domingo, 28 de março de 2021

Cornas & Syrah


Ao contrário das AOP/AOCs (Appellation d'Origine Protégée/Côntrolée) do Rhône meridional, as do Rhône norte que produzem vinhos tintos se centram em uma única uva: a Syrah.


Em quase todas as AOP/AOCs (Appellation d'Origine Protégée/Côntrolée) do Rhône setentrional classificadas como Crus (AOPs possuidoras de grande prestígio e renome), o vinho tinto elaborado com a Syrah pode contar com acréscimos das uvas brancas Marsanne e/ou de Roussanne (até 10% em Saint-Joseph, e até 15% em Hermitage e em Crozes-Hermitage) ou da Viognier (até 20% em Côte-Rôtie, sendo que, em geral, é bem menos, e a Viognier é normalmente co-plantada, colhida e fermentada junto com a Syrah). A exceção é Cornas, que produz apenas vinhos tintos elaborados 100% com a Syrah.


Eclipsada por seus irmãos mais famosos, Hermitage e Côte-Rôtie, Cornas produz vinhos de alta qualidade e de guarda.


 Cornas se localiza na margem direita do rio Rhône, e seus vinhedos – um pouco mais de 100 hectares – situam-se em uma encosta íngreme em terraços de granito com orientação sudeste. Em geral, as uvas amadurecem aqui uma semana antes que em Hermitage.

 

Os vinhedos de Cornas se localizam em terraços, que começam nas imediações do vilarejo homônimo a 110 metros de elevação seguindo pela colina até 420 metros de elevação.

 

Na parte alta da apelação há mais ventos sendo, portanto, mais fria; e na parte mais baixa, há mais água e umidade, com uma variação de temperatura de cerca de 2º C entre os dois extremos. Pode haver uma diferença de até três semanas na colheita entre o alto e a parte mais baixa. Assim, de forma muito parecida com o que ocorre na Borgonha, os melhores vinhedos estão, em geral, no meio da colina.

 

No entanto, com o recente aquecimento global, os vinhedos no topo se mostraram mais promissores que antes, com as uvas amadurecendo de forma adequada. Jean-Luc Colombo foi um dos produtores que apostou em vinhedos na parte mais alta, em posições bem íngremes, conforme tive a oportunidade de verificar quando da visita em setembro de 2019 em que percorri os vinhedos de Cornas.

 

Há uma variação dos solos na AOC/AOP Cornas, dependendo do setor. Na parte norte, perto do lieu-dit Les Chaillot, o solo é arenoso e rochoso contendo algum giz e de cor marrom-avermelhada. Já o lieu-dit Quartier de Reynard, no meio da colina 300 metros) apresenta um solo granítico. E ao sul (La Côte e La Combe), o solo é predominantemente argiloso

 

Em Cornas podemos ver dois movimentos antagônicos, por assim dizer. De um lado, os tradicionalistas como Auguste Clape, Noël Verset, dentre outros, e responsáveis pelo “renascimento” dos vinhos de Cornas, adotando técnica com pouco ou nenhum desengace das uvas, fermentação em recipientes de concreto e amadurecimento em barricas mais antigas e sem uso de carvalho novo. Advogam que são vinhos que precisam de cerca de dez anos para chegar ao seu momento ideal.

 

Já na outra vertente, os modernistas (Jean-Luc Colombo, Alain Voge, dentre outros) adotam técnicas diferentes como separação das bagas (grãos da uva) dos engaços (esqueletos de sustentação do cacho) antes do esmagamento, fermentação em altas temperaturas, e uso de barricas de carvalho novo (não em sua totalidade).

 

A boa notícia para o enófilo é que os vinhos de Cornas são vinhos de excelente qualidade e que nada deixam a dever aos seus vizinhos mais famosos, porém com preço bem mais em conta se comparados com seus irmãos mais famosos, Hermitage e Côte-Rôtie.

 Santé!


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