa, nos mais variados estilos, alguns bem fora do usual como, por exemplo, vinhos elaborados com a técnica do appassimento (e.g. Amarone de Valpolicella; Sforzato di Valtellina). 

Existem, em toda Itália, aproximadamente 334 D.O.C. (Denominazione di Origine Controllata), 74 D.O.C.G. (Denominazione di Origine Controllata e Garantita) e 118 I.G.T. (Indicazione Geografica Tipica).

Nesse ponto, vale uma breve observação sobre o novo sistema europeu de hierarquização de vinhos.

Desde 1de agosto de 2009, em decorrência de regras comunitárias europeias, a hierarquização dos sistemas de vinhos dos países europeus mudou, passando a adotar a seguinte forma (em suas variações nos diversos idiomas nacionais dos países europeus): 
A) vinhos de denominação de origem protegida;
B) vinhos com indicação geográfica protegida; 
C) vinhos genéricos com safra e uva indicados;
D) vinhos genéricos (sem qualquer informação de safra e uva).

No entanto, o regulamento comunitário europeu ressalvou a possibilidade dos países membros continuarem a utilizar as próprias menções tradicionais.

Dessa sorte, os vinhos com Denominazione di Origine Protetta passaram a abarcar os vinhos D.O.C. (Denominazione di Origine Controllata) e D.O.C.G. (Denominazione di Origine Controllata e Garantita); e os vinhos com Indicazione Geografica Protetta passaram a englobar os vinhos I.G.T. (Indicazione Geografica Tipica), restando autorizadas, como dissemos antes, as menções tradicionais nos rótulos alternativamente ao uso das novas nomenclaturas.

Por tudo isso, como se percebe, o patrimônio vitivinícola italiano é vasto e de uma riqueza imensa.

No entanto, até mesmo por algumas dessas denominações de vinhos apresentarem uma produção pequena ou não terem a fama de outras, encontrar seus vinhos fora da Itália pode ser difícil ou até mesmo impossível. Muitas vezes sequer já ouvimos falar dessas denominações.

Acabamos, dessa forma, nos limitando aos vinhos de denominações mais famosas e célebres, privando-nos de desbravar novas regiões italianas e provar novos vinhos. 

Por outro lado, até mesmo pelo gigantismo italiano, com centenas de denominações, com vinhos com uvas não tão conhecidas internacionalmente - ok, todo mundo já ouviu falar em Sangiovese Nebbiolo, mas poucos ouviram falar em GrilloGreco, Oseleta, Ribolla Gialla, dentre tantas outras -, muitas vezes o apreciador tem medo de escolher algo que fuja aos vinhos que conhece ou tem prévia referência. 

Em recente viagem à Itália reservei um “espaço” para desbravar novas regiões, degustando vinhos até então, para mim, inéditos; alguns de denominações que só conhecia dos livros, e outras, confesso, totalmente inéditas.

Em Roma, procurei provar alguns vinhos da região do Lazio e descobri a D.O.C. de Montecompatri Colonna.

Criada em 1973, Montecompatri Colonna D.O.C. ou apenas Montecompatri ou Colonna D.O.C. se situa na parte central da região do Lazio, na província de Roma.

Produz apenas vinhos brancos, que podem ser secos (secco), frisantes (frizzante), meio-secos (amabile) e até mesmo doces (dolce), com suas variantes (e.g. frizzante amabile), sempre com as devidas indicações nos rótulos. Há ainda um subcategoria Superiore exclusiva para os brancos secos, com aumento do nível mínimo de álcool de 11% para 12%. 

As uvas autorizadas são Malvasia Bianca di Candia; Malvasia del Lazio (esta também chamada de Malvasia Puntinataem no máximo 70% do corte; Trebbiano Toscano, Trebianno Verde Trebbiano Giallo (mínimo de 30%), e ainda, em menores quantidades as uvas Bellone Bombino Bianco (também chamada de Buonvino ou Bonvino), limitadas a 10% do assemblage.

Os dois principais produtores de Montecompatri Colonna são Tenuta Le Quinte Casale Mattia. 

Foi justamente do primeiro produtor, Tenuta Le Quinte, que degustamos o Virtù Romane, um assemblage de Malvasia Puntinata, Trebianno Verde, Trebbiano Giallo, Bonvino e Bellone. Um vinho de cor amarelo palha, com 14% de álcool, extremamente elegante no nariz com flores, pêssegos, um pouco de menta e noz moscada. Na boca, frutas maduras como pêssego e damasco, com final longo. Uma grata surpresa!

Salute!