sexta-feira, 31 de maio de 2019

A Alsace e seus Vinhos: Uma Breve Introdução – Parte I

Imagine uma região produtora de vinhos em que duas das principais uvas sejam a Riesling e a Gewurtztraminer; em que as garrafas do vinhos sejam as longas e estreitas flutes; em que nos rótulos conste o nome da uva; em que o grau de açúcar residual nos vinhos seja um tema relevante; em que os vinhedos tenham nomes como Altenberg de Bergheim, Geisberg, Schoenenbourg, Schlossberg, dentre outros. Para completar, Flammekuche Choucroute sejam dois pratos típicos locais.

Embora essa região fique na beira do Reno, ela é francesa, a Alsácia, ou Alsace (o “s” com pronúncia de “z”). E apesar da influência germânica possui fortes traços franceses, como a presença da noção de terroir, assim como um sistema de classificação de vinhedos tipicamente francês. 

A Alsácia produzia vinhos na época dos romanos. Depois, durante a Idade Média, com o cristianismo, chegou a ter quase duas centenas de aldeias produzindo vinhos.

Na Renascença a Alsácia atingiu seu auge, sendo parte de um principado alemão. Após a Guerra dos Trintas Anos, no século XVII, a região entrou em declínio e acabou passando para o domínio francês.
 
Posteriormente, após a Guerra Franco-Prussiana, na segunda metade do século XIX, a Alsácia voltou ao domínio alemão.

Após a I Grande Guerra Mundial a Alsácia retornou à França, época em que o Governo ordenou a retirada de vinhas híbridas e sua substituição por Vitis Vinifera, o que só acabou ocorrendo como um todo apenas anos depois do final do segundo conflito mundial, depois de 1949.

Durante a II Guerra Mundial a Alsácia foi anexada novamente à Alemanha, retornando para a França ao fim do conflito.

Todas essas mudanças de domínio sobre a Alsácia geraram uma fusão entre as culturas alemã e francesa, originando a cultura alsacianam, da qual os vinhos são um de seus reflexos.

Situada no nordeste da França, a Alsácia fica ao longo da fronteira com a Alemanha, 120 km de norte a sul, com apenas 5,8km de lagura.

O clima alsaciano é continental, com verões quentes e invernos gélidos. A cadeia de montanhas Vosges ao oeste da Alsácia protegem a região dos ventos úmidos e das nuvens carregadas de chuva que vêm do oeste. O efeito dos Vosges faz com que a Alsácia seja quente e ensolarada, trazendo como consequência o amadurecimento mais lentos das uvas, acarretando complexidade aromática.

Há uma grande variedade de solos na Alsácia (xisto, calcário, vulcânico, marga, granito, gnaisse, arenito, areia, argila, loess etc...), que podem ser encontrados sós ou mesclados nas mais variadas combinações, criando um rico mosaico.

E cada tipo de solo ou combinação, aliado com o respectivo microclima são ideais para uma ou outra variedade de uva, o que os produtores vêm aprendendo e aprimorando por gerações.

Na Alsácia os rótulos indicam em destaque, em regra, os nomes das cepas, algo praticamente único na França. 

Embora inicialmente a valorização da variedade se sobrepusesse ao local, isso vem mudando já faz alguns anos, primeiro com a criação da denominação autônoma Grand Cru e depois com subcategorias dentro da AOC Alsace (Communal Lieu-Dit), aumentando cada vez mais a necessidade do vinho expressar um local único.

As principais uvas da Alsace são: 
- Riesling;
- Gewurztraminer (escrito sem o trema mesmo);
- Pinot Gris;
- Pinot Blanc (chamada também de Klevner ou Pinot Vrai) e muitas vezes plantada misturada com a Auxerrois Blanc;
- Muscat (Ottonel ou à Petits Grains Blanc, duas variedades distintas);
- Pinot Noir.

Há ainda outras uvas, como Auxerrois Blanc, porém de menor importância.

A esmagadora maioria dos vinhos na Alsácia é de brancos, embora haja rosés e tintos.

Em geral, os vinhos na Alsácia são monovarietais. No entanto, é possível haver cortes, como os vinhos rotulados como Gentil (deve conter ao menos 50% de Riesling, Gerwuztraminer, Muscat ou Pinot Gris, com cada variedade vinificada separadamente) ou Edelzwicker (corte de vinhos com qualquer das uvas autorizadas na Alsace). Tais vinhos se inserem na denominação AOC Alsace.

Os espumantes – Crémant d’Alsace - também podem ser cortes.

Há ainda os incríveis vinhos do “rebelde” Jean-Michel Deiss (Domaine Marcel Deiss) que colhe uvas diversas plantadas misturadas no vinhedo (field blend ou complantation) e as vinifica conjuntamente, mantendo menção apenas ao nome do vinhedo. Tais vinhos são defendidos como integrantes de uma futura categoria a ser criada nos moldes dos premiers crus da Borgonha (lieux-dits - crus d'alsace en cours de hiérarchisation).

Não podemos esquecer ainda de vinhos identificados no rótulo como Pinot d’Alsace, ou ainda como Klevner (esta um sinônimo para a Pinot Blanc). São vinhos produzidos com a Auxerrois Blanc, Pinot Blanc, Pinot Noir (elaborado como branco) e Pinot Gris. Podem ser monovarietais ou um corte de algumas dessas castas, não havendo regramento quanto a percentuais mínimos ou máximos.

Há ainda exceções entre os Grand Crus alsacianos, como Altenberg de Bergheim Kaefferkopf, ambos possuindo detalhamentos específicos, podendo ser monovarietais ou assemblages.

Os estilos dos vinhos alsacianos podem ser:

- “secos” tranquilos (brancos, rosés e tintos), com grande prevalência dos brancos; 
- espumantes rosés e brancos (Crémant d’Alsace), 
- doces ou de sobremesa:Vendanges Tardives Sélections de Grains Nobles. 

Os primeiros são vinhos de colheita tardia elaborados com Riesling, Muscat, Pinot Gris ou Gewrztraminer, podendo ou não ser afetados ou não pelo fungo Botrytis Cinerea (a chamada “podridão nobre”), que não é obrigatória. 

Por sua vez, os vinhos Sélections de Grains Nobles são também vinhos de colheita tardia elaborados com a Riesling, Muscat, Pinot Gris ou a Gewrztraminer, porém a “podridão nobre” é um requisito obrigatório, havendo um cuidado ainda maior, com seleção manual das uvas no vinhedo ainda. 

Uma questão atual reside no fato de nos últimos anos, até mesmo em virtude do aquecimento global, mais e mais vinhos da Alsácia estarem apresentando maiores graus de açúcar residual. Por conta do aumento das temperaturas médias, as uvas têm sido colhidas com maior teor alcóolico, e muitas vezes a fermentação termina antes mesmo de todo o açúcar ter sido convertido em álcool. 

Embora originalmente secos, hoje há vinhos nessa categoria com um maior grau elevado de açúcar residual, não havendo regramento formal para indicação na rotulagem, indicando-se os que fogem dos secos para os meio secos e meio doces. Alguns produtores, como o Domaines Schlumberger ou o Dopf au Mouloin, colocam indicações nos contra-rótulos de escalas de doçura em seus vinhos, não abrangendo os de sobremesa. Tais escalas, justamente por não estarem regulamentadas, variam de produtor para produtor. 

Na nossa próxima publicação abordaremos o sistema de classificação e hierarquização dos vinhos alsacianos e alguns temas correlatos.

Santé!

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